A folha seca que o outono derrubara despertou a atenção da criança até então distraída que seguia para a escola. As fezes despejadas pelo cão da tão correta dama que esquecera seu saquinho plástico em casa devido ao atraso causado pelo leite derramado no fogão fizeram com que Seu João sujasse a sola do sapato novo, antes limpo. O tempo pra limpar a sola suja de dejetos caninos deixados pra trás pela dama que esquecera seu saquinho plástico fez com que Seu João perdesse o ônibus 074B. A criança que depois da folha seguiu em frente, distraidamente, como quase sempre, não viu o sinal, que estava vermelho. O braço enrugado e velho que segurou o ombro da criança distraída pertencia ao homem que perdera ao ônibus por causa do cão da dama que esquecera seu saquinho plástico em casa. Seu João que chegou em casa tarde da noite dormiu de lado sem saber que o 074B sofrera um acidente com 10 vítimas fatais. A criança que bebia o leite já não lembrava do braço enrugado e velho que parou seu ombro que estaria morto se o cão da dama que esquecera seu saquinho plástico não houvesse deixado seus dejetos no chão. E isso, ninguém imaginava.
- Mais do que as pessoas, as fezes e folhas salvam vidas todos os dias -
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Rotina Noturna II
Saio para rua gelada e convidativa. Saio sozinho, sempre. É como um ritual.
Ouço todos os ruídos que a noite me oferece. As luzes que me cegam me fazem enxergar com clareza.
Nas casas as famílias festejam, quentes, alheias a realidade. Nunca planejo meu roteiro. Minha única certeza é a cólera que me domina e cresce a cada passo. A fumaça que consome meu pulmão me deixa feliz... não, feliz não. Deixa-me satisfeito por diminuir meus dias a cada tragada. Por mim metia logo uma bala na merda da minha cabeça e acabava com tudo. Todos ficariam mais satisfeitos.
Mas a verdade é que não tenho coragem para tal feito. Admito. Sou um frouxo.
Portanto, continuo na rua, gelada e convidativa. Saio sozinho. Um cão sarnento que afugenta qualquer tentativa de aproximação. Um cão sarnento à procura de um revólver.
Ouço todos os ruídos que a noite me oferece. As luzes que me cegam me fazem enxergar com clareza.
Nas casas as famílias festejam, quentes, alheias a realidade. Nunca planejo meu roteiro. Minha única certeza é a cólera que me domina e cresce a cada passo. A fumaça que consome meu pulmão me deixa feliz... não, feliz não. Deixa-me satisfeito por diminuir meus dias a cada tragada. Por mim metia logo uma bala na merda da minha cabeça e acabava com tudo. Todos ficariam mais satisfeitos.
Mas a verdade é que não tenho coragem para tal feito. Admito. Sou um frouxo.
Portanto, continuo na rua, gelada e convidativa. Saio sozinho. Um cão sarnento que afugenta qualquer tentativa de aproximação. Um cão sarnento à procura de um revólver.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Bife e batatas fritas
Na busca pela diferença encontramos a mesmiçe. A originalidade que passeia em nossa mente na verdade já foi pensada, não é diferente. Pensamos em meios de nos destacarmos, sobresaltar-mos do mar dos comuns. Mas encontramos o velho, o mofo, o cheiro ruim. O alternativo já não tem alternativa, o "underground" já deixou o subsolo. Nos passos que damos encontramos tudo novo, de novo. A globalização se tornou intergalática. A contra-cultura já não é tão contra assim. O que ontem expressava a loucura desvairada, a insanidade, hoje está exposta em vitrines de liquidação. Assim eu vim, de um jeito antigo, falar um pouco sobre o que já foi dito.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
esperando...
O tempo acelera
na nossa lerdeza.
Te espero ansioso,
mas sem tristeza.
O ônibus que chega,
fumaça, poeira.
O ônibus que traz
sorriso, certeza
que o dia esperado
demora, mas chega.
Que o que é distante
um dia se estreita.
na nossa lerdeza.
Te espero ansioso,
mas sem tristeza.
O ônibus que chega,
fumaça, poeira.
O ônibus que traz
sorriso, certeza
que o dia esperado
demora, mas chega.
Que o que é distante
um dia se estreita.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Adoro.
Eu odeio todo mundo!
Odeio quem diz que odeia os outros, odeio quem diz que não odeia. Odeio quem cancela seus compromissos por causa da chuva, odeio quem não gosta de suco de uva. Na verdade, uso a desculpa, pra dizer que odeio tudo. Odeio pseudo-intelectualidade, odeio quando acho que tenho certeza de algo. Odeio odiar tudo, odeio.
