terça-feira, 31 de julho de 2012

Entre as ruas vazias e mal iluminadas, as árvores que destroem calçadas e as casas que adormecem aos poucos.  Acompanhado do medo que distribui entre todas as crianças do mundo, do meu mundo, anda devagar enquanto fuma seu cigarro e não se esforça nem mesmo pra soprar a fumaça de seus pulmões, deixando a cortina de fumaça cobrir seu rosto pouco antes de se perder no ar.

Os relatos são variados. Há quem diga que faz um barulho sutil enquanto se arrasta até pegar suas vítimas. Confesso que já o ouvi algumas vezes do lado de fora de casa. Algumas pessoas juram de pés juntos que é mudo, outros dizem que não abre a boca pra falar por opção. Eu sei que adora pegar desprevenido e que mora no fim da rua. Desde sempre usou a mesma sandália e arrastou o pé. O saco sem fundo guarda todas as crianças do meu tempo. Não mais a bola no portão do vizinho, não mais pastel na hora do almoço, nada de campainha e pernas correndo.

As crianças desapareceram. Por culpa do nosso homem ou não, elas desapareceram. Seduzidas por coisas que desconhece, não sofrem mais o risco de serem arremessadas para o saco sem fundo e escuro, é o que todos pensam. Perdidas em outros sacos e mudas como nosso homem, elas seguem outros caminhos agora. Caminhos inalcansáveis e distantes. As crianças desapareceram e o homem do saco, sem ter mais o que capturar, desapareceu também.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O silêncio dos culpados

Nas avenidas movimentas e em carros cheios. Nos ônibus, trens e metrôs. Desde o tempo que ninguém mais se lembra quando, articula-se sem parar. Sobre tudo e nada, sobre aquilo que se ouviu, articula-se sem parar. Em velocidade frenética e sem intervalos. Seguidas de goles ligeiros, falou-se sobre quase tudo que se pode imaginar. Colocando músculos pra trabalhar em troca de nada, por um resultado medíocre, soltaram palavras que se perdiam ao vento e não eram absorvidas, pois existe uma regra básica entre os sentidos primários: a audição não funciona enquanto o corpo que deseja escutar não estiver com os lábios repousados em um silêncio respeitador. Portanto, durante um longo período esse foi o quadro: uma bagunça generalizada e um caos disfarçado de requinte e admiração mútua.

Foi em uma noite de sexta feira que iniciou-se o movimento. Sem que seus donos desconfiassem e com uma organização de meter inveja nos revolucionários mais engajados e estudados, as bocas se fecharam como que em advertência. Uma paralização mundial combinada debaixo dos narizes de todos, literalmente. É claro que os narizes sabiam do assunto e concordavam com a causa defendida pelas bocas. Assim, com uma assembléia geral que convocou todas as bocas do mundo, decidiu-se pela paralização. O fuso horário atrapalhou a organização da reunião, naturalmente, mas com encontros paralelos e locais, fez-se com que o assunto fosse discutido nos quatros cantos do mundo. “Não aguento mais as merdas que o Gustavo fala, dia e noite” desabafou uma boca de lábios finos, meio rosada; “A Renata acha que sabe de tudo, não pára de falar um minuto e há cinco anos não escuta uma palavra sequer de outra pessoa, foi o que me contou o ouvido semana  passada” anúnciou uma boca negra de lábios grossos. E assim se sucederam as bocas em protesto e indignadas. A resultado da votação na assembléia foi unânime: greve. Lábios grudados por tempo indeterminado, até que os donos aprendam a falar a verdade e que pensem um pouco antes de proferir palavras. Não precisa de genialidade para passar a falar, não foi isso que as bocas decidiram, mas resolveram estabelecer um padrão mínimo de consciência pré determinada antes de se moverem e interagirem com outros indivíduos.

O movimento foi foi apoiado por quase todos os outros membros. A orelha, cúmplice do ouvido, também estava sendo prejudicada e temia ficar obsoleta, já que ninguém calava a boca e assim não conseguia ouvir. O estômago temia ser prejudicado, pois achou que as bocas se recusariam a abrir para a ingestão de alimentos. As reuniões estabeleceram e esclareceram os pontos reivindicados, construindo assim um movimento sólido e consistente. E assim se fez. Em uma noite de sexta feira, o silêncio foi determinado a força. Os lábios em conjunto com os músculos do rosto recusaram-se a abrir e a gritaria parou de súbito. Nos bares a música pode ser ouvida; nas igrejas foi possível ler a bíblia sem os devaneios do sacerdote posicionado acima da cabeça de todos; os pensamentos foram ouvidos como se fosse a primeira vez, e muitos se assutaram ao identificarem uma voz dentro da própria cabeça. O silêncio foi estabelecido no mundo inteiro, ao mesmo tempo. Algumas pessoas só descobriram que não poderiam falar horas depois, pois estavam dormindo. Os professores em uma escola na Bahia ficaram calados e os alunos não mais gritavam sem razão. Os pássaros passaram a ser ouvidos e se sentiram reis. Até o bater de asas das moscas passaram a ter seu lugar. O dia nasceu e a paralização continuou… A semana correu e as bocas mantiveram-se fechadas. A greve foi estendida por alguns anos, de forma firme e decidida. O silêncio reinou no mundo dos homens e até os deuses desceram a terra para agradecer e registrar seu apoio total a greve. Todos os deuses desceram. O silêncio era a única palavra de ordem, mesmo que não pudesse ser dita.

