terça-feira, 31 de julho de 2012

Entre as ruas vazias e mal iluminadas, as árvores que destroem calçadas e as casas que adormecem aos poucos.  Acompanhado do medo que distribui entre todas as crianças do mundo, do meu mundo, anda devagar enquanto fuma seu cigarro e não se esforça nem mesmo pra soprar a fumaça de seus pulmões, deixando a cortina de fumaça cobrir seu rosto pouco antes de se perder no ar.

Os relatos são variados. Há quem diga que faz um barulho sutil enquanto se arrasta até pegar suas vítimas. Confesso que já o ouvi algumas vezes do lado de fora de casa. Algumas pessoas juram de pés juntos que é mudo, outros dizem que não abre a boca pra falar por opção. Eu sei que adora pegar desprevenido e que mora no fim da rua. Desde sempre usou a mesma sandália e arrastou o pé. O saco sem fundo guarda todas as crianças do meu tempo. Não mais a bola no portão do vizinho, não mais pastel na hora do almoço, nada de campainha e pernas correndo.

As crianças desapareceram. Por culpa do nosso homem ou não, elas desapareceram. Seduzidas por coisas que desconhece, não sofrem mais o risco de serem arremessadas para o saco sem fundo e escuro, é o que todos pensam. Perdidas em outros sacos e mudas como nosso homem, elas seguem outros caminhos agora. Caminhos inalcansáveis e distantes. As crianças desapareceram e o homem do saco, sem ter mais o que capturar, desapareceu também.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O silêncio dos culpados

Nas avenidas movimentas e em carros cheios. Nos ônibus, trens e metrôs. Desde o tempo que ninguém mais se lembra quando, articula-se sem parar. Sobre tudo e nada, sobre aquilo que se ouviu, articula-se sem parar. Em velocidade frenética e sem intervalos. Seguidas de goles ligeiros, falou-se sobre quase tudo que se pode imaginar. Colocando músculos pra trabalhar em troca de nada, por um resultado medíocre, soltaram palavras que se perdiam ao vento e não eram absorvidas, pois existe uma regra básica entre os sentidos primários: a audição não funciona enquanto o corpo que deseja escutar não estiver com os lábios repousados em um silêncio respeitador. Portanto, durante um longo período esse foi o quadro: uma bagunça generalizada e um caos disfarçado de requinte e admiração mútua.

Foi em uma noite de sexta feira que iniciou-se o movimento. Sem que seus donos desconfiassem e com uma organização de meter inveja nos revolucionários mais engajados e estudados, as bocas se fecharam como que em advertência. Uma paralização mundial combinada debaixo dos narizes de todos, literalmente. É claro que os narizes sabiam do assunto e concordavam com a causa defendida pelas bocas. Assim, com uma assembléia geral que convocou todas as bocas do mundo, decidiu-se pela paralização. O fuso horário atrapalhou a organização da reunião, naturalmente, mas com encontros paralelos e locais, fez-se com que o assunto fosse discutido nos quatros cantos do mundo. “Não aguento mais as merdas que o Gustavo fala, dia e noite” desabafou uma boca de lábios finos, meio rosada; “A Renata acha que sabe de tudo, não pára de falar um minuto e há cinco anos não escuta uma palavra sequer de outra pessoa, foi o que me contou o ouvido semana  passada” anúnciou uma boca negra de lábios grossos. E assim se sucederam as bocas em protesto e indignadas. A resultado da votação na assembléia foi unânime: greve. Lábios grudados por tempo indeterminado, até que os donos aprendam a falar a verdade e que pensem um pouco antes de proferir palavras. Não precisa de genialidade para passar a falar, não foi isso que as bocas decidiram, mas resolveram estabelecer um padrão mínimo de consciência pré determinada antes de se moverem e interagirem com outros indivíduos.

O movimento foi foi apoiado por quase todos os outros membros. A orelha, cúmplice do ouvido, também estava sendo prejudicada e temia ficar obsoleta, já que ninguém calava a boca e assim não conseguia ouvir. O estômago temia ser prejudicado, pois achou que as bocas se recusariam a abrir para a ingestão de alimentos. As reuniões estabeleceram e esclareceram os pontos reivindicados, construindo assim um movimento sólido e consistente. E assim se fez. Em uma noite de sexta feira, o silêncio foi determinado a força. Os lábios em conjunto com os músculos do rosto recusaram-se a abrir e a gritaria parou de súbito. Nos bares a música pode ser ouvida; nas igrejas foi possível ler a bíblia sem os devaneios do sacerdote posicionado acima da cabeça de todos; os pensamentos foram ouvidos como se fosse a primeira vez, e muitos se assutaram ao identificarem uma voz dentro da própria cabeça. O silêncio foi estabelecido no mundo inteiro, ao mesmo tempo. Algumas pessoas só descobriram que não poderiam falar horas depois, pois estavam dormindo. Os professores em uma escola na Bahia ficaram calados e os alunos não mais gritavam sem razão. Os pássaros passaram a ser ouvidos e se sentiram reis. Até o bater de asas das moscas passaram a ter seu lugar. O dia nasceu e a paralização continuou… A semana correu e as bocas mantiveram-se fechadas. A greve foi estendida por alguns anos, de forma firme e decidida. O silêncio reinou no mundo dos homens e até os deuses desceram a terra para agradecer e registrar seu apoio total a greve. Todos os deuses desceram. O silêncio era a única palavra de ordem, mesmo que não pudesse ser dita.

As bocas decidiram terminar a greve, achando que haviam ensinado a lição e alcançado o objetivo proposto. Os homens não sabiam o que falar e, por opcão, passaram a ficar quietos, temendo um novo surto sabe-se lá do que.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

O céu está cheio de teias.Teias e moscas presas. O céu está a deus dará, entre as nuvens ecoa o sopro do vento e os raios de sol produzem um espetáculo que ninguém vê. O céu está cheio de teias. As pessoas não o visitam mais, nem em sonhos, nem depois de mortas. Ninguém sabe o que existe no céu, a algum tempo ele está inabitado e nenhum antepassado pode deixar nenhuma informação, pois haviam esquecido. O céu está inabitado. Perdemos tempo demais aqui na terra com coisas que já nem lembramos mais. Os sonhos não ultrapassam os dois mil pés de altura e as nuvens só servem pra provocar chuvas. Chuvas ácidas que não lavam a nossa alma. Os anjos se retiraram aos aposentos e se entediam com jogos de cartas e vinhos baratos. Os anjos inquietos que ousavam rasgar a barriga do céu e descer em busca de aventura, já não o fazem. Pela primeira vez na história o céu está aberto a visitação e somente as aranhas o visitam para esbnajar suas habilidades arquitetônicas.

As ocupações na terra mantém as pessoas por aqui eternamente. As tarefas são tantas que não se pode abandonar o solo nem mesmo depois de morto. Vagam as almas entre prédios frios e postes de eletricidade. Vagam entre as certezas de que sempre fizeram as coisas certas, sem nenhum questionamento, sem nenhuma dúvida. As ruas estão cheias de lixo e orgulho, orgulho e lixo. Nós nas gargantas que silenciam a vontade de gritar, que emudecem o sussurro aos céus. Cabeças que perderam as asas e não mais voam acima dos prédios, que ficaram cabeçudas a ponto de acharem que não precisam de asas. Prenda-me ao solo e me mostre o caminho. Um guia prático e um livro de auto ajuda pra manter a sanidade que se hospedou por aqui. O céu esta coberto de teias de aranha. Ninguém está a salvo. Que os anjos aprendam a morrer e a mentir. Que eu aprenda a andar e a sorrir.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

“Apareceu na porta de entrada e meu corpo estremeceu de um jeito que nunca havia experimentado”, narra o autor de um texto lido por muitos. Logo penso que é paixão, que os dois ficarão juntos em determinada página. Eu quero que fiquem juntos. Com olhares insinuosos e troca de sorrisos discretos os protagonistas nos deleitam com a materialização do amor. Sigo cada passo e transpiro ao descobrir que meu companheiro está sofrendo durante uma noite de lua cheia. O escritor deita. Discorre sobre tudo e todos como se soubesse cada linha do que está falando. Se apropria da voz, da voz dele, dela. Se apropria da minha voz e me faz gritar o que tem vontade. Condenamos homens ruins e salvamos princesas que nunca nos foram apresentadas. Tomamos partido. Talvez seja isso, talvez devamos concluir assim. Talvez não. Por vezes desistimos no meio por não acreditar naquilo que lemos, por outras passamos a acreditar assim que batemos o olho. É um jogo de ilusões e mentiras deslavadas que nos pega pela mão e nos leva por onde quiser.