Saio xingando todo mundo em pensamento, dou um sorriso falso desvio o olhar e desejo o pior. Odeio escrever pra todo mundo, odeio escrever pra mim mesmo, odeio escrever. Odiaria não saber escrever. Odeio as cores, a luz, o escuro. Odeio tudo, odeio o mundo.
Odeio odiar tudo. Realmente odeio odiar o mundo.
O ódio que satisfaz a mente psicopata, também satisfaz a mais pura das beatas.
Escrevo e mato tudo. Com caneta, em papel sujo.
Odeio quem diz que odeia os outros, odeio quem diz que não odeia. Odeio quem cancela seus compromissos por causa da chuva, odeio quem não gosta de suco de uva. Na verdade, uso a desculpa, pra dizer que odeio tudo. Odeio pseudo-intelectualidade, odeio quando acho que tenho certeza de algo. Odeio odiar tudo, odeio.
Saio xingando todo mundo em pensamento, dou um sorriso falso desvio o olhar e desejo o pior. Odeio escrever pra todo mundo, odeio escrever pra mim mesmo, odeio escrever. Odiaria não saber escrever. Odeio as cores, a luz, o escuro. Odeio tudo, odeio o mundo.
Odeio odiar tudo. Realmente odeio odiar o mundo.
O ódio que satisfaz a mente psicopata, também satisfaz a mais pura das beatas.
Escrevo e mato tudo. Com caneta, em papel sujo.
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Nessa data querida
O dia mais importante da vida de seu filho havia passado. No trabalho, havia lucrado como nunca e os negócios estavam a todo vapor. Ciência, tecnologia, dinheiro...Ah! Isso era fácil. Estava habituado a situações inimagináveis no trabalho, há tempos.
A vida se fazia dentro das oito horas diárias que passava no escritório. Se sentia bem, era dono de si. Controle, dominação.
O centro do universo situava-se na enorme tela que permanecia ligada durante quase vinte e quatro horas por dia. Sua bíblia, seu alcorão...
Foi assim durante boa parte de sua vida. Sempre fora ambicioso, determinado, ganancioso até. Desde sempre com a cara nos livros, na escola era tido como um dos melhores alunos. Fez cursos de línguas e tecnologia paralelamente aos cursos obrigatórios.
Chegava até aquele dia com tudo o que sempre sonhou, ou quase tudo. Conhecia sobre o amor, a amizade. Estava tudo nos livros.
O presente de aniversário que entregou à seu filho com um dia de atraso era colossal. O abraço afrouxado e desajeitado o constrangia mais do que qualquer reunião da qual já havia participado. Queria desculpar-se, dizer que sentia muito pela situação. Afastou-se, vermelho e suado. Mentalmente dizia “te amo, você nem sabe o quanto...”.
Sua voz saiu rouca ao proferir:
-Espero que tenha gostado. Preciso trabalhar...
A vida se fazia dentro das oito horas diárias que passava no escritório. Se sentia bem, era dono de si. Controle, dominação.
O centro do universo situava-se na enorme tela que permanecia ligada durante quase vinte e quatro horas por dia. Sua bíblia, seu alcorão...
Foi assim durante boa parte de sua vida. Sempre fora ambicioso, determinado, ganancioso até. Desde sempre com a cara nos livros, na escola era tido como um dos melhores alunos. Fez cursos de línguas e tecnologia paralelamente aos cursos obrigatórios.
Chegava até aquele dia com tudo o que sempre sonhou, ou quase tudo. Conhecia sobre o amor, a amizade. Estava tudo nos livros.
O presente de aniversário que entregou à seu filho com um dia de atraso era colossal. O abraço afrouxado e desajeitado o constrangia mais do que qualquer reunião da qual já havia participado. Queria desculpar-se, dizer que sentia muito pela situação. Afastou-se, vermelho e suado. Mentalmente dizia “te amo, você nem sabe o quanto...”.
Sua voz saiu rouca ao proferir:
-Espero que tenha gostado. Preciso trabalhar...
domingo, 20 de setembro de 2009
Borracha e asfalto
Gosto de andar a pé. Sentir a brisa que bate incessantemente em meu rosto. Ando pelas ruas molhadas pela chuva, como quem anda nas areias mais fofas de uma praia.
A música que escuto dita o ritmo dos passos. As luzes dos carros projetam sombras disformes nas paredes de fábricas fechadas. O cachorro que late solitário na casa distante parece conversar com as estrelas. Gosto disso. Me sinto vivo, livre. Nenhuma luz me manda parar, seguir ou diminuir os passos. Parece besteira, mas realmente gosto.
