quinta-feira, 31 de maio de 2012
Os ofícios nos são apresentados numa cartilha cheia de cores que indicam as diferenças e semelhanças entre cada um. "Pra você que nasceu assim; pra gente que pensa assado" Ofícios exóticos e comuns, atividades estranhas ou bem vistas pela sociedade. Entre as idas e vindas, os blocos de cimento depositados nas costas cansadas de fardo, não se encontra tempo pra pensar no que fazer pro resto da vida. Pro resto da vida. Parece muito tempo, meu deus.
Vida de vitrine, mãos que cheiram a isopor. O cérebro que estica e retrai recebe uma saraivada de balas que machucam e cicatrizam... Balas que gritam, balas que brilham, que sorriem e envelhevem, apodrecendo aos poucos, deixando nada mais que que alguns decibéis indecifráveis e um brilho que ofusca a visão... Entre o entretenimento que distrai e o tempo perdido no tempo, não se fala muito sobre o que quer. Falta o gosto e sobra a culpa. A culpa de não sei o quê, o dever que não nos sustenta ou apetece.
Da sensação incômoda surge a necessidade que lhe foi sugerida. Não sua, não minha. viciados em algo que não existe, seguimos emoções fabricadas e nos sentimos confortáveis. Um conforto que dura pouco e logo dá lugar a coçeira e a insatisfação. Um não saber o que fazer generalizado.
Os ofícios nos são apresentados. Entre uns e outros, escolhemos o que fazer para o resto da vida. A vida inteira. É muito tempo, me parece. Direcionar a nave logo no começo da viagem, mas como saber a curva que me aguarda logo a frente? Eu não sei. Prefiro esperar a esquina me pegar de surpresa e quem sabe, se for de minha vontade, parar pra comprar umas laranjas na quitanda que eu hei de encontrar pelo caminho.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
Começou aos poucos, como se nada fosse. Um câncer aqui, o sentido da visão devolvido como em um acender de luzes, a tuberculose que voa pra longe com asas improváveis. Acontecia assim, de uma hora pra outra, entre um bocejo e um prato de arroz. De onde vinha era tido como um qualquer. Na cidade dos milagres estranho é ver quem adoece ou padece de doença qualquer. Não precisava de muito e vivia de rede em rede, árvore em árvore, com o sol sob a cabeça e calo nos pés, sabia aproveitar o que o mundo lhe proporcionava de mais belo. Seu nome não é importante. Podia-se chamar José Qualquer ou Jorge de Alguma Coisa. O que conta pra nós são seus feitos milagrosos, pra nós, não pra ele que via com naturalidade a capacidade de cura que Deus lhe deu.
Foi em uma viagem inesperada pra São Paulo que viu sua vida mudar. Pés nos sapatos pela primeira vez, pés que traziam um bichinho gostoso demais de coçar. Achou engraçado quando ouviu o nome da cidade "São Paulo", repetiu consigo mesmo, sorrindo. Achou que seria mais um dentro dessa São Paulo. Mudou-se por ordem do juiz de todos os tribunais, que achou por certo transferir o menino pro mundo dos homens após ficar órfão. Viagem comprida essa até São Paulo. Chegou em uma noite de sexta-feira, foi largado por um ônibus de transporte público do governo da cidade dos milagres em um bairro sujo, cheio de gente e frio.
Os dias se seguiram sem muita novidade. Tratou logo de arranjar um barraquinho pra esticar os ossos e um bar pra esticar os pensamentos. Notou que havia muitos enfermos na sua atual cidade, gente com todo tipo de doença, algumas criadas pelas próprias pessoas e prorrogadas pela ganância de todos que o rodeavam. "Ganância", achou bonita a palavra quando a ouviu pela primeira vez. Passou a ajudar no que podia as pessoas que faziam parte de sua nova vida. Uma enchaqueca pela manhã, dores nas costas pela tarde e dores de amor ao anoitecer. A tarefa de realizar milagres o mantinha ocupado o dia todo e isso era importante agora que vivia em um lugar novo, desconhecido. Passou bem uma porção de dias, até mesmo o dia em que um procurador do governo do Estado de São Paulo levou uma intimação até a porta de seu barraco acusando-o de trabalho ilegal, sonegação de impostos e uma porção de coisas das quais não entendia nada. Contou com o auxilio de alguns colegas que havia ajudado e conseguiu uma licença pra exercer seu 'ofício' com a autorização do Estado. Não conseguia comer porque não tinha o tal do dinheiro que tanto lhe pediam quando precisava de alguma coisa; não achava árvores com frutos que lhe saciassem a sede e a fome, não entendia nada do que acontecia.
