A folha seca que o outono derrubara despertou a atenção da criança até então distraída que seguia para a escola. As fezes despejadas pelo cão da tão correta dama que esquecera seu saquinho plástico em casa devido ao atraso causado pelo leite derramado no fogão fizeram com que Seu João sujasse a sola do sapato novo, antes limpo. O tempo pra limpar a sola suja de dejetos caninos deixados pra trás pela dama que esquecera seu saquinho plástico fez com que Seu João perdesse o ônibus 074B. A criança que depois da folha seguiu em frente, distraidamente, como quase sempre, não viu o sinal, que estava vermelho. O braço enrugado e velho que segurou o ombro da criança distraída pertencia ao homem que perdera ao ônibus por causa do cão da dama que esquecera seu saquinho plástico em casa. Seu João que chegou em casa tarde da noite dormiu de lado sem saber que o 074B sofrera um acidente com 10 vítimas fatais. A criança que bebia o leite já não lembrava do braço enrugado e velho que parou seu ombro que estaria morto se o cão da dama que esquecera seu saquinho plástico não houvesse deixado seus dejetos no chão. E isso, ninguém imaginava.
- Mais do que as pessoas, as fezes e folhas salvam vidas todos os dias -
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Rotina Noturna II
Saio para rua gelada e convidativa. Saio sozinho, sempre. É como um ritual.
Ouço todos os ruídos que a noite me oferece. As luzes que me cegam me fazem enxergar com clareza.
Nas casas as famílias festejam, quentes, alheias a realidade. Nunca planejo meu roteiro. Minha única certeza é a cólera que me domina e cresce a cada passo. A fumaça que consome meu pulmão me deixa feliz... não, feliz não. Deixa-me satisfeito por diminuir meus dias a cada tragada. Por mim metia logo uma bala na merda da minha cabeça e acabava com tudo. Todos ficariam mais satisfeitos.
Mas a verdade é que não tenho coragem para tal feito. Admito. Sou um frouxo.
Portanto, continuo na rua, gelada e convidativa. Saio sozinho. Um cão sarnento que afugenta qualquer tentativa de aproximação. Um cão sarnento à procura de um revólver.
Ouço todos os ruídos que a noite me oferece. As luzes que me cegam me fazem enxergar com clareza.
Nas casas as famílias festejam, quentes, alheias a realidade. Nunca planejo meu roteiro. Minha única certeza é a cólera que me domina e cresce a cada passo. A fumaça que consome meu pulmão me deixa feliz... não, feliz não. Deixa-me satisfeito por diminuir meus dias a cada tragada. Por mim metia logo uma bala na merda da minha cabeça e acabava com tudo. Todos ficariam mais satisfeitos.
Mas a verdade é que não tenho coragem para tal feito. Admito. Sou um frouxo.
Portanto, continuo na rua, gelada e convidativa. Saio sozinho. Um cão sarnento que afugenta qualquer tentativa de aproximação. Um cão sarnento à procura de um revólver.
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