Chego em casa sem pressa, durmo.
A música que escuto dita o ritmo dos passos. As luzes dos carros projetam sombras disformes nas paredes de fábricas fechadas. O cachorro que late solitário na casa distante parece conversar com as estrelas. Gosto disso. Me sinto vivo, livre. Nenhuma luz me manda parar, seguir ou diminuir os passos. Parece besteira, mas realmente gosto.
Chego em casa sem pressa, durmo.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Vestido e smoking
O copo preenchido com um espumante barato pairava em cima da mesa enfeitada cuidadosamente por algum funcionário do buffet. Ao longe, na pista de dança, Rafael via os formandos animados, dançando uma canção famosa, dos anos 50. Aquelas que sempre tocam em casamentos...
Todos que integravam o grupo de Rafael haviam se levantado e corrido para a pista de dança que agora parecia um formigueiro. Era ridículo visto dali. “Como alguém pode gostar disso?” pensou ao ver todos pulando como uns retardados.
A luz baixa e melancólica tinha um aspecto nostálgico, preguiçoso e romântico. O salão estava todo enfeitado e as pessoas presentes pareciam ter caprichado ao máximo nos vestidos e smokings. Rafael olhou seus sapatos e pensou que era aquilo, finalmente se formara no colegial. O momento mais aguardado desde a primeira vez em que pisou na escola, há 11 anos.
Ao fazer um balanço de sua vida escolar relembrou todos os momentos marcantes. As turmas pelas quais passou, os professores legais, os imbecis. Os rostos dos amigos que fizera durante os anos na escola passavam em câmera lenta por sua mente, quase sempre com um sorriso. Rafael os via exatamente do jeito que mais gostava...
Apesar de tudo, não estava feliz. A garota da qual gostava desde a sétima série estava sentada a umas três mesas de distância. Porém, na cabeça de Rafael era como se estivesse a quilômetros. Nunca tivera coragem de falar com ela. Toda sua coragem se esvaia ao pensar em lhe dirigir a palavra.
As músicas que o dj tocava agora eram românticas. Umas três já haviam passado sem que Rafael percebesse. Nem notara que a luz havia diminuído ainda mais. De repente, como se tivesse acordado de um transe, o som se tornou extremamente familiar. A música que começara era bem conhecida, pelo menos para Rafael. Uma força que não sabia de onde vinha fez com que olhasse para o lado. A garota o olhava também, um leve sorriso aprovava a ação de Rafael. Sem saber como, ou porque, seguiu em direção a pista, assim, sozinho. Não ficou surpreso quando sentiu a mão suave pegar na sua, sem aviso.
A pista agora não estava tão cheia, mas Rafael sentiu-a como se estivesse vazia. Parado, em frente aos olhos com os quais sempre sonhava, não sentiu mais o nervosismo. Era como se a música o anestesiasse tirando-o a noção real do ambiente a sua volta.
- Achei que nunca fosse me convidar – disse a garota.
- Estava esperando o momento certo – respondeu Rafael, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
- Bom, não podia esperar por um melhor...
Todos que integravam o grupo de Rafael haviam se levantado e corrido para a pista de dança que agora parecia um formigueiro. Era ridículo visto dali. “Como alguém pode gostar disso?” pensou ao ver todos pulando como uns retardados.
A luz baixa e melancólica tinha um aspecto nostálgico, preguiçoso e romântico. O salão estava todo enfeitado e as pessoas presentes pareciam ter caprichado ao máximo nos vestidos e smokings. Rafael olhou seus sapatos e pensou que era aquilo, finalmente se formara no colegial. O momento mais aguardado desde a primeira vez em que pisou na escola, há 11 anos.
Ao fazer um balanço de sua vida escolar relembrou todos os momentos marcantes. As turmas pelas quais passou, os professores legais, os imbecis. Os rostos dos amigos que fizera durante os anos na escola passavam em câmera lenta por sua mente, quase sempre com um sorriso. Rafael os via exatamente do jeito que mais gostava...
Apesar de tudo, não estava feliz. A garota da qual gostava desde a sétima série estava sentada a umas três mesas de distância. Porém, na cabeça de Rafael era como se estivesse a quilômetros. Nunca tivera coragem de falar com ela. Toda sua coragem se esvaia ao pensar em lhe dirigir a palavra.
