quarta-feira, 3 de novembro de 2010

De repente a gente encontra

De repente a gente encontra, num disco riscado, que venceu o tempo, a felicidade. Encontra sem querer, em uma fotografia velha qualquer, o que buscava. Sem saber o que procurávamos, encontramos, por sorte, entre páginas amareladas e palavras antigas, o conforto. De repente a gente encontra. Das notas desafinadas tiramos nossa referência. Encontramos sobretudo, no pensamento mais antigo, o futuro. Sem querer a gente acha, em película envelhecida, já comida pelas traças, a graça. Na caneca fumegante e sorrisos embaçados, nos vemos. Em conversa abstrata, de chuva forte e desgraça. Em textos alheios, de mentes deturpadas, encontramos a nossa palavra. De repente a gente encontra. Quando menos se espera a gente encontra. No obrigado do vizinho, na ironia, no carinho... De repente a gente encontra, sem mais nem menos, a gente.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O menestrel - depois de algum tempo você aprende...

Sentindo-se um lixo você acorda e olha pela janela. Chuva. A rotina te destrói e reconstrói toda madrugada. Fotografias e filmes antigos não sanam a falta que a carne, podre mesmo do jeito que é, faz. Se xingo em um dia, sorrio e adoro no outro. Sou assim mesmo, meio instavel. A figura bizarra e chamativa de um coringa me desperta a atenção e o sorriso leve declama palavras que ficam soltas no ar, até fixarem em sua mente de um jeito nunca experimentado. Um coringa. A catarse. Como nao se entregar aos movimentos sútis e naturais do cara pintada? fala sobre tudo que você quer ouvir, tudo que você precisa ouvir. Parece que o texto foi feito pra você. Te joga no chão e eleva, sempre na mesma proporção. E no fim, nos faz perceber que os sentimentos são mais antigos do que o próprio homem. Afinal de contas, era Shakespeare porra!

domingo, 17 de outubro de 2010

encontros e desencontros

O tempo passou e continuo aqui. O universo em expansão e ainda me sinto pequeno. As babaquices que a rotina propicia me fazem mais feliz do que as profundas reflexoes elaboradas pelos eruditos."penso logo existo!" foda-se, Descartes. Talvez não devessemos pensar, ou existir. Mas, no fim das contas, é tudo uma coisa só, né? Te procuro em qualquer lugar. Nas quartas a noite te encontro entre propagandas de cerveja e anúncios das casas bahia. Te enxergo na fumaça do cigarro alheio. Fumar faz mau não é mesmo? O tempo passou. O tempo passa. Mas a merda do tempo é tão relativa quanto a idéia da hora do almoço. A hora do almoço é a hora que eu quiser. Faz tempo, parece que foi ontem que a gente discutiu sobre qualquer estupidez. Não cresci muito, pelo menos é o que os outros dizem. "Você agora é o homem da casa" vai se fuder! Te acho nos textos antigos, nos diálogos do dia a dia e nas críticas as redes de televisão. Te encontro em cada filme de ação, ou corrida de fórmula 1. A vida continua até quando o tempo quiser. E enquanto isso, nos encontraremos em cada caneca de café.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Fragmentos

...te falo tudo que penso sem medo da resposta. Te olho nos olhos e já sei o que passa em sua cabeça. Espero, ansioso, pra te contar qualquer novidade. Estudo a relatividade do tempo que, ao seu lado, me mostra que Einstein estava certo.
Te vejo coçando, literalmente, ou não, as idéias que muitas vezes também percorrem minha cabeça. Sei que não sou nada, nem posso querer ser, mas sei também que tenho dentro de mim, assim como você,todas as vontades do mundo.
Te peço desculpas pelas vezes em que disse coisas que pudessem te confundir. No final das contas acho que sou apenas aquilo que se vê. E o que se vê, em mim, tem muito de você
Vivo um dia de cada vez, sem pressa. No mundo real ou das idéias...

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Rotina Noturna III

Na chuva, no frio, me encontro só. Os pingos que caem do céu não são abençoados, não. São como pedras de gelo e pesam uma tonelada. Batem no meu rosto sem pedir licença e arranham a pele fria, já cortada, sem pudor. Chove muito.
Estou sem ninguém ao redor e, daqui, parece que estou só no planeta inteiro. A luz de uma padaria já fechada me ilumina. Nenhum carro passa. Estou no ponto de ônibus, a propósito.
Uma pessoa se aproxima e fica a mais ou menos um metro de distância de mim. Mas ainda assim estou só. Sinto vontade de me aproximar. É um homem. Deve ter uns cinqüenta anos já. Pelo menos é o que parece visto daqui, sob essa luz fraca e amarela. Não tenho coragem de me aproximar, nunca tive. Sempre fui assim. Um ônibus aparece no fim da rua e se aproxima. Vem se arrastando como um animal quase morto, mas com sede. Se aproxima, não é o meu. É o do homem.
O braço molhado do senhor todo esticado é o sinal para o ônibus parar. Ele pára. Ele sobe.
Estou só, como sempre. Estou só. A bateria do aparelho que me proporciona alguma música está pra acabar. Acabando. Acabou.
- Que merda! Grito sozinho.
Estou só.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Senancour

"Eu sinto: eis a única palavra do homem que exige verdades. Eu sinto, eu existo para me consumir em desejos indomáveis, para me embeber na sedução de um mundo fantástico, para viver aterrado com o seu voluptuoso engano."