Enfim eles ficam juntos. Por força do autor, não por força de vontade. Um encontro inesperado na biblioteca e pronto, sela-se o destino. O destino que nos foi apresentado, o ponto final que o personagem não deu. O feliz para sempre determinado muito antes do fim. Por curiosidade continuamos a leitura e nos satisfazemos com as vidas que nos foram apresentas. Fragmentos de vidas, pedaços do que quiserem. Vidas que nos ajuda a levar a vida, até que a nossa vire a mentira que levará um sorriso ao rosto de um inocente.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O tempo. Tempo é tudo que temos sem termos nada. O tempo te tem, te abraça apertado mesmo que você odeie. É implacável como sempre foi dito, não respeita idade, vontade. Não liga pra ética e moral e destrói tudo que existe pela frente. No começo é a gênesis. As colunas, o cimento e o erguer das paredes. A criação de tudo que se torna eterno por tempo indeterminado, o esticar do sorriso e o canto dos mudos. O tempo. Tempo que mistura tudo em alguma coisa, que transforma e recria a cada piscar de olhos. Tempo que cria e mata. O tempo, o mesmo que te põe no chão e te torna cego, que te traz o esquecimento e encerra tudo de bom que já aconteceu. O que te fez sorrir e cantar, dizer e calar. Beijos, muitos beijos que não são promessas. O tempo que te fez perceber o quão idiota sempre foi, e o quão interessante você nunca será. Cura, fere, sangra e mata, tudo de uma vez. Te fez odiar os braços dados e dedos entrelaçados. Tempo que não tenho pra chorar, tempo que tenho pra escrever, sem saber. Tempo precioso pra uns, ocioso pra outros. Tempo pra mim, pra você. O abraço do tempo que pode esquentar e aconchegar, ou esfriar a alma que já esteve por aí, passeando em outros tempos.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Tenho alimentado um animal. No começo, quando apareceu com uma cara amassada, de quem dormiu por tempo demais, eu ignorei. Mas com o tempo passei a gostar dos pelos roçando em minha perna debaixo da mesa. Começamos a trocar confidências e ele se tornou meu maior amigo.  O problema é que não é conveniente que me acompanhe para todos os lados, embora seja a minha vontade. Me tranco em casa e me pego brincando por horas, dias. Jogo bolas e as recebo cheias de baba. Pego bolas e as devolvo cheio de raiva.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Adeus ao mundo meu

Foi deitar cercado de ladrões sedentos de sofrimento e sangue. Antes de encontrar seu fim despediu-se como deveria de cada membro da família. “Boa noite mamãe, eu te amo muito” “Boa noite, meu amor”, respondia a mãe, enquanto preparava a marmita para o almoço do dia seguinte. Parou na porta do quarto do irmão mais novo e o observou brincando com um boneco de cabeça laranja, sem perna. Não entendia o porquê o irmão gostava tanto daquele boneco de cabeça laranja, laranja, onde já se viu… Pensou em despedir-se também do irmão caçula e o fez, não do jeito melodramático que experimentara com a sua mão na cozinha, mas de um jeito brando, simples. “Vai a merda, Luiz.” disse sob o batente, disfarçadamente emocionado. “Cala a boca, seu bosta” recebeu como resposta. Sorriu e virou-se em direção ao quarto. Não foi dizer adeus ao pai, pois sabia que ainda estava na fábrica. Sempre chegava de madrugada quando tinha esses ‘novos projetos’ para terminar.

Conversou com seu dinossauro predileto, pediu que cuidasse de tudo na sua ausência e disse que deixava todos os seus bens para o querido amigo, como prova de seu carinho. Chorou e pediu para que não debochasse, beijou e enrubesceu, apoiou o fiel amigo no travesseiro e o cobriu. “Boa noite e obrigado” disse olhando nos olhos do predador, inofensivo debaixo daqueles lençois. “Boa noite, meu amigo” respondeu o dinossauro.

Não sabia que ladrões o viriam pegar naquela noite, ou que enfrentaria oito homens sozinho, com uma espada mal afiada. Não tinha como descobrir os mistérios que o aguardavam por trás das pálpebras ainda enrugadas. Só sabia que quando a cortina de pele baixasse, estava por sua conta. Cumpria o ritual todas as noites, sabendo que qualquer uma poderia ser a última.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Texto para quem gosta de não texto

Desde cedo eu vi a jaula. A jaula suja e escura, localizada no fundo do que parecia ser uma sala enorme. Aos poucos passei a jogar pedaços de pão e restos de comida só por diversão, gostava de mirar bem no meio do quadrado, do cárcere do que eu ainda não sabia.

As migalhas desapareciam e eu tornava a repetir o gesto. Aos poucos isso se tornou um hábito. Desde criança, alimentado pelo que ouvia dizer a respeito daquela jaula, vivia olhando de canto de olho, sem nunca me perguntar afinal o que é que havia la dentro. E as migalhas continuavam a forrar o chão do lugar e a sumir logo em seguida. Me tornei bom nisso com o tempo. Conseguia acertar exatamente onde desejava.

Nunca enxerguei o fim da dita jaula. A partir de um período fiquei fissurado pelas barras enferrujadas e não conseguia mais arredar o pé daquele lugar. Todas as vozes de infância faziam eco em minha cabeça, vozes que me alertavam a respeito da criatura guardada entre barras.

Nunca enxerguei o fim da dita jaula. Ontem consegui ver a porta, pela primeira vez. Fiquei entusiasmado, obviamente. A ansiedade me tomou por completo e me fez aproximar da porta pra tentar qualquer coisa. Uma inquietação me fez suar frio e sentir vertigem. Procurei me conter ao tentar localizar alguma maçaneta. Foi quando percebi que a fechadura estava virada para o outro lado e que o fim daquela jaula estava bem atrás de mim.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Entrou no quarto escuro, sem sombras ou luz que lhe servissem de referência. Cambaleou no começo, apoiando-se em qualquer coisa. "Você está aí?" perguntou a segunda voz, alta como se usasse um megafone. "Responda, voce está aí?" Não sabia se devido a inutilidade da visão dentro naquele cômodo a audição havia melhorado ou se a voz estava realmente alta do jeito que lhe parecia. Abriu a boca e tentou responder, sem efeito. Encontrou uma cama e sentou, tentando focar qualquer coisa a sua volta. Conhecia aquela cômodo, ja havia visitado aquele lugar algumas vezes, não tantas como deveria, não tantas como queria, mas não era de todo estranho. Apalpou a colcha e sentiu a poeira entre os dedos, o travesseiro abandonado entre as cobertas. Ergueu-se devagar e esticou o braço afim de sentir uma prateleira que ele sabia estar ali na frente. Sentiu a brochura e sorriu, passou rápido para os livros do lado, uma pedra velha repousando no pedaço de madeira. Sabia sobre cada objeto guardado ali, conhecia aquele lugar. Sorriu e continuou, de olhos fechados agora, uma vez que os olhos já não lhe serviam de nada. Deus, como era bom estar de volta. A voz que o chamava de longe começou a diminuir o tom e um som metálico passou a preencher todo o local. O despertador o troxe pra vida real. Não conseguia ficar com ele mesmo, não visitava sua cabeça fazia um tempão... Vestiu a calça e voltou a pegar no batente após um descanso de duas horas.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Em um futuro não muito distante, fez-se a liberdade. Liberdade de ir e vir, pensar, falar, gritar; liberdade sexual e entre gêneros, fez-se a liberdade. A tão desejada e utópica liberdade. Aquela de textos e idéias, livros, músicas e filmes. Livres de qualquer encargo ou horários as pessoas poderiam fazer o que quisessem. Sem dedos apontando direções, ordens a serem seguidas ou líderes idealistas. As pessoas poderiam pensar o que quer que fosse agora, sem necessidade de prestação de contas após o ponto final. O tão sonhado mundo livre, de tudo. O vizinho não colocou o relógio para despertar, o padeiro não assou os pães pela manhã e você não comprou a bolsa que anunciavam na televisão. Atravessar fronteiras sem supervisão de chefes de Estado ou datas previstas para expiração e um andar leve, delicioso e macio. Tudo como queríamos, o maior dos problemas resolvidos. A satisfação entrando pela corrente sanguínea e trazendo a sensação de felicidade ininterrupta, um torpor de sensações mescladas e uma mente adormecida, preguiçosa. Não sabíamos como seria a sensação e continuamos sem saber. Cada um fazia sua idéia na cabeça, afinal de contas todos tinham a liberdade de pensar ou desrespeitar opiniões alheias. Não tardou a aparerer centenas de teorias sobre qualquer coisa, a política deixou de existir, já que não havia necessidade de disputa ou argumentação sobre divergência de opiniões. Todos eram todos na multiplicidade do ser, na liberdade do relativismo e na interpretação de todos os fatos. O caos se fez sem que adimitíssemos, poderia chamar do que eu quiser e você também. A bagunça era generalizada nas ruas e avenidas da cidade e aos poucos passamos a não saber o que fazer com nós mesmos. Sem concordância alguma entre discussões sobre os bezouros que carregavam formigas ou qualquer coisa do gênero passamos a odiar todo mundo, sem perceber que odiávamos a nós mesmos. Podendo ir a qualquer lugar ao acordar, ficávamos cada vez mais nas nossas camas e aos poucos tornamos a ligar nossas televisões, que já não passavam nada. A liberdade confundida com desrespeito, o ego intoxicando a opinião. Humanos que não ouviam mais nada. Foi essa a liberdade encontrada e exercida em um passado não tão distante

