quinta-feira, 1 de abril de 2010

O rei de si

roupas caras, creme pro rosto... sente-se grande, um gigante na verdade. Nada o segura e o mundo está em suas mãos. Parece que tudo gira em torno do seu ego, e que tem controle sobre tudo. Carros, gente bonita, falante. Seu time de futebol é SEU, é importante. Vira o copo com cerveja de uma vez só e sorri no final, o bar está cheio. A música toca alto e parece que foi feita pra ele. Tem amigos, todos o amam. Sua família é boa, não passa necessidades.
A estrela é pequena acima de sua cabeça com cabelos cheirosos e esvoaçantes... tudo faz sentido, tudo.
Pouco sabe-se sobre o que vem a seguir, só que o último suspiro está próximo. Olha fixo o teto rachado enquanto uma lágrima escorre de seu rosto agora já pálido. Sente-se bem, apesar de tudo. Aos poucos a alegria deixa seu corpo e se esvai, sem ao menos avisar. Alguns a sua volta choram e soluçam, pronunciando frases incompreensiveis. No final das contas sabe que está sozinho. A vida começa e termina sozinha, sem sorrisos convidativos ou promessas de carreira. Os olhos se fecham aos poucos e logo se torna um corpo duro em uma cama macia, um estorvo para seus familiares.
Lá fora o cão late para o carteiro já ensopado pela chuva incessante. Os carros lambem o asfalto velho, mais velho que qualquer um. Tudo está normal, tudo continua normal. Outra pessoa sente-se o dono do mundo agora, muitas sentem. As roupas caras e cremes para o rosto continuam vendendo como nunca e a estrela ainda parece pequena acima da cabeça de alguém. Acho que é assim que se sente quando está vivo. Todos são os maiores e melhores pra si. E tudo faz sentido, até o último suspiro...
O time de futebol ainda faz as suas partidas. Nem um minuto de silêncio ou qualquer outra homenagem em seu nome. É insignificante.
Todos choram a sua volta, e a louça na pia ainda precisa ser lavada.

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