Obermann

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O rei de si

roupas caras, creme pro rosto... sente-se grande, um gigante na verdade. Nada o segura e o mundo está em suas mãos. Parece que tudo gira em torno do seu ego, e que tem controle sobre tudo. Carros, gente bonita, falante. Seu time de futebol é SEU, é importante. Vira o copo com cerveja de uma vez só e sorri no final, o bar está cheio. A música toca alto e parece que foi feita pra ele. Tem amigos, todos o amam. Sua família é boa, não passa necessidades.
A estrela é pequena acima de sua cabeça com cabelos cheirosos e esvoaçantes... tudo faz sentido, tudo.
Pouco sabe-se sobre o que vem a seguir, só que o último suspiro está próximo. Olha fixo o teto rachado enquanto uma lágrima escorre de seu rosto agora já pálido. Sente-se bem, apesar de tudo. Aos poucos a alegria deixa seu corpo e se esvai, sem ao menos avisar. Alguns a sua volta choram e soluçam, pronunciando frases incompreensiveis. No final das contas sabe que está sozinho. A vida começa e termina sozinha, sem sorrisos convidativos ou promessas de carreira. Os olhos se fecham aos poucos e logo se torna um corpo duro em uma cama macia, um estorvo para seus familiares.
Lá fora o cão late para o carteiro já ensopado pela chuva incessante. Os carros lambem o asfalto velho, mais velho que qualquer um. Tudo está normal, tudo continua normal. Outra pessoa sente-se o dono do mundo agora, muitas sentem. As roupas caras e cremes para o rosto continuam vendendo como nunca e a estrela ainda parece pequena acima da cabeça de alguém. Acho que é assim que se sente quando está vivo. Todos são os maiores e melhores pra si. E tudo faz sentido, até o último suspiro...
O time de futebol ainda faz as suas partidas. Nem um minuto de silêncio ou qualquer outra homenagem em seu nome. É insignificante.
Todos choram a sua volta, e a louça na pia ainda precisa ser lavada.

quarta-feira, 17 de março de 2010

É a morte.

É na morte que algumas coisas nascem. Sentimentos adormecidos e escondidos por vergonha ou precaução. Sentimentos enraizados que só despertam com a grande perda. Por que esperar? Amar, odiar, falar o que se tem “vontade” enquanto os sentidos são capazes de assimilar alguma coisa.
Frases não ditas se tornam frases malditas quando escondidas pelo véu da precaução. Não chore mais. Ele não vai te ouvir. Seu soluço só será absorvido por você mesmo. Sua chance passou assim como a vida de seu ente querido. Achou que não aconteceria com você, não é? Pois é. Muitos não querem acreditar, mas a morte é a coisa mais viva em nossas vidas.
Algumas pessoas anseiam por ela. Suplicam por respostas que lhes revelem o caminho. Poetas da morte, sem medo. Que acordam na noite, como Azevedo. Não clamo a morte, eu não! Porém não a temo. Não anseio, mas sem receio. Só não espere por mim. Não ouvireis quando houver partido: nem grito, soluço ou latido.

sexta-feira, 5 de março de 2010

desapego

Parou e olhou em frente. formigas andando em sua direção esbarravam como se nao estivesse ali. Era sempre assim. Começava a andar e desviar como se fosse um esporte olímpico. Talvez, se isso fosse um esporte, ele seria o melhor. Nunca foi bom em nada, absolutamente nada. Sentia o cheiro que saia dos escapamentos dos carros, das pessoas. Sentia-se enojado. Todos os dias eram iguais. a n d a ... s e n t a ... a n d a ... s e n t a. Nunca entendeu por que fazia aquilo, ou porquê todos aderiam a essa merda sem nem ao menos reclamar:

- Eu preciso - é o que ouvia.
- Pro inferno com tudo isso!

Era tido como louco, pela própria família.
Saiu um dia e não mais voltou. Andou na pista de sola no chão e mochila nas costas. Pela primeira vez fez o que queria. Longe de obrigações maçantes e músicas dançantes. Longe disso. Não sabia onde ia, não se importava. Passou na casa da dona do sorriso mais lindo. Não foi preciso dizer nada.

