Nas avenidas movimentas e em carros cheios. Nos ônibus, trens e metrôs. Desde o tempo que ninguém mais se lembra quando, articula-se sem parar. Sobre tudo e nada, sobre aquilo que se ouviu, articula-se sem parar. Em velocidade frenética e sem intervalos. Seguidas de goles ligeiros, falou-se sobre quase tudo que se pode imaginar. Colocando músculos pra trabalhar em troca de nada, por um resultado medíocre, soltaram palavras que se perdiam ao vento e não eram absorvidas, pois existe uma regra básica entre os sentidos primários: a audição não funciona enquanto o corpo que deseja escutar não estiver com os lábios repousados em um silêncio respeitador. Portanto, durante um longo período esse foi o quadro: uma bagunça generalizada e um caos disfarçado de requinte e admiração mútua.
Foi em uma noite de sexta feira que iniciou-se o movimento. Sem que seus donos desconfiassem e com uma organização de meter inveja nos revolucionários mais engajados e estudados, as bocas se fecharam como que em advertência. Uma paralização mundial combinada debaixo dos narizes de todos, literalmente. É claro que os narizes sabiam do assunto e concordavam com a causa defendida pelas bocas. Assim, com uma assembléia geral que convocou todas as bocas do mundo, decidiu-se pela paralização. O fuso horário atrapalhou a organização da reunião, naturalmente, mas com encontros paralelos e locais, fez-se com que o assunto fosse discutido nos quatros cantos do mundo. “Não aguento mais as merdas que o Gustavo fala, dia e noite” desabafou uma boca de lábios finos, meio rosada; “A Renata acha que sabe de tudo, não pára de falar um minuto e há cinco anos não escuta uma palavra sequer de outra pessoa, foi o que me contou o ouvido semana passada” anúnciou uma boca negra de lábios grossos. E assim se sucederam as bocas em protesto e indignadas. A resultado da votação na assembléia foi unânime: greve. Lábios grudados por tempo indeterminado, até que os donos aprendam a falar a verdade e que pensem um pouco antes de proferir palavras. Não precisa de genialidade para passar a falar, não foi isso que as bocas decidiram, mas resolveram estabelecer um padrão mínimo de consciência pré determinada antes de se moverem e interagirem com outros indivíduos.
O movimento foi foi apoiado por quase todos os outros membros. A orelha, cúmplice do ouvido, também estava sendo prejudicada e temia ficar obsoleta, já que ninguém calava a boca e assim não conseguia ouvir. O estômago temia ser prejudicado, pois achou que as bocas se recusariam a abrir para a ingestão de alimentos. As reuniões estabeleceram e esclareceram os pontos reivindicados, construindo assim um movimento sólido e consistente. E assim se fez. Em uma noite de sexta feira, o silêncio foi determinado a força. Os lábios em conjunto com os músculos do rosto recusaram-se a abrir e a gritaria parou de súbito. Nos bares a música pode ser ouvida; nas igrejas foi possível ler a bíblia sem os devaneios do sacerdote posicionado acima da cabeça de todos; os pensamentos foram ouvidos como se fosse a primeira vez, e muitos se assutaram ao identificarem uma voz dentro da própria cabeça. O silêncio foi estabelecido no mundo inteiro, ao mesmo tempo. Algumas pessoas só descobriram que não poderiam falar horas depois, pois estavam dormindo. Os professores em uma escola na Bahia ficaram calados e os alunos não mais gritavam sem razão. Os pássaros passaram a ser ouvidos e se sentiram reis. Até o bater de asas das moscas passaram a ter seu lugar. O dia nasceu e a paralização continuou… A semana correu e as bocas mantiveram-se fechadas. A greve foi estendida por alguns anos, de forma firme e decidida. O silêncio reinou no mundo dos homens e até os deuses desceram a terra para agradecer e registrar seu apoio total a greve. Todos os deuses desceram. O silêncio era a única palavra de ordem, mesmo que não pudesse ser dita.
As bocas decidiram terminar a greve, achando que haviam ensinado a lição e alcançado o objetivo proposto. Os homens não sabiam o que falar e, por opcão, passaram a ficar quietos, temendo um novo surto sabe-se lá do que.

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