Na chuva, no frio, me encontro só. Os pingos que caem do céu não são abençoados, não. São como pedras de gelo e pesam uma tonelada. Batem no meu rosto sem pedir licença e arranham a pele fria, já cortada, sem pudor. Chove muito.
Estou sem ninguém ao redor e, daqui, parece que estou só no planeta inteiro. A luz de uma padaria já fechada me ilumina. Nenhum carro passa. Estou no ponto de ônibus, a propósito.
Uma pessoa se aproxima e fica a mais ou menos um metro de distância de mim. Mas ainda assim estou só. Sinto vontade de me aproximar. É um homem. Deve ter uns cinqüenta anos já. Pelo menos é o que parece visto daqui, sob essa luz fraca e amarela. Não tenho coragem de me aproximar, nunca tive. Sempre fui assim. Um ônibus aparece no fim da rua e se aproxima. Vem se arrastando como um animal quase morto, mas com sede. Se aproxima, não é o meu. É o do homem.
O braço molhado do senhor todo esticado é o sinal para o ônibus parar. Ele pára. Ele sobe.
Estou só, como sempre. Estou só. A bateria do aparelho que me proporciona alguma música está pra acabar. Acabando. Acabou.
- Que merda! Grito sozinho.
Estou só.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Senancour
"Eu sinto: eis a única palavra do homem que exige verdades. Eu sinto, eu existo para me consumir em desejos indomáveis, para me embeber na sedução de um mundo fantástico, para viver aterrado com o seu voluptuoso engano."
Obermann
Obermann
quinta-feira, 1 de abril de 2010
O rei de si
roupas caras, creme pro rosto... sente-se grande, um gigante na verdade. Nada o segura e o mundo está em suas mãos. Parece que tudo gira em torno do seu ego, e que tem controle sobre tudo. Carros, gente bonita, falante. Seu time de futebol é SEU, é importante. Vira o copo com cerveja de uma vez só e sorri no final, o bar está cheio. A música toca alto e parece que foi feita pra ele. Tem amigos, todos o amam. Sua família é boa, não passa necessidades.
A estrela é pequena acima de sua cabeça com cabelos cheirosos e esvoaçantes... tudo faz sentido, tudo.
Pouco sabe-se sobre o que vem a seguir, só que o último suspiro está próximo. Olha fixo o teto rachado enquanto uma lágrima escorre de seu rosto agora já pálido. Sente-se bem, apesar de tudo. Aos poucos a alegria deixa seu corpo e se esvai, sem ao menos avisar. Alguns a sua volta choram e soluçam, pronunciando frases incompreensiveis. No final das contas sabe que está sozinho. A vida começa e termina sozinha, sem sorrisos convidativos ou promessas de carreira. Os olhos se fecham aos poucos e logo se torna um corpo duro em uma cama macia, um estorvo para seus familiares.
Lá fora o cão late para o carteiro já ensopado pela chuva incessante. Os carros lambem o asfalto velho, mais velho que qualquer um. Tudo está normal, tudo continua normal. Outra pessoa sente-se o dono do mundo agora, muitas sentem. As roupas caras e cremes para o rosto continuam vendendo como nunca e a estrela ainda parece pequena acima da cabeça de alguém. Acho que é assim que se sente quando está vivo. Todos são os maiores e melhores pra si. E tudo faz sentido, até o último suspiro...
O time de futebol ainda faz as suas partidas. Nem um minuto de silêncio ou qualquer outra homenagem em seu nome. É insignificante.
Todos choram a sua volta, e a louça na pia ainda precisa ser lavada.
A estrela é pequena acima de sua cabeça com cabelos cheirosos e esvoaçantes... tudo faz sentido, tudo.
Pouco sabe-se sobre o que vem a seguir, só que o último suspiro está próximo. Olha fixo o teto rachado enquanto uma lágrima escorre de seu rosto agora já pálido. Sente-se bem, apesar de tudo. Aos poucos a alegria deixa seu corpo e se esvai, sem ao menos avisar. Alguns a sua volta choram e soluçam, pronunciando frases incompreensiveis. No final das contas sabe que está sozinho. A vida começa e termina sozinha, sem sorrisos convidativos ou promessas de carreira. Os olhos se fecham aos poucos e logo se torna um corpo duro em uma cama macia, um estorvo para seus familiares.
Lá fora o cão late para o carteiro já ensopado pela chuva incessante. Os carros lambem o asfalto velho, mais velho que qualquer um. Tudo está normal, tudo continua normal. Outra pessoa sente-se o dono do mundo agora, muitas sentem. As roupas caras e cremes para o rosto continuam vendendo como nunca e a estrela ainda parece pequena acima da cabeça de alguém. Acho que é assim que se sente quando está vivo. Todos são os maiores e melhores pra si. E tudo faz sentido, até o último suspiro...
O time de futebol ainda faz as suas partidas. Nem um minuto de silêncio ou qualquer outra homenagem em seu nome. É insignificante.
Todos choram a sua volta, e a louça na pia ainda precisa ser lavada.
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