- Só um minuto - foi o que ouviu.
- não se preocupe com o tempo - respondeu

quinta-feira, 4 de março de 2010

Segredos

Algumas histórias não são simplesmente contadas. Não saem da boca como o hálito e as palavras corriqueiras. Não. Algumas histórias são guardadas. Elas têm um valor inestimável e na maioria das vezes são intocáveis. Só se revelam pra própria pessoa nos mais íntimos devaneios e viagens pelo inconsciente. São produto de uma terra impenetrável. Ás vezes, são vergonhosas as histórias. Muitas vezes não. Por vezes pertencem a um dono tímido.
Te faço abrir a boca sem esforço. Sei as palavras certas, simplesmente sei. Te olho nos olhos e percebo que você não diz isso com freqüência, que se embaralha nas palavras procurando colocá-las nos lugares certos. A história se constrói bem na minha frente. Sei que é importante pra você e, pra mim, acaba se tornando também. Arranco palavra por palavra, frase por frase e me sinto bem. O suor já toca os lábios que se tornaram incontroláveis agora e, pela primeira vez, me sinto importante. Quando acaba de falar simplesmente nos abraçamos e ficamos assim. Nada mais precisa ser dito. Acho que não sou qualquer um, pelo menos não pra você.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

espelho

Ando a pé e olho em frente! Gente, gente, gente. Olho pro alto e vejo os arranha-céus da cidade poluída e encardida de gente, gente, gente. Carros passam e eu nem consigo enchergar sua cor. Buzinas altas, concreto e dor. Vejo tudo isso, se vejo. Julgo tudo isso, como quase todo mundo. Subo as escadas do prédio, dois degraus por vez. Abro a porta... banheiro, espelho. Nada vejo, nada vejo.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Solano Trindade - Advertência

"Há poetas que só fazem versos de amor
Há poetas herméticos e concretistas
Enquanto se fabricam
Bombas atômicas e de hidrogênio
Enquanto se preparam
Exércitos para a guerra
Enquanto a fome estiola os povos...
Depois eles farão versos de pavor e de remorso
E não escaparão ao castigo
Porque a guerra e a fome
Também os atingirão
E os poetas cairão no esquecimento."

Solano Trindade - Advertência

sábado, 13 de fevereiro de 2010

idéias

Queria que as idéias voltassem a preocupar...

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

...

Tenho medo de tudo, e vontade também. Tenho medo de morrer, mais ainda de viver. Sinto medo de falar, só não mais do que calar. Tenho sede de água, e de veneno tão bem. Tenho raiva das pessoas, mas não vivo sem alguém. Sinto o vento refrescar, sufocar, estrangular. Choro de alegria e também sei lá porquê. Grito alto no escuro, mas nem eu consigo ouvir. Sento espero ouço mudo, as vozes de quem já partiu. Tenho milhóes de pessoas, e estou sempre aqui. Um amigo de papel, me disse que é melhor assim. Quem diria que a tinta, nessa hora tão maldita, seria dos caminhos, o melhor a seguir?

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Manifesto contra o Trabalho

"Aos excluídos só resta uma função social: a de ser um exemplo aterrorizante. O destino deles deve incentivar a todos os que ainda fazem parte da corrida de "peregrinação a Jerusalém" da sociedade do trabalho na luta pelos últimos lugares. Este exemplo deve ainda incitar às massas de perdedores a manterem-se em movimento apressado, para que não tenham a idéia de se revoltarem contra as vergonhosas imposições."

Manifesto Contra o Trabalho - Grupo Krisis

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

""Jovens vozes arrogantes', como diz o ditado. Eu odiava cada um deles. Quem eles pensavam que eram, vaiando alguém na estrada só porque eram jovens desordeiros e secundaristas e seus pais assavam rosbifes nas tardes de domingo? Quem eles pensavam que eram, zombando duma menina numa situação difícil com um homem que queria ser amado? Nossa vida era da nossa própria conta. E não conseguimos uma maldita carona."

JACK KEROUAC - On the road

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

conversa solta

Certo dia ouvi dizer que o Brasil era de todos. Triste frase, que saiu da boca mimada de dentes fortes e brancos, desses tratados com carinho e amor por uma mãe preocupada. Certo dia ouvi dizer que o Brasil é um só. Compreensível, se pensarmos que a voz que pronunciou essas palavras tem sempre tudo que quer.
Certo dia escrevi um texto pra dizer, que o Brasil não é um só, que o seu Brasil não é o meu.
Meu Brasil é o das palavras, das pessoas mau amadas, imcompreendidas. Das palavras pronunciadas na compania de um violão. Dos muros pintados que gritam frases, mais alto do que o ronco do motor do seu carro, mais alto do que você consegue ouvir. É o Brasil da puta, do operário que te faz enriquecer. Do dedo amputado pela máquina da vida, da tua vida. O Brasil do sorriso sincero e tímido de quem não tem o que comer frente a lente, qualquer que seja, que intimida e desperta curiosidade. Do índio morto, não o de boné de vereador - como você diz -, mas o injustiçado e caçado por nós, por nós.

Pensando nisso, te pergunto, qual é o seu Brasil?