Era cedo para acordar, nem havia clareado ainda, na verdade nem se lembrava se chegara a dormir. De fato, era cedo pra qualquer coisa, exceto descansar a cabeça em um travesseiro quente, mas nesse caso, não havia travesseiro, muito menos quente. A marginal se levantou seguida de seus fiéis companheiros caninos e começou o dia. Não era difícil chegar ao trabalho em tempo, uma vez que não era preciso “chegar”.
Sua moradia era em qualquer lugar, mas de preferência um que houvesse cobertura para proteger-lhe da chuva.
O caminho era traçado de acordo com a vontade dos pés. Sempre atenta aos restos de tudo que pudesse ser aproveitado, ela seguia, sempre firme, sua caminhada. O calçado não era necessário, pois havia se habituado a qualquer tipo de terreno. Ao passar em frente ao ponto de ônibus lotado, já pelas seis e meia da manhã, viu que ninguém notava sua presença, a não ser quando era esbarrada. “Foda-se”, pensou, “eu também não prestaria, se estivesse no lugar deles”, e seguiu seu caminho.
As latas de lixo laranja proporcionaram-lhe uns restos de comida, e plástico, pelo menos era o que o gosto lembrava. Dividiu com seus companheiros caninos toda comida encontrada. Quando se sentiu exausta demais para continuar caminhando, já no fim do dia, decidiu encostar-se em um canto qualquer, mas antes, seguiu à frente, uma última vez. Toda esperança depositada em uma lata laranja.
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
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