As bocas decidiram terminar a greve, achando que haviam ensinado a lição e alcançado o objetivo proposto. Os homens não sabiam o que falar e, por opcão, passaram a ficar quietos, temendo um novo surto sabe-se lá do que.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

O céu está cheio de teias.Teias e moscas presas. O céu está a deus dará, entre as nuvens ecoa o sopro do vento e os raios de sol produzem um espetáculo que ninguém vê. O céu está cheio de teias. As pessoas não o visitam mais, nem em sonhos, nem depois de mortas. Ninguém sabe o que existe no céu, a algum tempo ele está inabitado e nenhum antepassado pode deixar nenhuma informação, pois haviam esquecido. O céu está inabitado. Perdemos tempo demais aqui na terra com coisas que já nem lembramos mais. Os sonhos não ultrapassam os dois mil pés de altura e as nuvens só servem pra provocar chuvas. Chuvas ácidas que não lavam a nossa alma. Os anjos se retiraram aos aposentos e se entediam com jogos de cartas e vinhos baratos. Os anjos inquietos que ousavam rasgar a barriga do céu e descer em busca de aventura, já não o fazem. Pela primeira vez na história o céu está aberto a visitação e somente as aranhas o visitam para esbnajar suas habilidades arquitetônicas.

As ocupações na terra mantém as pessoas por aqui eternamente. As tarefas são tantas que não se pode abandonar o solo nem mesmo depois de morto. Vagam as almas entre prédios frios e postes de eletricidade. Vagam entre as certezas de que sempre fizeram as coisas certas, sem nenhum questionamento, sem nenhuma dúvida. As ruas estão cheias de lixo e orgulho, orgulho e lixo. Nós nas gargantas que silenciam a vontade de gritar, que emudecem o sussurro aos céus. Cabeças que perderam as asas e não mais voam acima dos prédios, que ficaram cabeçudas a ponto de acharem que não precisam de asas. Prenda-me ao solo e me mostre o caminho. Um guia prático e um livro de auto ajuda pra manter a sanidade que se hospedou por aqui. O céu esta coberto de teias de aranha. Ninguém está a salvo. Que os anjos aprendam a morrer e a mentir. Que eu aprenda a andar e a sorrir.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

“Apareceu na porta de entrada e meu corpo estremeceu de um jeito que nunca havia experimentado”, narra o autor de um texto lido por muitos. Logo penso que é paixão, que os dois ficarão juntos em determinada página. Eu quero que fiquem juntos. Com olhares insinuosos e troca de sorrisos discretos os protagonistas nos deleitam com a materialização do amor. Sigo cada passo e transpiro ao descobrir que meu companheiro está sofrendo durante uma noite de lua cheia. O escritor deita. Discorre sobre tudo e todos como se soubesse cada linha do que está falando. Se apropria da voz, da voz dele, dela. Se apropria da minha voz e me faz gritar o que tem vontade. Condenamos homens ruins e salvamos princesas que nunca nos foram apresentadas. Tomamos partido. Talvez seja isso, talvez devamos concluir assim. Talvez não. Por vezes desistimos no meio por não acreditar naquilo que lemos, por outras passamos a acreditar assim que batemos o olho. É um jogo de ilusões e mentiras deslavadas que nos pega pela mão e nos leva por onde quiser.

Enfim eles ficam juntos. Por força do autor, não por força de vontade. Um encontro inesperado na biblioteca e pronto, sela-se o destino. O destino que nos foi apresentado, o ponto final que o personagem não deu. O feliz para sempre determinado muito antes do fim. Por curiosidade continuamos a leitura e nos satisfazemos com as vidas que nos foram apresentas. Fragmentos de vidas, pedaços do que quiserem. Vidas que nos ajuda a levar a vida, até que a nossa vire a mentira que levará um sorriso ao rosto de um inocente.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O tempo. Tempo é tudo que temos sem termos nada. O tempo te tem, te abraça apertado mesmo que você odeie. É implacável como sempre foi dito, não respeita idade, vontade. Não liga pra ética e moral e destrói tudo que existe pela frente. No começo é a gênesis. As colunas, o cimento e o erguer das paredes. A criação de tudo que se torna eterno por tempo indeterminado, o esticar do sorriso e o canto dos mudos. O tempo. Tempo que mistura tudo em alguma coisa, que transforma e recria a cada piscar de olhos. Tempo que cria e mata. O tempo, o mesmo que te põe no chão e te torna cego, que te traz o esquecimento e encerra tudo de bom que já aconteceu. O que te fez sorrir e cantar, dizer e calar. Beijos, muitos beijos que não são promessas. O tempo que te fez perceber o quão idiota sempre foi, e o quão interessante você nunca será. Cura, fere, sangra e mata, tudo de uma vez. Te fez odiar os braços dados e dedos entrelaçados. Tempo que não tenho pra chorar, tempo que tenho pra escrever, sem saber. Tempo precioso pra uns, ocioso pra outros. Tempo pra mim, pra você. O abraço do tempo que pode esquentar e aconchegar, ou esfriar a alma que já esteve por aí, passeando em outros tempos.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Tenho alimentado um animal. No começo, quando apareceu com uma cara amassada, de quem dormiu por tempo demais, eu ignorei. Mas com o tempo passei a gostar dos pelos roçando em minha perna debaixo da mesa. Começamos a trocar confidências e ele se tornou meu maior amigo.  O problema é que não é conveniente que me acompanhe para todos os lados, embora seja a minha vontade. Me tranco em casa e me pego brincando por horas, dias. Jogo bolas e as recebo cheias de baba. Pego bolas e as devolvo cheio de raiva.