As músicas que o dj tocava agora eram românticas. Umas três já haviam passado sem que Rafael percebesse. Nem notara que a luz havia diminuído ainda mais. De repente, como se tivesse acordado de um transe, o som se tornou extremamente familiar. A música que começara era bem conhecida, pelo menos para Rafael. Uma força que não sabia de onde vinha fez com que olhasse para o lado. A garota o olhava também, um leve sorriso aprovava a ação de Rafael. Sem saber como, ou porque, seguiu em direção a pista, assim, sozinho. Não ficou surpreso quando sentiu a mão suave pegar na sua, sem aviso.
A pista agora não estava tão cheia, mas Rafael sentiu-a como se estivesse vazia. Parado, em frente aos olhos com os quais sempre sonhava, não sentiu mais o nervosismo. Era como se a música o anestesiasse tirando-o a noção real do ambiente a sua volta.
- Achei que nunca fosse me convidar – disse a garota.
- Estava esperando o momento certo – respondeu Rafael, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
- Bom, não podia esperar por um melhor...
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Mais um poema de amor
Poemas baratos
que dizem nada
sobre o que quase todos sabem.
O amor não se escreve,
se bebe,
como uma taça gelada
em noite clara,
quente.
Mesmo assim,
eles insistem.
Escrevem, através dos séculos
as mesmas coisas,
em versos outros.
Assim sendo,
também te peço
pra que aceite o verso
sujo,
barato.
E te escrevo
pra te dizer
o que você
já deve saber:
Te amo
que dizem nada
sobre o que quase todos sabem.
O amor não se escreve,
se bebe,
como uma taça gelada
em noite clara,
quente.
Mesmo assim,
eles insistem.
Escrevem, através dos séculos
as mesmas coisas,
em versos outros.
Assim sendo,
também te peço
pra que aceite o verso
sujo,
barato.
E te escrevo
pra te dizer
o que você
já deve saber:
Te amo
domingo, 30 de agosto de 2009
Rotina noturna
É tarde, pelo menos para a maioria das pessoas. Para mim, não. É na madrugada que me sinto mais vivo, como se fosse a ração de um cão faminto, a noite me sustenta e me faz querer mais.
Tudo ocorre de forma normal. Uma noite como outra qualquer. Prostitutas lavam sua ferramenta de trabalho, esperando pelo próximo cliente. A senhora da casa ao lado bebe seu leite morno antes de se aconchegar sozinha entre cobertas e lembranças. O porteiro boceja ao olhar o relógio de pulso que ganhara da mulher. A fachada da principal avenida é pintada com tintas baratas, risadas e conversas descontraídas. Enfim, nada de mais numa noite que oferece tudo.
A calçada do bar é lavada com água suja, vassoura e um par de braços. E eu aqui, como sempre, escrevendo textos que ninguém quer ler. Tudo normal.
Tudo ocorre de forma normal. Uma noite como outra qualquer. Prostitutas lavam sua ferramenta de trabalho, esperando pelo próximo cliente. A senhora da casa ao lado bebe seu leite morno antes de se aconchegar sozinha entre cobertas e lembranças. O porteiro boceja ao olhar o relógio de pulso que ganhara da mulher. A fachada da principal avenida é pintada com tintas baratas, risadas e conversas descontraídas. Enfim, nada de mais numa noite que oferece tudo.
A calçada do bar é lavada com água suja, vassoura e um par de braços. E eu aqui, como sempre, escrevendo textos que ninguém quer ler. Tudo normal.
terça-feira, 25 de agosto de 2009
!
Saudades de te ver,
Envolto em sua fumaça costumeira.
De discutir sobre qualquer coisa estúpida que esteja passando na tevê.
Porque agora, aqui, quase tudo parece estúpido sem você.
Não peço que volte, não, não sou tão egoísta assim.
Peço que esteja bem onde quer que seja. Pois me sinto bem, onde quer que esteja.
Envolto em sua fumaça costumeira.
De discutir sobre qualquer coisa estúpida que esteja passando na tevê.
Porque agora, aqui, quase tudo parece estúpido sem você.
Não peço que volte, não, não sou tão egoísta assim.
Peço que esteja bem onde quer que seja. Pois me sinto bem, onde quer que esteja.
sábado, 22 de agosto de 2009
Esperança
Esperamos por tudo.
Esperamos crescer,
Esperamos amar,
esperamos viver
bem
como quem espera
o leite aquecer.
Os pobres,
esperam enriquecer.
Os ricos,
Esperam sei lá o que.
Esperamos vencer,
Esperamos casar
Esperamos dizer
Eu te amo
Esperamos porquê?
Esperamos viver,
Mas não envelhecer.
Até na morte,
Esperamos o céu.
Esperamos o que?
Até agora
Não sei dizer.
Esperamos crescer,
Esperamos amar,
esperamos viver
bem
como quem espera
o leite aquecer.
