Ao levantar-se Júlio não fazia idéia de que aquele seria o último dia de sua vida. Tomou um banho, apressou-se em trocar de roupa e deu um gole em seu café amargo. Todos os dias eram iguais para Júlio, todos os dias eram um lixo.
Tudo que fizera pra subir na carreira nunca pareceu lhe incomodar, e o fato de ter abandonado a mulher grávida porque simplesmente "atrapalharia seu desempenho no trabalho" nunca fez Júlio perder uma noite de sono sequer.
Ele odiava todo mundo, na verdade odiava a si mesmo, sem que soubesse disso. Sua casa era recheada de aparelhos eletrônicos caríssimos que nem ele sabia usar. Sua casa de praia vivia vazia porque nunca tinha tempo para visitá-la por causa do trabalho. O salão de jogos no andar de cima estava fechado praticamente desde a construção da casa.
No caminho para o trabalho, em frente ao seu carro "sport" uma família seguia alegremente para qualquer lugar. Júlio, que não conseguira ultrapassar o veículo por causa do enorme número de carros que se assomavam ao tráfego, ficou a observar aquela família. "Que babaquice" pensou Júlio, "quem precisa dessa melação idiota?".
Ao sair da empresa tarde da noite,como de costume, pegara um comprimido no porta luvas do carro, e, sem pensar, engolira. Na verdade aquilo tudo era tão automático que, assim como tomar banho, fazia parte de sua rotina. Porém, algo que não era típico de sua rotina estava prestes a acontecer.
Parado em um farol, Júlio viu quando aconteceu. O caminhão que vinha em sua direção parecia estar desgovernado, a luz do farol apontado em direção a Júlio aumentava assim como seu medo de morrer. Chovia naquela segunda feira e os estragos que uma chuva pode causar a um veículo desgovernado podiam ser observados por Júlio.
O impacto foi ensurdecedor. Os vidros e a carroceria blindada do carro de Júlio não foram páreo para o imenso caminhão que vinha em sua direção. Antes da batida, como num filme, ele viu tudo em câmera lenta. Júlio vira, também como num filme, toda sua vida passar diante de seus olhos, sua mullher e filha abandonadas, todas as pessoas prejudicadas por sua ganância maquiavélica e sua vida inútil e supérflua. Mesmo assim ele não se arrependera, "faria tudo de novo" pensou. Porém, nunca teve essa chance.
Ninguém foi ao seu enterro.
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
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