terça-feira, 5 de junho de 2012

Os opostos que vivem a nos regular! Eu, eu, eu. Busco referência em tudo e qualquer coisa, tudo que legitime meu sorriso, que me faça dormir tranquilo. A estampa da minha camisa mostra o que quero de mim, a parte que escolho, o pedaço que me agrada. Uso superlativos pra enfatizar o que penso. É uma busca constante por qualquer identidade, pois não quero me sentir sozinho... Pro inferno com tudo. O pensar que sou especial me faz arrogante. A individualidade e relatividade das ações me livra a cara dos problemas, me fazendo dormir tranquilo, finalmente. Talvez eu não tenha que dormir tranquilo, talvez eu não tenha que escolher a parte que me agrada; provavelmente deveria andar nu em pêlo pelas ruas, sem apontar, mas ser apontado. A vergonha multiplicada pelo ego nos faz correr. Correr não sei pra onde até alcançarmos o destaque. Destaque entre o que escolhemos, pra nos diferenciarmos dos outros, outros que odiamos, mas que regulam o meu sucesso. Afinal, o que seria de mim se não existissem os derrotados? E a corrida continua: encha sua garrafas com água e respire fundo. Vou fazer um café.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Parte 2 do texto sem nome

Com 12 anos de idade Gustavo não havia desfrutado de algumas emoções tão comuns a muitos de nós. A peculiaridade de sua existência enclausurada fez com que sua vida fosse se moldando dia após dia, sem perspectiva ou planejamento prévio. O sol se escondera e a noite deitava seu manto de estrelas sobre a cidade enquanto Todos na casa aqui referida dormiam. Gustavo nunca sonhava, toda noite vinha e partia como as notícias que nunca ouvimos, notícias em línguas que desconhecemos, sobre países que nunca visitaremos, notícias que não causam efeito algum. Durante a noite de um outono passado Gustavo acordou. Levantou e foi molhar a garganta quando deu de cara com a porta da cozinha escancarada. O vento fazia as cortinas dançarem frenéticamente e traziam a música cantada pela natureza pra dentro da casa, música que não era bem vinda àquela hora. Correu pra fechar a porta e avistou uma escada posicionada no muro da frente da própria casa. Decidiu subir pra ver onde dava, já que a escada estava no quintal. Provavelmente havia sido deixada la por esquecimento de seu tio descuidado. Subiu por tempo indeterminado, tempo que não poderíamos calcular de acordo com a nossa concepção. Subiu um degrau atrás do outro e chegou ao céu. Passeou distraidamente observando a disposição dos elementos que apareciam a sua frente sem se dar conta do caminho que fazia. Depois de tanto pé na frente do outro percebeu que muito provavelmente estava longe de casa. Olhava pra baixo e via uma cidade linda, toda iluminada sob seus pés. Nunca, em toda sua breve existência vira imagem tão marcante e fabulosa. Pela primeira vez na vida entendera as frases se Shakespeare. Sentiu que poderia conversar sobre sua viagem com Julio Verne sem ficar pra trás ou envergonhado por não ter tantos causos assim. Sentiu que as palavras em sua cabeça tinham outro gosto agora, outra cor. Sabia o rítimo da música ao ler Goethe sem nunca visitar a Alemanha, agora ele sabia. Sentiu pela primeira vez, sentia. As palavras e sensações o acometiam, todas de uma vez. De olhos fechados deixou que o turbilhão o pegasse e fizesse de tudo. Palavras chegando, batendo... Recordar... 'Do latim re-cordis, tornar a passar pelo coração' Sua vó. Tentou descer correndo as escadas que o trouxeram até ali e caiu. Caiu leve, delicadamente até o quintal que conhecia tão bem. Não saberia dizer o tempo que durou a queda, muito menos a sensação que sentiu. Apostou que nenhum dos autores que conhecia o poderiam fazer. Entrou pela porta da cozinha, bebeu um copo de água e foi até o quarto, deixando-se cair deliciosamente entre os lencóis. Acordou no dia seguinte e foi em direção ao quintal, onde sua vó costumava ficar sentada, tomando sol. Percebeu que ela parecia muito mais velha que de costume, mas não disse nada, sentou-se e pegou um livro pra começar sua leitura matinal em voz alta. Antes que começasse, viu o tio entrando com um carro na garagem, não tinham carro. Quando a porta bateu e o sol decidiu mostrar o rosto do parente Gustavo pode notar que seu tio havia envelhecido uns 6 anos durante aquela noite. Não sabia se havia sonhado, não tinha como descobrir. Pegou o livro, ignorando a discrepância física do sujeito que estava a sua frente e começou a ler. Parou e repousou o livro no chão. Respirou e olhou pra avó ao recomeçar "Havia uma escada no quintal e ventava forte..." O sorriso conhecido da avó o fez continuar, ininterruptamente. Recordar. Gustavo jamais esqueceria o significado daquela palavra.