Os pobres,
esperam enriquecer.
Os ricos,
Esperam sei lá o que.
Esperamos vencer,
Esperamos casar
Esperamos dizer
Eu te amo
Esperamos porquê?
Esperamos viver,
Mas não envelhecer.
Até na morte,
Esperamos o céu.
Esperamos o que?
Até agora
Não sei dizer.
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Pernas, trilhos e só
Sozinho ele anda, em meio à multidão aglomerada que se encontra em todos os lugares. Cruza com uma infinidade de pessoas que se esbarram, despreocupadas, ou não, preocupadas demais. Percebe que, embora rodeado de gente, nunca se sentira tão só. Lixeiros, vendedores, desempregados, vagabundos, empresários, bêbados, drogados. Quem? Não sabe. Tudo que sabe é aquilo que vê. Tudo que vê é nada. Imagens borradas que passam apressadas. Nunca saberá quem são e nunca saberão quem é.
O tênis gasto o leva para o mesmo lugar, sempre. Lá se encontra todos os dias com quem parece mais desconhecido do que nunca.
- Um bilhete, por favor – repete, como um disco riscado.
Recebe o desejado da funcionária muda.
Senta, sintoniza a sua rádio predileta, sempre na hora certa.
-Bom dia!!! – cumprimenta o locutor entusiasmado – É sete da manhã, de uma bela segunda feira... – continua.
Era incrível, se sentia mais próximo daquele locutor do que jamais se sentira das pessoas a sua volta.
O tênis gasto o leva para o mesmo lugar, sempre. Lá se encontra todos os dias com quem parece mais desconhecido do que nunca.
- Um bilhete, por favor – repete, como um disco riscado.
Recebe o desejado da funcionária muda.
Senta, sintoniza a sua rádio predileta, sempre na hora certa.
-Bom dia!!! – cumprimenta o locutor entusiasmado – É sete da manhã, de uma bela segunda feira... – continua.
Era incrível, se sentia mais próximo daquele locutor do que jamais se sentira das pessoas a sua volta.
domingo, 16 de agosto de 2009
...
-Só te peço que fique - disse, quase implorando.
- preciso ir, você sabe disso.
- vá embora amanhã pela manhã, acordaremos bem cedo, e não haverá problemas!
- você sabe que não posso - retrucou, baixando a cabeça - dentro de algum tempo voltarei, eu SEMPRE volto.
- eu sei - era difícil esconder a tristeza.
E de fato ele voltou. Sempre voltava. Era assim há quase sete anos.
- preciso ir, você sabe disso.
- vá embora amanhã pela manhã, acordaremos bem cedo, e não haverá problemas!
- você sabe que não posso - retrucou, baixando a cabeça - dentro de algum tempo voltarei, eu SEMPRE volto.
- eu sei - era difícil esconder a tristeza.
E de fato ele voltou. Sempre voltava. Era assim há quase sete anos.
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Sopa de feijão
Observava sua sopa de feijão enquanto picava a torrada, ajeitando-a carinhosamente sobre o prato. Fazia um balanço das atividades diárias, nada produtivo, como sempre. Com as mãos calejadas, pegou a colher, preencheu-a com a sopa já fria e comeu.
Os sessenta anos vividos até ali traziam experiência para lidar com quase qualquer tipo de situação. Acostumara-se com os nãos e o gosto amargo da rejeição, quando procurava um emprego. A derrota de seu time era sempre dolorosa, mas suportável. Havia força em seu corpo magro para acordar, todos os dias, e correr atrás do prejuízo causado pela mísera aposentadoria.
Ao deitar na cama e virar-se para a esquerda sentiu uma dor terrivel, sempre sentia. Nada parecia fazer sentido. Era como se agora não houvesse vida além de seu coração, que não batia mais com a mesma intensidade. Tudo além daquela velha cama parecia ofuscado pelos flashes que sua mente o obrigava a ver. Era sempre assim.
Há anos que o espaço vazio daquela cama o destruía todas as noites.
Os sessenta anos vividos até ali traziam experiência para lidar com quase qualquer tipo de situação. Acostumara-se com os nãos e o gosto amargo da rejeição, quando procurava um emprego. A derrota de seu time era sempre dolorosa, mas suportável. Havia força em seu corpo magro para acordar, todos os dias, e correr atrás do prejuízo causado pela mísera aposentadoria.
Ao deitar na cama e virar-se para a esquerda sentiu uma dor terrivel, sempre sentia. Nada parecia fazer sentido. Era como se agora não houvesse vida além de seu coração, que não batia mais com a mesma intensidade. Tudo além daquela velha cama parecia ofuscado pelos flashes que sua mente o obrigava a ver. Era sempre assim.