Parte 1 do texto sem nome

Pouco se sabe sobre crescer sem pais quem sempre usufruiu do afeto de um par de braços. Braços que envolvem, apertam e acolhem. Aperto que aconchega e proteje. Amor que livra do abismo, sem eliminar o vento fresco no rosto. Amor que aperta, pois amor sem aperto no peito nada mais é do que um engano. Portanto, quem cresceu e cresce perto das pernas altas em vestimentas de verão pode não entender muito bem o que vou contar agora. É coisa rápida, prometo. Nada tão interessante também, porém, o que tem pra fazer mesmo? Quando Gustavo nasceu, contava com uma Avó doente e um tio. Sua mãe morrera logo após o parto, por conta de complicações durante o procedimento. Quando soubesse daquilo, Gustavo se sentiria culpado pela morte da mãe e carregaria aquele peso pelo resto da vida. Mas isso não vem ao caso. O que nos interessa é saber que a vida do jovem exposto nessas palavras se resumia a Avó e o tio. Avó que sofria de alzheimer e tio que precisava de mais cuidados do que o recém nascido. Não admira que desde cedo Gustavo aprendeu a se virar. Fazia sua própria comida aos cinco anos de idade e aos 7 lavava e passava sua própria roupa, enfrentando todos os perigos e aventuras que se escondem dentro de um ferro de passar. Foi mais ou menos nesse período que Gustavo conheceu seus amigos asiáticos e viajou para o oeste durante o verão. Aprendeu a ler sozinho e o fazia sempre que podia. Lia para sua vó em voz alta e clara, enquanto a mesma sorria, achando graça em cada palavra. O tio não parava em casa, quando passava era pra tomar um banho ou comer alguma coisa. Se acostumaram a ausência do outro e seguiam a vida desse jeito. Entre leituras soltas e bonecos sem cabelo, descobriu o que a palavra recordar significava 'Do latim re-cordis, tornar a passar pelo coração' Refletiu por um momento mas logo descartou o pensamento por não fazer sentido. "passar o que pelo coração?" Gustavo não tinha nada do que recordar, uma vez que sua vida se resumira aos três cômodos a que estava habituado. Nunca havia saído de casa. Seu maior passa tempo era a leitura, com oito anos de idade conhecia Guimarães Rosa de trás pra frente e citava qualquer trecho de Saramago, sem pestanejar. Era uma atividade ótima essa de ler e, acima de tudo, decorar livros. Nunca frequentara a escola, portanto, nunca chegou a ouvir "você precisa entender o livro, o que o autor quer dizer..." e essa baboseira toda. Todo conhecimento que tinha vinha diretamente dos livros que um dia pertenceram a sua vó, ex-professora de literatura em uma escola qualquer. Achou que sabia tudo, sem que ninguem o pressionasse ou cobrasse qualquer coisa. Pois quando não se tem com o que comparar, qualquer resultado é o máximo, ou o mínimo.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Os ofícios nos são apresentados numa cartilha cheia de cores que indicam as diferenças e semelhanças entre cada um. "Pra você que nasceu assim; pra gente que pensa assado" Ofícios exóticos e comuns, atividades estranhas ou bem vistas pela sociedade. Entre as idas e vindas, os blocos de cimento depositados nas costas cansadas de fardo, não se encontra tempo pra pensar no que fazer pro resto da vida. Pro resto da vida. Parece muito tempo, meu deus. Vida de vitrine, mãos que cheiram a isopor. O cérebro que estica e retrai recebe uma saraivada de balas que machucam e cicatrizam... Balas que gritam, balas que brilham, que sorriem e envelhevem, apodrecendo aos poucos, deixando nada mais que que alguns decibéis indecifráveis e um brilho que ofusca a visão... Entre o entretenimento que distrai e o tempo perdido no tempo, não se fala muito sobre o que quer. Falta o gosto e sobra a culpa. A culpa de não sei o quê, o dever que não nos sustenta ou apetece. Da sensação incômoda surge a necessidade que lhe foi sugerida. Não sua, não minha. viciados em algo que não existe, seguimos emoções fabricadas e nos sentimos confortáveis. Um conforto que dura pouco e logo dá lugar a coçeira e a insatisfação. Um não saber o que fazer generalizado. Os ofícios nos são apresentados. Entre uns e outros, escolhemos o que fazer para o resto da vida. A vida inteira. É muito tempo, me parece. Direcionar a nave logo no começo da viagem, mas como saber a curva que me aguarda logo a frente? Eu não sei. Prefiro esperar a esquina me pegar de surpresa e quem sabe, se for de minha vontade, parar pra comprar umas laranjas na quitanda que eu hei de encontrar pelo caminho.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Começou aos poucos, como se nada fosse. Um câncer aqui, o sentido da visão devolvido como em um acender de luzes, a tuberculose que voa pra longe com asas improváveis. Acontecia assim, de uma hora pra outra, entre um bocejo e um prato de arroz. De onde vinha era tido como um qualquer. Na cidade dos milagres estranho é ver quem adoece ou padece de doença qualquer. Não precisava de muito e vivia de rede em rede, árvore em árvore, com o sol sob a cabeça e calo nos pés, sabia aproveitar o que o mundo lhe proporcionava de mais belo. Seu nome não é importante. Podia-se chamar José Qualquer ou Jorge de Alguma Coisa. O que conta pra nós são seus feitos milagrosos, pra nós, não pra ele que via com naturalidade a capacidade de cura que Deus lhe deu. Foi em uma viagem inesperada pra São Paulo que viu sua vida mudar. Pés nos sapatos pela primeira vez, pés que traziam um bichinho gostoso demais de coçar. Achou engraçado quando ouviu o nome da cidade "São Paulo", repetiu consigo mesmo, sorrindo. Achou que seria mais um dentro dessa São Paulo. Mudou-se por ordem do juiz de todos os tribunais, que achou por certo transferir o menino pro mundo dos homens após ficar órfão. Viagem comprida essa até São Paulo. Chegou em uma noite de sexta-feira, foi largado por um ônibus de transporte público do governo da cidade dos milagres em um bairro sujo, cheio de gente e frio. Os dias se seguiram sem muita novidade. Tratou logo de arranjar um barraquinho pra esticar os ossos e um bar pra esticar os pensamentos. Notou que havia muitos enfermos na sua atual cidade, gente com todo tipo de doença, algumas criadas pelas próprias pessoas e prorrogadas pela ganância de todos que o rodeavam. "Ganância", achou bonita a palavra quando a ouviu pela primeira vez. Passou a ajudar no que podia as pessoas que faziam parte de sua nova vida. Uma enchaqueca pela manhã, dores nas costas pela tarde e dores de amor ao anoitecer. A tarefa de realizar milagres o mantinha ocupado o dia todo e isso era importante agora que vivia em um lugar novo, desconhecido. Passou bem uma porção de dias, até mesmo o dia em que um procurador do governo do Estado de São Paulo levou uma intimação até a porta de seu barraco acusando-o de trabalho ilegal, sonegação de impostos e uma porção de coisas das quais não entendia nada. Contou com o auxilio de alguns colegas que havia ajudado e conseguiu uma licença pra exercer seu 'ofício' com a autorização do Estado. Não conseguia comer porque não tinha o tal do dinheiro que tanto lhe pediam quando precisava de alguma coisa; não achava árvores com frutos que lhe saciassem a sede e a fome, não entendia nada do que acontecia. Foi enquanto coçava seu bicho de pé em uma rede improvisada que teve a idéia que mudaria sua vida pra sempre. Pensou em cobrar pelos serviços que prestava às pessoas, assim poderia comprar o que comer e vestir. Achou genial as idéias que lhe pegaram de surpresa e decidiu aplicá-las já no dia seguinte, pela manhã. Esticou uma placa feita de papelão e tinta vermelha em frente ao barraco que trazia as palavras "milagres por R$ 10,00". Foi assim que o São qualquer coisa começou seu império na cidade de São Paulo, meio que por necessidade, meio que por tédio, meio que por raiva dos que lhe tiravam a paz. Foi assim que o São qualquer coisa se tornou o homem mais rico do mundo, dono de uma casa que passaram a chamar igreja e general de um exército que se auto denominava fiel. Só não sabia fiel a quê.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Colocar aqui um texto que presta, só pra variar: "Estou lendo um romance de Louise Erdrich. A certa altura, um bisavô encontra seu bisneto. O bisavô está completamente lelé (seus pensamentos têm a cor da água) e sorri com o mesmo beatífico sorriso de seu bisneto recém-nascido. O bisavô é feliz porque perdeu a memória que tinha. O bisneto é feliz porque não tem, ainda, nenhuma memória. Eis aqui, penso, a felicidade perfeita. Não a quero." A desmemória/1 - Eduardo Galeano em "O Livro dos Abraços"

A origem dos nomes

Quando Renato Augusto saiu de casa na manhã de quinta-feira, não poderia imaginar que aquela seria a última vez que veria o taco gasto da porta de entrada da sala. Mochila nas costas, um gole longo no suco de limão, de saquinho e um pé na frente do outro, rápido, enquanto seca a boca na manga da blusa de moletom. O vento frio do lado de fora era um prelúdio do que aconteceria naquela tarde. Como se não bastasse o atraso de quarenta minutos pra aula, os ventos que sopravam o ouvido de Rentao Augusto anunciavam o causo e a tragédia anunciada. Passou pelos vizinhos sem cumprimentar, como sempre fazia. Vinte anos de convívio não foram suficientes para produzir nenhum afeto pelas pessoas que rodeavam sua casa, que acordavam e dormiam sobre o mesmo sol, que elegiam o mesmo prefeito. A indiferença de sempre manteve os olhos de Renato fixos a frente, sem mirar ponto algum no horizonte. Não fosse tão distraído, perceberia os anjos que habitavam a árvore no fim da rua procurando o que comer nos lixos da vizinhança. As asas que não eram nada discretas denunciavam a origem divina daqueles corpos. Continuou veloz e cruzou a esquina, ignorando o nome na placa "Gustavo de Souza". Fazia o mesmo caminho todos os dias, duas vezes. Nunca notou a casa de tijolos verdes que se esticava por todo o quarteirão. Escola, almoço, escola. Podia ser considerado um aluno esforçado, o Renato Augusto. Não fosse o acontecimento daquela tarde, alcançaria um posto importante dentro do ramo tecnológico. Eu sei, tenho toda a trajetória aqui na minha mão. Se a minha falta de jeito com a caneca de café não tivesse atrapalhado, saberia descrever até o que aconteceu durante a tarde. Maldita distração... Ao descer as escadas encardidas da escola, sentiu um arrepio na espinha, daqueles que só acontecem uma vez na vida e bem perto do fim dela. Como é uma sensação completamente nova, seria impossível adivinhar o que estava por vir. Fez o caminho conhecido de volta pra casa e virou uma esquina a esquerda. Foi a última vez que faria qualquer curva. Não se viu de onde saiu ou onde entrou, nada se sabe sobre o que ocorreu. Um descuido no roteiro da vida, uma mancha de café que apagou Renato Augusto da história. Os anjos não pararam de revirar o lixo, o sol não parou de brilhar e nenhum copo foi quebrado no restaurante do centro da cidade. Um desaparecimento silencioso e repentino. Dias de desespero se seguiram entre amigos e familiares, uma busca bem empreendida pela polícia local não trouxe nenhum resultado. Um descuido do escritor de destinos que trouxe o fim abrupto de uma vida inocente. Passado um tempo, tempo suficiente pra que os cartazes de desaparecido se desfizessem junto a chuva, tempo pra que a memória lembrasse do esquecimento, fez-se a justiça celestial. Porque o mundo não deve pagar pelos erros de um senhor qualquer que brinca a vida dos outros com um lápis afiado. Quando os desaparecidos já não têm lugar em nossa memória, o espaço lhes é garantido e no momento em que termino de contar essa triste história, Renato Augusto ganha uma placa. Seu nome de batizado dará nome a rua de uma cidade no interior. Nome que ninguém reconhecerá, placa que não será lida; objeto que traz justiça a um pobre coitado e paz de espírito ao escritor descuidado.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Peço paciência como quem pede um pouco mais de açucar no chá. Como quem não entende nada de física e decide erguer um prédio com as próprias mãos. Mãos que não sabem nada de pedra, cimento, massa corrida. Com um objeto redondo na mão, abro a boca e discorro sobre o encaixe perfeito em uma superfície triangular, não sei nada do que falo. Não fui jogado entre paredes estranhas, carros barulhentos e palavras que soam diferente, engraçadas. Não faço idéia do que é ser puxado para centenas de quilômetros de qualquer coisa conhecida. Como é pousar em terra desconhecida e ser julgado por cada passo que dou na escuridão. Ânsia pelo novo, vômito que materializa a insatisfação. Uma vontade de se encontrar dentro de qualquer coisa, qualquer pessoa. Não sei o que é isso e talvez nunca saiba. É fácil pedir pra sorrir com as luzes do sol quando se conhece cada milímetro iluminado de um quarto. É fácil correr pra casa quando alguma coisa da errado, é fácil. Quando cada rua te leva pra caminhos conhecidos, cada esquina te conforta. Quando os fios do pensamento não convergem e a estupidez senta ao seu lado, te peço paciência. Como quem ignora as coisas todas, como quem sempre teve as pernas cobertas e aquecidas no frio, eu peço paciência. Os mares que te levam rumo a um porto qualquer seguem agitados agora. Nunca naveguei em navio algum, não sei qual a cor da água quando se está a trezentos quilômetros da costa, a deriva. Não sei. Sei que no fim da viagem encontrará um bosque colorido, um acampamento seguro e tons de verde que lhe agradam. Sei que as notas que saírem do violão te farão cantarolar com o sorriso no rosto, aquele, o que eu mais gosto. Sei que voltará acompanhada pra casa e sentirá o conforto que foi deixado pra trás. Por isso e por mais uma infinidade de coisas que eu desconheco, te peço paciência.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Balas e Pingos

Pegou o telefone e ficou segurando junto com o pedaço de papel toscamente rasgado. Papel que trazia o número da salvação, da sua salvação. Pesquisara em todos os lugares possíveis, todas as ruas e vielas do centro da cidade suja e antiga, quase tão antiga quanto as mãos que seguravam o telefone. Trazia a preocupação consigo a muito tempo, mas só agora decidira fazer qualquer coisa a respeito. Antes de seguir o plano a cabo, certificou-se de que estava lidando com o melhor, com alguém infalível. "Nunca deixou de concluir um trabalho sequer" garantiu seu amigo da padaria, quase tão velho quanto ele próprio. Seguiu por alguns minutos com o papel e o telefone na mão, tremia um pouco, em partes pela idade elevada e por outras pelo nervosismo que o acompanhava. Vinha adiando aquele momento e não podia mais deixar as coisas como estavam. A ameaça o perseguia todos os dias, dia e noite, e a perturbação passou a atrapalhá-lo nos afazeres cotidianos. Endireitou o dedo enrugado e, com firmeza, começou a discar o número que trazia em mãos. Falava em voz alta ao mesmo tempo em que discava, para ter certeza de que não cometeria nenhum erro. O telefone sabe-se lá de onde tocou uma, duas, três vezes. "Alô" disse, simplesmente, a voz grave e com sotaque do outro lado. "Desejo contratá-lo" informou o primeiro homem. "ok". Passou todos os detalhes dos quais tinha conhecimento ao contratado e pediu rapidez na execução da tarefa. "Vêm me perseguindo já a algum tempo, não aguento mais. Tenho certeza que sabe onde moro e até os horários em que vou ao banheiro. Já peguei me vigiando durante o sono!" falou, baixando para uma espécie de sussurro alto no fim da frase. "Comprei uma arma, mas acho que não tenho coragem de usá-la. Tenho certeza que um profissional fará um trabalho melhor" concluiu. "Não se preocupe senhor, dentro de 48 horas ninguém o incomodará. Matei um dragão mês passado com nada mais do que minhas mãos". O Atirador veio seguido de ótimas recomendações. Anotou todas as informações em sua caderneta e partiu pro trabalho na manhã seguinte. Seguiu os passos do senhor que o havia contratado para que pudesse criar um sistema e mapeou cada pessoa com a qual o velho lidava todos os dias. Ficou intrigado com algumas companhias que o rodeavam, mas não havia nenhum indício concreto de um possível assassino. As 48 horas se passaram e a frustração do velho passou também a incomodar o mercenário. Não aceitaria mais nenhum cliente enquanto seu trabalho não fosse concluído. Passou noites em claro, analisando fotografias e anotações que se tornaram antigas com o decorrer dos longos meses. Fez campana em frente a casa do velho que passou a ignorar a existência do atirador fajuto. Março é um mês chuvoso e todos sabem disso. Incapacitado de fazer qualquer atividade a céu aberto que fosse, o velho cliente ficou nove dias completos em casa, lidando com uma pneumonia que o agarrou com força e não o deixava de jeito nenhum. O trabalho do mercenário passou a se restringir aquele pequeno quarteirão, uma vez que seu cliente não poderia ser morto em qualquer outro local que não sua própria casa. Na noite do último dia de chuva, de dentro do carro, viu um homem subindo por uma escada improvisada na lateral da casa. Subia de forma desajeitada, mas com firmeza. Subiu e entrou pela janela sem nem se preocupar com a escada que deixara do lado de fora. O atirador saiu do carro com rapidez e entrou pela porta da frente com a cópia da chave que havia feito para si. Subiu as escadas em um pulo só e encontrou seu cliente deitado, aparentemente delirante, encolhido entre cobertas. "Acabou, amigo" disse para o homem que assistia o senhor, com um martelo na mão. "E quem é você?" perguntou o homem com um sorriso assustado. "Eu sou o seu fim" e deu um tiro bem no meio da testa de seu interlocutor. Satisfeito com o próprio desempenho, escreveu uma carta para o senhor cliente que já não tremia mais, apenas dormia, e saiu pela janela, porque parecia mais legal. Sem saber o que acabara de fazer, voltou pra casa e dormiu merecidamente, por dias seguidos... Quando retomou os trabalhos passou a ter muitas dificuldades, não conseguia concluir nenhum serviço e entrou em depressão profunda. Naquele dia chuvoso havia matado sua única companheira de trabalho. Com uma bala no meio da testa, seria difícil encontrar a morte em qualquer lugar que fosse. Aposentou-se mais cedo do que pensou, com a maior fila de clientes que já existiu.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Entrou exausto na cozinha e sentou na primeira cadeira. Tinha dores fortes na barriga e uma ânsia de vômito insuportável. Chorava e soluçava, desesperado, as lágrimas escorrendo pelo seu rosto jovem. Nunca havia sentido nada parecido, trazia as mãos junto ao peito e evitava tocar cada coisa. Ao ouvir o choro desesperado, o pai do garoto desceu as escadas de madeira com a velocidade de um lince e perguntou, desesperado "O que foi, meu filho?". O garoto cruzou a cozinha de forma firme e violenta, esbarrou no pai, chorando, e subiu as escadas mais rápido do que conseguiria qualquer ser humano. Bateu a porta e permaneceu lá por três meses. Seus pais e avós batiam na porta desesperadamente, mas o garoto só repetia que não ia abrir, "não quero comer" e que o deixassem em paz. Os dias seguiam cinzas dentro da casa. Todos estavam silenciosos, alternavam vigílias, na tentativa de pegar o garoto quando saísse para ir ao banheiro ou qualquer coisa assim. Ele não saiu. Os pais chamaram psicólogos, policiais e bombeiros para que tentassem convencer o garoto a abrir a porta. Nada. Repassavam a vida do menino, escreviam cada detalhe em um caderno cheio de anotações agora... "só foi ao shopping, na livraria, como sempre" dizia o pai, icrédulo, ao tentar descobrir o que acontecera ao filho no dia em que chegou com aquelas dores e a agonia em sua face. Os meses se passaram até que os pais e avós do garoto se acostumaram aquela situação. Não tentavam nenhuma abordagem, desistiram de tentar qualquer diálogo ou muito menos entender aquela situação doentia. Simplesmente seguiram suas vidas. Foi na madrugada de um sábado, enquanto o avô estava sentado no corredor, lendo, que o ruído das dobradiças enferrujadas pelo tempo tomou conta do corredor e a porta se abriu... Do quarto saiu uma luz que irradiava como a do sol, mas nao queimava. O corredor todo ficou iluminado pela luz que vinha do quarto do garoto que apareceu, já sem chorar. O avô levantou com dificuldade e foi ver de onde vinha aquela iluminação sublime e violenta. Deparou-se com todos os objetos do quarto do neto brilhando, com luz própria, coloridos de forma tão viva que era difícil olhar por muito tempo. "não acontece quando encosto no papel, ou madeira, mas brilha desse jeito quando toco qualquer outro material", disse o garoto. Ele olhava pra frente, sem enxergar o avó, cego pela luz, obviamente. "Quando aconteceu?" perguntou o senhor, sem se espantar. "No shopping". "huuum, isso é amor" disse o avô sem alterar sua expressão. " mas olhe pra mim, eu estou cego!"... "eu diria que passou a enxergar meu jovem" e deu um tapa no ombro do neto, virando-se para alcançar sua poltrona no fim do corredor a fim de terminar sua leitura. "como é o nome dela?" perguntou o velho, antes de deixar o quarto. "Giovanna"