Há anos que o espaço vazio daquela cama o destruía todas as noites.
Palavras
Palavras tortas em linhas retas
Dizem coisas que penso.
Desprendo os pensamentos
que já estiveram acorrentados.
Mas o que penso? que posso agradar alguém com palavras certas?
Se nem sei mesmo o que pensar, como pensar algo que sei?
Mesmo assim, cuspo fora idéias
que um dia pareceram boas pra mim.
Dizem coisas que penso.
Desprendo os pensamentos
que já estiveram acorrentados.
Mas o que penso? que posso agradar alguém com palavras certas?
Se nem sei mesmo o que pensar, como pensar algo que sei?
Mesmo assim, cuspo fora idéias
que um dia pareceram boas pra mim.
Lata laranja
Era cedo para acordar, nem havia clareado ainda, na verdade nem se lembrava se chegara a dormir. De fato, era cedo pra qualquer coisa, exceto descansar a cabeça em um travesseiro quente, mas nesse caso, não havia travesseiro, muito menos quente. A marginal se levantou seguida de seus fiéis companheiros caninos e começou o dia. Não era difícil chegar ao trabalho em tempo, uma vez que não era preciso “chegar”.
Sua moradia era em qualquer lugar, mas de preferência um que houvesse cobertura para proteger-lhe da chuva.
O caminho era traçado de acordo com a vontade dos pés. Sempre atenta aos restos de tudo que pudesse ser aproveitado, ela seguia, sempre firme, sua caminhada. O calçado não era necessário, pois havia se habituado a qualquer tipo de terreno. Ao passar em frente ao ponto de ônibus lotado, já pelas seis e meia da manhã, viu que ninguém notava sua presença, a não ser quando era esbarrada. “Foda-se”, pensou, “eu também não prestaria, se estivesse no lugar deles”, e seguiu seu caminho.
As latas de lixo laranja proporcionaram-lhe uns restos de comida, e plástico, pelo menos era o que o gosto lembrava. Dividiu com seus companheiros caninos toda comida encontrada. Quando se sentiu exausta demais para continuar caminhando, já no fim do dia, decidiu encostar-se em um canto qualquer, mas antes, seguiu à frente, uma última vez. Toda esperança depositada em uma lata laranja.
Sua moradia era em qualquer lugar, mas de preferência um que houvesse cobertura para proteger-lhe da chuva.
O caminho era traçado de acordo com a vontade dos pés. Sempre atenta aos restos de tudo que pudesse ser aproveitado, ela seguia, sempre firme, sua caminhada. O calçado não era necessário, pois havia se habituado a qualquer tipo de terreno. Ao passar em frente ao ponto de ônibus lotado, já pelas seis e meia da manhã, viu que ninguém notava sua presença, a não ser quando era esbarrada. “Foda-se”, pensou, “eu também não prestaria, se estivesse no lugar deles”, e seguiu seu caminho.
As latas de lixo laranja proporcionaram-lhe uns restos de comida, e plástico, pelo menos era o que o gosto lembrava. Dividiu com seus companheiros caninos toda comida encontrada. Quando se sentiu exausta demais para continuar caminhando, já no fim do dia, decidiu encostar-se em um canto qualquer, mas antes, seguiu à frente, uma última vez. Toda esperança depositada em uma lata laranja.
Vênus, 12 de Agosto de 2009
Durante a aula de história a professora dizia:
- Não há indícios de vida em outro planeta. Está claro, até agora, que nós somos o único planeta com vida inteligente no sistema solar...
- Mas como é possível afirmar isso professora? – perguntou um dos alunos – existem tantos planetas, a senhora não acha que seria injusto existir vida inteligente apenas aqui em Vênus?
Ao observar a classe curiosa, a professora respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo:
- É simples – respondeu pacientemente a professora – se existisse vida em outro planeta, e essa vida estivesse em um estágio mais evoluído que o nosso, com certeza eles já teriam nos encontrado. E se a vida em qualquer outro planeta fosse menos desenvolvida do que a nossa, certamente já teríamos descoberto.
O sinal bateu anunciando o fim da aula. Ao sair da sala todos esqueceram imediatamente o assunto debatido em sala de aula. Todos menos um.
Durante a noite, deitado em sua rede, estendida no quintal de casa, o tal aluno observava as estrelas, que sempre lhe pareceram tão próximas. Ele se perguntava se a professora estava mesmo certa. E ao olhar todas aquelas cores lindas que o céu projetava em direção ao seu jardim, todo aquele brilho que se estendia até onde fosse possível enxergar, pensou, “não”.