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Patas no chão

Os cães levaram seus donos para passear. Coleira para mantê-los sempre próximos, um andar pomposo e um desfile exuberante, uma pata depois da outra, sem tropeços. Os cães levaram seus donos para passear. Sol no cocoruco, óculos escuros e língua pra fora, a língua dos donos. Desfilaram por ruas e avenidas chamando atenção dos homens que não se encantam com fadas sobre suas cabeças, berrando e chamando homens que nunca olham pra cima porque morrem de medo que as estrelas caiam sobre suas cabeças. Pessoas que não se deixam fascinar, a não ser por pêlos e quatro patas. Andaram juntos, cães e donos. A última rua era sem saída e marcava o fim do passeio. Os cães moravam em um sobrado alto, imponente, iluminado, o marco arquitetônico do bairro. Todos sabiam que os donos da maior fábrica de tecidos moravam no fim daquela rua. Rua que via agora o desfile dos cães mais cheirosos do universo, cães que frequentavam spas e tinham um círculo social invejável. A gritaria começou logo na primeira dezena de passos. Seguidos de seus donos, ou vice-versa, os cães desfilavam como lhes fora ensinado. As casas que margeavam a rua de asfalto negro vivo também eram infestadas de cachorros, talvez não tão bem posicionados socialmente, mas cachorros sinceros, sujos e sem medo da baba que respingava no chão ao rosnarem. Por não serem dotados dos mecanismos de auto controle dos quais dispunham seus donos, mecanismos tais como consciência, razão ou qualquer outra baboseira humana, os cães nas casas escuras e selvagens gritavam, xingavam e diziam tudo que lhes passava pela cabeça. Era triste pra esses cães ver patas tão limpas desfilando a rua, a sua rua, enquanto seus donos trabalhavam incansavelmente, até chegarem esgotados em casa e dormirem algumas poucas horas. “As oportunidades são dadas para todos” diria algum humano positivista e liberalista qualquer, mas não os cães. Os cães não tinham razão, só se alimentavam da fúria que recebiam do mundo e da insatisfação de seus donos cansados. Berravam todos os palavrões “filho da puta”, “cretino sangue suga de merda”, “tomara que morra enforcado nos rolos de linho de seus donos”... Berravam em nome de seus donos que nada faziam até aquele momento, donos que tinham que se alimentar, que alimentar seus cães. Xingavam e gemiam durante todo o desfile dos pomposos do fim da rua. Todos, de todas as casas. O bairro era tomado por latidos que incomodavam os humanos, “cachorros chatos da porra”, pensavam os homens dotados de razão, razão que os mantinha calados, quietos e insatisfeitos, talvez pra sempre. Razão e consciência que os diferenciava dos cães, sinceros e selvagens como todos os outros animais, menos os homens.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Há ouro! Caindo aos montes pelas ruas e avenidas de correntes sanguíneas. Banhando e entupindo veias que saltam aos berros. Há ouro! Ouro descoberto como que por acaso, desvalorizado a partir da pele, desprezado por leigos e céticos. Há ouro, lhes digo! Do puro, verdadeiro. Acreditem em mim, sou mineiro.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Coisas de morte e de vida

Havia anos não saia de casa, sempre debaixo do mesmo teto, olhando pro mesmo sol elétrico. Depois de uma vida de carros de corrida e cabanas de lençol, teve seu primeiro passeio ao ar livre. Foram até uma praça verde, que ficava a uns cem metros do sol elétrico. Andou de maõs dadas com o vento, enquanto aproveitava o frescor e a brisa que as sombras proporcionavam. O homem de calça marrom desbotado estava ali muito antes da praça ser construída. Viu os tratores tirarem terra, a grama sendo plantada e o trepa trepa colorido ganhar posição. De tempos em tempos mudava a posição das pernas, esquerda sobre direita, direita sobre esquerda. Muitos passavam por ele sem notar sua presença, alguns achavam que era propriedade pública, posto ali por alguns homens uniformizados logo após o escorregador... Aproximou-se do senhor de calça marrom que lia um livro grande, provavelmente pesado e velho, visivelmente velho. O que traz aí, perguntou o menino. Carrego a alma, respondeu o homem. Depois de analisar o livro de capa dura, entortou um pouco a cabeca e tornou a perguntar, a sua? Não, a da pessoa que escreveu o bendito. Por não saber muito de alma continuou ali, ouvindo o que o velho tinha a dizer, encantado. Se soubesse qualquer coisa sobre o assunto tambem ficaria ali, pois a voz soava doce e firme, carregando convicção em cada palavra. Ouviu sobre como o escritor transferia sua alma pro pedaço de papel e como era solitário viver depois disso. Aprendeu que o livro é a alma de quem o escreve, separando-a assim do corpo do escritor pra sempre. Disse ao velho que alguns escritores deveriam ter mais de uma alma, pois escreviam dois, até três livros! Ouviu a risada alta do senhor barbado e olhou para os lados assustado. Ninguém parecia notar a presença de nenhum dos dois. O que faz quando perde alguma coisa, meu jovem, perguntou ao menino. Eu procuro. Pois é isso que fazem os escritores, perdem a alma no primeiro livro e a buscam em todos os outros... Após ouvir cada palavra atentamente e perceber que o sol, desinteressado, partira a procura de conversa melhor, voltou pra casa despedindo-se as pressas do senhor que continuava a ler, mesmo sem enxergar um palmo a sua frente. Dormiu de olhos abertos aquela noite, imaginando almas desprendendo-se de corpos cansados de tanto escrever. Não encontrou o homem no dia seguinte, nem no outro, ou no outro... --- Após trinta anos de almas e corpos de carne e osso, o menino, que já não era considerado assim por seus concidadãos, era dono de um cômodo cheio de almas. Estudou os livros entre os trabalhos na feira e os dias como entregador de pizza e sentia-se o homem mais rico do mundo, ao segurar outra pessoa nas mãos, possuir e manusear o que antes tinha pernas e cabelos, uma cabeça e dedos, dedos! Sempre imaginava as carcaças vagando pelo mundo, tristes e sombrias, olhar vago no chão sem saber por onde andava sua alma. Nunca ousou escrever uma palavra sequer, desde o encontro com o velho no parque. Tinha medo de perder seu único bem, a única coisa interiamente sua, sem imposto sem especulação. O tempo passou por ele como uma borboleta perdida, tirou de seus ossos a força, de seus cabelos a cor e de seu coração o amor de uma vida. Não tinha mais vontade ou motivos para seguir os dias com pés firmes ou as noites regadas a café e canções perdidas. Decidiu determinar seu próprio fim, do jeito que queria. Trancou-se no quarto lotado, com um caderno em branco e um pedaço de lápis. Sentou-se no chão pois nunca pensou em colocar uma mesa naquele quarto. Escreveu a primeira palavra em anos, e observou sua letra tremida,continuou a escrever e passou a sentir um aperto que tomava conta de todo seu corpo, coçando sua pele dos pés a cabeça... Passou três anos seguidos no quarto, escreveu cada detalhe de sua vida, tudo que sua memória lhe permitia lembrar. Encaixou sua alma entre a de Byron e Álvares de Azevedo e deixou o quarto. Pegou uma caneca e enxeu de café esfriado pelo tempo. Deu um gole e não sentiu nada, sorriu e continuou bebendo. Toda a dor, a saudade de uma vida entre páginas manchadas. Pegou o chapéu e andou pelo dia ensolarado, leve, sem culpa. Morto.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Entre portas fechadas e torneiras pingando, a vibração da luz acima da cabeca prestes a explodir sobre nós, entre idéias distorcidas e projeçoes dissimuladas, cheias de gozo e vontade e pontas de dedos dormentes... Feche os olhos, sonhe o melhor sonho e mergulhe profundamente no que quiser. Mar de linhas, emaranhado de palavras supra significativas e olhares que se cruzam. O beijo de boa noite todas as manhãs, uma caneca fumengante e a felicidade percorrendo cada pelo do corpo, escorrendo, como nunca imaginei. Feche os olhos e enxergue pela primeira vez. Olhar pra dentro ignorando os raios iluminados que passam, rapidos demais, barulhentos demais, zumbindo e berrando ouvidos cansados, que ja não escutam mais nada. Sem fones de ouvido, sem maquiagem. Olhe pra dentro e veja tudo. Escreva palavras de ordem entre seus passos e pinte nuvens de verde ou vermelho. Fazer do dia a sua página e correr até cansar. Fazer o que quiser, por mim, por você, por todos os amigos, queridos ou não... por tudo que quero ser, quero que seja assim, deliciosamente você, eu, nós, vós, empilhando tijolos todos os dias pra que o descansar entre lençois pareça merecido e os dedos cansados possam acariciar o outro e dizer que tudo terminará bem apenas pelo toque, como planejamos.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O mundo - Eduardo Galeano

"Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir
aos céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida
humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.
— O mundo é isso — revelou —. Um montão de gente, um mar de
fogueirinhas.
Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem
duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras
de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de
fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem
queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível
olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo."