Naquele exato momento, um jovem habitante de um planeta chamado terra chegava a mesma conclusão.
- Não há indícios de vida em outro planeta. Está claro, até agora, que nós somos o único planeta com vida inteligente no sistema solar...
- Mas como é possível afirmar isso professora? – perguntou um dos alunos – existem tantos planetas, a senhora não acha que seria injusto existir vida inteligente apenas aqui em Vênus?
Ao observar a classe curiosa, a professora respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo:
- É simples – respondeu pacientemente a professora – se existisse vida em outro planeta, e essa vida estivesse em um estágio mais evoluído que o nosso, com certeza eles já teriam nos encontrado. E se a vida em qualquer outro planeta fosse menos desenvolvida do que a nossa, certamente já teríamos descoberto.
O sinal bateu anunciando o fim da aula. Ao sair da sala todos esqueceram imediatamente o assunto debatido em sala de aula. Todos menos um.
Durante a noite, deitado em sua rede, estendida no quintal de casa, o tal aluno observava as estrelas, que sempre lhe pareceram tão próximas. Ele se perguntava se a professora estava mesmo certa. E ao olhar todas aquelas cores lindas que o céu projetava em direção ao seu jardim, todo aquele brilho que se estendia até onde fosse possível enxergar, pensou, “não”.
Naquele exato momento, um jovem habitante de um planeta chamado terra chegava a mesma conclusão.
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Palhaço do circo cotidiano
Já estava na metade do caminho quando o primeiro par de braços o encontrou. Seguido de gargalhadas, sorrisos e ternura o palhaço continuava seu caminho, rumo ao seu destino diário. O farol em que trabalhava era bem movimentado, ficava no bairro de luxo de uma cidade não tão luxuosa.
A luz vermelha indicava que era hora de entrar em ação. Malabarismo, pirofagia, acrobacia, tudo era válido durante aquelas 12 horas quase ininterruptas. O indispensável era a roupa, não que o palhaço alguma vez tivesse pensado em se apresentar nu em pêlo, não, é que a roupa era essencial para dar vida ao nosso personagem, e nome também.
Olhares curiosos o seguiam após o inicio da apresentação. Quase todos paravam, olhavam, admiravam, sempre sorrindo... alguns jogavam um trocado que, eventualmente, estava perdido em algum compartimento de seu veículo, ou no bolso da calça.
Ao final do dia, já em “casa”, se é que aquilo podia ser chamado de casa, encontrava-se sozinho, sem sorriso, ternura ou braços capazes de lhe apontar. Deitado em seu colchão, após ter comido o pão que conseguiu com os trocados do dia, virou-se sem desejar muito, “não vejo a hora de ver aqueles rostos novamente” pensou, seus dentes deixando escapar um leve sorriso. Adormeceu.
A luz vermelha indicava que era hora de entrar em ação. Malabarismo, pirofagia, acrobacia, tudo era válido durante aquelas 12 horas quase ininterruptas. O indispensável era a roupa, não que o palhaço alguma vez tivesse pensado em se apresentar nu em pêlo, não, é que a roupa era essencial para dar vida ao nosso personagem, e nome também.
Olhares curiosos o seguiam após o inicio da apresentação. Quase todos paravam, olhavam, admiravam, sempre sorrindo... alguns jogavam um trocado que, eventualmente, estava perdido em algum compartimento de seu veículo, ou no bolso da calça.
Ao final do dia, já em “casa”, se é que aquilo podia ser chamado de casa, encontrava-se sozinho, sem sorriso, ternura ou braços capazes de lhe apontar. Deitado em seu colchão, após ter comido o pão que conseguiu com os trocados do dia, virou-se sem desejar muito, “não vejo a hora de ver aqueles rostos novamente” pensou, seus dentes deixando escapar um leve sorriso. Adormeceu.
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Faria tudo de novo
Ao levantar-se Júlio não fazia idéia de que aquele seria o último dia de sua vida. Tomou um banho, apressou-se em trocar de roupa e deu um gole em seu café amargo. Todos os dias eram iguais para Júlio, todos os dias eram um lixo.
Tudo que fizera pra subir na carreira nunca pareceu lhe incomodar, e o fato de ter abandonado a mulher grávida porque simplesmente "atrapalharia seu desempenho no trabalho" nunca fez Júlio perder uma noite de sono sequer.
Ele odiava todo mundo, na verdade odiava a si mesmo, sem que soubesse disso. Sua casa era recheada de aparelhos eletrônicos caríssimos que nem ele sabia usar. Sua casa de praia vivia vazia porque nunca tinha tempo para visitá-la por causa do trabalho. O salão de jogos no andar de cima estava fechado praticamente desde a construção da casa.