Eduardo Galeano - O Livro dos Abraços

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Só depois de te conhecer percebi que existem mais botões no chão do que nas camisas e casacos das pessoas.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Não me disseram que seria assim. Os livros descreveram, tudo errado. No canto do quarto não ouvi os violinos de Paganini ou as notas tristes da Orquestra Imperial. Foi o silêncio. Silêncio que gritou seu nome, me fez tremer e sentir a bomba do peito explodindo categoricamente, rasgando cada centímetro de pele. As pernas pareciam fracas o dia inteiro e o rosto inchado me mostrava a última coisa que eu queria ver.
Dói. Ter que descer na estação e te ver pegar o próximo trem sozinha dói. Mudado de todos os jeitos possíveis, guardo as marcas de cada viagem que fizemos juntos. As melhores do mundo. Sento no banco do terminal e escrevo cada memória que passa pela minha cabeça, tenho medo que um dia o tempo leve a saúde e com ela o que me restou de você. Sento no banco e vejo tudo. Não é tão confortável como os bancos que dividimos, mas é o que me resta.
No quarto, na estação, em São Paulo, na minha cabeça... Ficou o que um dia foi o homem mais feliz do mundo.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

"O meio em que vive diz muito sobre você", olhou carinhosamente e disse tais palavras como se fosse a pessoa mais sábia do mundo. Talvez eu queira fugir de tudo por ser um covarde. As pessoas sempre procuram o melhor ambiente para crescerem e desenvolverem sei la o que. "Esse lugar já não tem nada a oferecer..." será? e o que ofereceu? A grama do vizinho pode parecer mais verde e essa é uma desculpa ótima pra que queira trocar meu gramado. Sou podre e tosco como a grande maioria das pessoas que anda por aí. Olhar pra praça e xingar em pensamento, um ótimo exercício que me distancia cada vez mais de onde estou e, por que nao, do que sou.
Viver amaldiçoando cada metro quadrado de onde cresci não vai me levar a outros lugares... Certa vez me mudei. Passei alguns anos na França e experimentei muitos croissants pela manhã... um sonho. Certa vez me mudei. Mudei-me para perceber que o problema sou eu e nao o lugar onde os pés estão plantados. É difícil encarar os próprios problemas, muito mais fácil opinar na vida dos outros. Acho que por isso sempre desviei o furacão que tormenta minha alma. Culpar a falta de educação do vizinho da frente é muito melhor do que encarar-me de frente no espelho, afinal.
Como sempre, não faço idéia do que estou falando. Esperando o sorriso educado e as mesmas palavras retiro-me para o quarto e fico um pouco comigo, pode até fazer mal, mas é tudo que tenho.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Te enclausuraram e fizeram com que parecesse normal. Presentearam e deixaram a deus dará, fazendo crescer como um tumor impregnado a raiva que permeava seus lábios delicados. Encontraram explicações diversas, a biologia, a natureza "é fraca por conta da maternidade, tem é que ficar em casa e descançar." Ouviu os maiores absurdos que alguém pode dizer e continuou ali, firme. Teve a dignidade submetida a dogmas irracionais. Disseram que não era capaz e ergueu-se mesmo assim, mostrando que a força vem de onde menos esperamos. A liberdade que conquistou reflete nas coisas que faz. Que continue firme e não queira parecer com aquilo contra o que tanto lutou, mulher. Te queremos livre, leve, louca.
Como quando não cabe no próprio corpo, quando o berro cala e o metro quadrado nao lhe é suficiente. A coçeira toma conta do corpo todo que estremece... Todas as decisões amaldiçoadas por bocas que abrem e fecham sem parar. Tudo lhe foi dito, tudo lhe foi reservado. O que? Ouvir o que eu inventei pra mim e continuar assim. Viver sem mais nem menos, foda-se o que há de vir... Nunca foi tão dificil assim, por que seria?

terça-feira, 20 de março de 2012

Recebeu sua vida toda em um dia. Um dia com toda sua vida. Passou diante dos olhos como se tivesse tomado um psicotrópico qualquer, fazendo encher de significado o que até então parecia vazio.
Como uma carta que te chega sem aviso prévio, te mostrando tudo que vai acontecer, te lembrando de você quando nem endereço lembrava que tinha. Um tapa na cara, um soco no estômago. A dormência nas extremidades e o abandono da lucidez.
Toda a vida em um dia. Chegou de surpresa e acariciou seus lábios. Fez vazar dos olhos a água salgada e sentir a textura do chão. Depois de tanto tempo, a vida. O cumprimento ao destino, a encruzilhada que levou ao deleite da própria existência.
Um dia que te lembrou porquê, que te fez amolecer e olhar as gotas da chuva sem se importar. O dia que te fez engolir a própria saliva, olhar pro mundo em outros olhos...
Toda a vida em um dia. Dia que não termina, noite que não clareia. Chuva que te lembra do dia em que viu toda sua vida, ali, bem na sua frente.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Por achar que estava morto, andou sem sentir os pés. Caminhou sobre pedras cortadas e encaixadas toscamente. Andou um caminho conhecido, um trajeto que ja havia feito várias vezes. Dessa vez sem vida. Ao aproximar-se do destino, sentiu algo estranho dentro de sua pele, não sabia dizer exatamente onde, só que batia e incomodava, desritmando seus passos sem vida. Sentiu crescer no peito um calor quase insuportável que não era resultado dos quarenta graus que fazia na rua.
Pisou com o pé direito, dentro. Sentiu o comodo engolir o que ainda restava de seu corpo e deixou-se cair. Transpirava como um porco, sentiu as gotas escorrerem pelo couro cabeludo e mostrarem-se no rosto vermelho. Sentiu o que achava não existir; o que achou ter ficado pra trás, largado como nada. Viu um par de pernas se afastando e sentiu o coração escapando também. Seguiu os cabelos negros e chegou a um quarto branco, mais colorido do que qualquer coisa que havia visto. Estava vivo, sabia disso.
A vontade de gritar era imensa, mas sabia que era importante segurar-se ali. Só fez sorrir e fotografar tudo com seus olhos que não podiam esconder o entusiasmo... Sentiu seus braços formigarem, mais um sinal de vida. As extremidades não estavam mortas e o incomodo em seu peito tomou conta de todo seu corpo, pulsando cada vez mais forte. Segurou os braços da dona dos cabelos negros. O mundo se fazia presente do lado de fora, como um organismo vivo, independente. Os carros buzinavam e algumas árvores deixavam seus frutos caírem, mostrando que também estavam vivas. Tudo era sinal da vida. Tudo. Mas foram os braços e o par de pernas da dona dos cabelos negros que o certificaram de sua existência, além dos cômodos mágicos que sempre o levaram a um infinidade de lugares diferentes... "Nunca mais quero sair daqui"

sexta-feira, 9 de março de 2012

quinta-feira, 8 de março de 2012

De novo o branco. As cores se foram e o que sobra é o branco. Do papel, do nada, da lista que nao traz seu nome, o branco. Sei que as cores te acompanham e fazem caminhos aquarelados por onde passa. Sou muito feliz por ter visto esses caminhos algumas vezes. Sei que será estrela em outro céu, que o azul não será o mesmo quando não compartilhado com você e que o seu sorriso descobrirá um estopim. Um amor imenso que te impulsiona e te deixa voar, livre... Livre como é, como quer, como transpira. Livre pra construir caminhos e passarelas pra todos os lados...
Eu não sei o que escrever. É uma falta que sobra, uma falta que acompanha a cada minuto, uma falta que preenche tudo, tornando cada coisa mais vazia. A falta, a falta que me faz.

quinta-feira, 1 de março de 2012

"Natacha e eu fomos ao jardim. O dia estava quente, ensolarado. Eles partiriam dentro de uma semana. Natacha lançou-me um olhar prolongado, estranho.
- Vânia - disse ela -, Vânia, isso foi um sonho!
- O que foi um sonho? - perguntei-lhe.
- Tudo, tudo - respondeu ela -, tudo durante este ano. Vânia, por que eu destruí sua felicidade?
E eu li em seus olhos:
'Nós poderíamos ter sido felizes juntos pra sempre!'"

Humilhados e Ofendidos - Dostoievski

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

"Meus olhos têm telescópios
espiando a rua,
espiando minha alma
longe de mim mil metros.
Mulheres vão e vêm nadando
em rios invisíveis.
Automóveis como peixes cegos
compõem minhas visões mecânicas.
Há vinte anos não digo a palavra
que sempre espero de mim
Ficarei indefinidamente contemplando
meu retrato eu morto."
João Cabral de Melo Neto

Dedicado a minha melhor amiga e companheira; amor da vida toda e ótima escritora Giovanna Zô Pinhata.
Esconder-me atrás de uma história que legitime minha existência. Sustentar os argumentos que me convencem de que estou certo, 'isso, vai la, continue vivendo de forma deliciosamente preguiçosa e inventiva...'
Procurar em letras de outros a minha palavra. Ignorar o medo que acomete todo mundo, mantendo-os nos trilhos rumo a um destino certo. 'não sei o que faço com a minha vida' deixei escapar da minha boca certo dia... 'ué, mas é aí que tá a graça' respondeu um bom amigo, um amigo.
Como o palhaço sem identidade que procura se encontrar eu segui, como que anestesiado por tudo. Procurando me encontrar não achei nada. Mas me vi ali, no chão, preparado pra qualquer coisa. Decidi fazer da minha vida uma vida minha. Quando não se acha o que procura, cria-se o que quiser.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

A dança dos copos

É o sorriso em qualquer rosto, a mão melada de doce. É a casca da manga, o sumo do nada; O abrir da janela, o primeiro traço no papel branco. O início de tudo, quando tudo não termina. É o soco na cara, a brisa no rosto, o café da noite interminável. É o sim, o não, palavras não ditas; é o ócio que supre as coisas da vida. É a linha do pipa, o nó na garganta; a saliva que escorre pouco antes da janta. É isso, aquilo, o que não foi salvo; o cadarço que solta, as mãos amarradas. É o livro aberto, que não foi escrito. O bloco que marcha rumo ao infinito. É um pouco de tudo que foi concebido, é a chuva, é chuva, o berro aflito. A cadeira com pernas, o chamar do apito. Minha vida com asas... eu acho que é isso. Você é pra mim, mais do que imagino; o ponto que conclui tudo que foi escrito.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Não consigo escrever, simples assim. Nunca consegui, na verdade, mas pelo menos os erros apareciam com evidência, gritavam a cada linha escorrida. Agora, nem isso. Quando mais quero falar, o silêncio.
Fingo que a felicidade me acompanha a cada passo. Sorriso amarelo o dia inteiro e uma pontada que me acerta a todo instante. Não há nada a ser dito. Queria poder ser o que sou, mas já não é possivel. Queria que tudo mudasse, menos uma coisa. Uma. Queria os mesmos braços, o mesmo cheiro e a risada conhecida. Não queria muito, só tudo que nunca me pertenceu. Todos esperam demais, desejam demais, eu também.
O sol ainda vem me visitar, mas sinceramente são raros os dias em que o atendo.
Uma guerra que me puxa, empurra e me faz em cacos, todos os dias. Sei que é impossível o que um dia foi óbvio. Sei que o copo continua sendo preenchido e o que havia nele escoa, descendo ralo abaixo rumo a algum lugar desconhecido. Me recuso a beber. "Estou satisfeito", foi o que ouviu o destino quando veio me oferecer mais um drink. Me desculpe, mas realmente estou satisfeito. Pelo que aconteceu e pela sua felicidade. Satisfeito pelo olhar de ansiedade, pela busca incansável de tudo que tem direito. Acho que sou feliz, mas tenho certeza que ja fui mais.
A vida te ergue enquanto tento não te perder de vista. Não considero minha dor especial não, mesmo. Porém é minha e tenho o direito de falar sobre isso.
Todos crescerão e se lembrarão de alguma coisa. Eu trocaria tudo que tenho pra poder ficar perto. Tudo que tenho pra não ter que me tornar uma lembrança. Porra como sou ridículo.
Eu só queria você, te olhar e acompanhar até em casa. Só isso.
Isso nem é um texto. Poderia ser um email, sei lá. Sou muito confuso
Ah, criança. Como é bom te olhar correndo entre as árvores, me pedindo pra te achar enquanto se esconde atrás de galhos minúsculos. Absorver cada som que emite, cada risada... como é bom. As árvores continuam aqui, aí, estão em todos os lugares. Eu olho entre as árvores, te procuro entre cada galho. Todo jardim tem o som da sua voz que nunca silenciará. Não te vejo mais colhendo flores, embora saiba que ainda o faz por aí. Não ouço mais música ao fechar os olhos, não te vejo mais... medo.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Um desespero imenso que se livra das entranhas e sobe, impiedoso. Rosto suado, cabelos no chão. Uma vontade de berrar, de novo, quantas vezes forem necessárias. Medo de perder o que nunca tive, a felicidade que escorrega entre dedos esfolados. Medo que a memória não me escolha daqui algum tempo.
O egoísmo me fez estúpido, injusto, burro... Toda a tristeza vinda de fora se desmancha no ar quando consigo enxergar os olhos. Olhos que veem outra coisa, nuca que sente outra brisa. O mundo é lindo, mas... nao estou com você.
o sentimento aperta e transforma-se em suor, lágrimas, berro... Me perdoa, só queria poder fingir que é minha, como sempre fiz. Quando minha realidade não é mais sonho, os balões ficam amarrados a tocos no chão. Não quero mais voar.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Não é sobre você. Sobre te satisfazer e ver sorrir o tempo todo. É claro que tem a ver com isso, enfim...
Não é o te ver crescer e conquistar tudo, sendo assim a pessoa mais feliz do mundo. Nunca se tratou de ver pássaros coloridos e apontá-los com dedos ansiosos, seus dedos. É um pouco mais simples que isso, sempre foi...
É sobre você. Sobre te satisfazer e ver sorrir o tempo todo; É te ver crescer e conquistar tudo e ser a pessoa mais feliz do mundo; é sobre apontar pássaros coloridos com dedos ansiosos, seus dedos; é sobre tudo isso... sobre tudo que me faz feliz. Não é sobre a sua felicidade apenas, é sobre a minha, que está em você. Sei que sou um pouco egoísta...

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Podíamos ser na superfície, o que somos no fundo. Viver de sonhos e agradecer todos os dias, apenas por conseguirmos alcançar os dedos. Podíamos mostrar o que nos é claro, sorrir de peito aberto e parar todos os relógios.
Justificar apenas o inexplicável e descancar em paz. Viver como reis dentro de uma caixa, ao passo em que o mundo se transforma do lado de fora.
Podíamos ser sinceros e viver como vivemos. Podíamos ser eu e você, exatamente como somos.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Depois de ler as linhas novamente, percebo que não entendo nada. O que escorreu foi um aviso, vários, na realidade. Um aviso do que viria, do que sentia e deixava de sentir... um alerta sobre o quão distante estava de mim e o quão insistente eu fui esse tempo todo. "A pedra" que descobriu no seu calcanhar, que finalmente expeliu, podendo caminhar sorridente agora, pelo caminho que decidir trilhar. A desculpa pede licensa a insistência que perturbou por tanto tempo. Se eu tivesse percebido antes não precisaria lidar com tudo isso...
Vozes que sabem demais, estudam demais, falam demais. Esconder-me na sombra de tudo que cospem e olhar de longe. Quero uma árvore pra descançar, uma brisa que me pegue de surpresa ou um sorriso conhecido que não me julgue. Tendo sempre que fazer alguma coisa, coisa que não quero, coisa que não fará a menor diferença daqui alguns minutos.
Apontado por cada dedo que me encontra no caminho, baixo a cabeça e me perco em pensamentos velhos, pouco menos que eu. "Fazia tanto sentido"... Mesmo que não mereca, procuro uma sombra que me guarde enquanto fecho meus olhos. Todos andando, ao passo em que ainda não encontrei razões para puxar meus cabelos.

E os olhos que sorriem me fazem continuar.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Uma luta travada desde sempre. O egoísmo que me faz continuar com os pés cravados no chão é o mesmo que me faz gritar enquanto olho as estrelas a caminho de casa. Estive em vantagem por alguns instantes, reconheço isso. Digamos que o senhor foi gentil comigo, admito.
De peito aberto e sol no rosto, olho ao redor, olho pra todos os lados. Sombras de caminhadas e corridas sem tempo. Sorrisos e braços dados, conversas sem razão nenhuma, extremamente racionais. Tijolos sobre onde os rostos se encontraram, mesas cheias de gente como nós, ou não. Feixes de luz e fotografias coloridas, dessa vez sem personagens. É, ele está em vantagem e debocha da minha angústia agora. Tudo bem.
Te deixo correr e passar a frente, enquanto descanço as pernas e ouço os pássaros cantando. Rindo agora, ao som de música nenhuma, enquanto os instrumentos são afinados, recolho-me aos lugares em que sempre estive e espero. Te faço um mimo agora, destino, pra que se sinta bem e volte a conversar comigo mais tarde, um pouco mais tarde.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Não sabemos o que nos espera, e por enquanto enrolo. Enrolo o tempo pra não me enrolar. Ando devagar e deixo a preguica retardar meus movimentos. Um grito silenciado, o sopro interrompido.
Como toda historia sem fim, as páginas acabam e os sussurros tornam-se inaudíveis. Desesperado pelo que vejo, tento disfarçar o descontrole que me levaria ao céu. Tudo calmo e feliz agora, enquanto vejo o sonho amanhecido e os olhos brilhantes da alegria mais infantil que já conheci.
Vá! Agora siga e faça o que veio fazer aqui. Depois de tempos no chão, suas asas estão abertas e prontas para alcançar o que quer que seja. Com os pés ainda firmes no chão vivo a realidade todos os dias, ao mesmo tempo que acompanho sonhos soletrados que sempre me lembrarão o meu próprio.
Um amor imenso que não diminui...