No caminho para o trabalho, em frente ao seu carro "sport" uma família seguia alegremente para qualquer lugar. Júlio, que não conseguira ultrapassar o veículo por causa do enorme número de carros que se assomavam ao tráfego, ficou a observar aquela família. "Que babaquice" pensou Júlio, "quem precisa dessa melação idiota?".
Ao sair da empresa tarde da noite,como de costume, pegara um comprimido no porta luvas do carro, e, sem pensar, engolira. Na verdade aquilo tudo era tão automático que, assim como tomar banho, fazia parte de sua rotina. Porém, algo que não era típico de sua rotina estava prestes a acontecer.
Parado em um farol, Júlio viu quando aconteceu. O caminhão que vinha em sua direção parecia estar desgovernado, a luz do farol apontado em direção a Júlio aumentava assim como seu medo de morrer. Chovia naquela segunda feira e os estragos que uma chuva pode causar a um veículo desgovernado podiam ser observados por Júlio.
O impacto foi ensurdecedor. Os vidros e a carroceria blindada do carro de Júlio não foram páreo para o imenso caminhão que vinha em sua direção. Antes da batida, como num filme, ele viu tudo em câmera lenta. Júlio vira, também como num filme, toda sua vida passar diante de seus olhos, sua mullher e filha abandonadas, todas as pessoas prejudicadas por sua ganância maquiavélica e sua vida inútil e supérflua. Mesmo assim ele não se arrependera, "faria tudo de novo" pensou. Porém, nunca teve essa chance.
Ninguém foi ao seu enterro.
Tudo que fizera pra subir na carreira nunca pareceu lhe incomodar, e o fato de ter abandonado a mulher grávida porque simplesmente "atrapalharia seu desempenho no trabalho" nunca fez Júlio perder uma noite de sono sequer.
Ele odiava todo mundo, na verdade odiava a si mesmo, sem que soubesse disso. Sua casa era recheada de aparelhos eletrônicos caríssimos que nem ele sabia usar. Sua casa de praia vivia vazia porque nunca tinha tempo para visitá-la por causa do trabalho. O salão de jogos no andar de cima estava fechado praticamente desde a construção da casa.
No caminho para o trabalho, em frente ao seu carro "sport" uma família seguia alegremente para qualquer lugar. Júlio, que não conseguira ultrapassar o veículo por causa do enorme número de carros que se assomavam ao tráfego, ficou a observar aquela família. "Que babaquice" pensou Júlio, "quem precisa dessa melação idiota?".
Ao sair da empresa tarde da noite,como de costume, pegara um comprimido no porta luvas do carro, e, sem pensar, engolira. Na verdade aquilo tudo era tão automático que, assim como tomar banho, fazia parte de sua rotina. Porém, algo que não era típico de sua rotina estava prestes a acontecer.
Parado em um farol, Júlio viu quando aconteceu. O caminhão que vinha em sua direção parecia estar desgovernado, a luz do farol apontado em direção a Júlio aumentava assim como seu medo de morrer. Chovia naquela segunda feira e os estragos que uma chuva pode causar a um veículo desgovernado podiam ser observados por Júlio.
O impacto foi ensurdecedor. Os vidros e a carroceria blindada do carro de Júlio não foram páreo para o imenso caminhão que vinha em sua direção. Antes da batida, como num filme, ele viu tudo em câmera lenta. Júlio vira, também como num filme, toda sua vida passar diante de seus olhos, sua mullher e filha abandonadas, todas as pessoas prejudicadas por sua ganância maquiavélica e sua vida inútil e supérflua. Mesmo assim ele não se arrependera, "faria tudo de novo" pensou. Porém, nunca teve essa chance.
Ninguém foi ao seu enterro.
domingo, 9 de agosto de 2009
A dama que dorme
Deitada em sua cama, tudo passa, nada acompanha. O mundo acontece em todas as suas direções, mas nesse momento, tudo despercebido. Ao seu lado pensamentos fervilhantes nem chamam sua atenção. Se pudesse vê-los, seria como um espelho, mirado em sua direção.
Ao acordar tentará descobrir o que pensava, mas não importa o que diga jamais conseguirei descrever o que sonhava.
Planos, futuro, passado, tudo está em inércia por um instante. Pelo menos agora, isso não é importante.
Ao acordar tentará descobrir o que pensava, mas não importa o que diga jamais conseguirei descrever o que sonhava.
Planos, futuro, passado, tudo está em inércia por um instante. Pelo menos agora, isso não é importante.
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