Foi enquanto coçava seu bicho de pé em uma rede improvisada que teve a idéia que mudaria sua vida pra sempre. Pensou em cobrar pelos serviços que prestava às pessoas, assim poderia comprar o que comer e vestir. Achou genial as idéias que lhe pegaram de surpresa e decidiu aplicá-las já no dia seguinte, pela manhã. Esticou uma placa feita de papelão e tinta vermelha em frente ao barraco que trazia as palavras "milagres por R$ 10,00".
Foi assim que o São qualquer coisa começou seu império na cidade de São Paulo, meio que por necessidade, meio que por tédio, meio que por raiva dos que lhe tiravam a paz. Foi assim que o São qualquer coisa se tornou o homem mais rico do mundo, dono de uma casa que passaram a chamar igreja e general de um exército que se auto denominava fiel. Só não sabia fiel a quê.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Colocar aqui um texto que presta, só pra variar:
"Estou lendo um romance de Louise Erdrich. A certa altura, um bisavô
encontra seu bisneto. O bisavô está completamente lelé (seus pensamentos têm a
cor da água) e sorri com o mesmo beatífico sorriso de seu bisneto recém-nascido. O
bisavô é feliz porque perdeu a memória que tinha. O bisneto é feliz porque não tem,
ainda, nenhuma memória.
Eis aqui, penso, a felicidade perfeita. Não a quero."
A desmemória/1 - Eduardo Galeano em "O Livro dos Abraços"
A origem dos nomes
Quando Renato Augusto saiu de casa na manhã de quinta-feira, não poderia imaginar que aquela seria a última vez que veria o taco gasto da porta de entrada da sala. Mochila nas costas, um gole longo no suco de limão, de saquinho e um pé na frente do outro, rápido, enquanto seca a boca na manga da blusa de moletom. O vento frio do lado de fora era um prelúdio do que aconteceria naquela tarde. Como se não bastasse o atraso de quarenta minutos pra aula, os ventos que sopravam o ouvido de Rentao Augusto anunciavam o causo e a tragédia anunciada.
Passou pelos vizinhos sem cumprimentar, como sempre fazia. Vinte anos de convívio não foram suficientes para produzir nenhum afeto pelas pessoas que rodeavam sua casa, que acordavam e dormiam sobre o mesmo sol, que elegiam o mesmo prefeito. A indiferença de sempre manteve os olhos de Renato fixos a frente, sem mirar ponto algum no horizonte. Não fosse tão distraído, perceberia os anjos que habitavam a árvore no fim da rua procurando o que comer nos lixos da vizinhança. As asas que não eram nada discretas denunciavam a origem divina daqueles corpos. Continuou veloz e cruzou a esquina, ignorando o nome na placa "Gustavo de Souza".
Fazia o mesmo caminho todos os dias, duas vezes. Nunca notou a casa de tijolos verdes que se esticava por todo o quarteirão.
Escola, almoço, escola. Podia ser considerado um aluno esforçado, o Renato Augusto. Não fosse o acontecimento daquela tarde, alcançaria um posto importante dentro do ramo tecnológico. Eu sei, tenho toda a trajetória aqui na minha mão. Se a minha falta de jeito com a caneca de café não tivesse atrapalhado, saberia descrever até o que aconteceu durante a tarde. Maldita distração...
Ao descer as escadas encardidas da escola, sentiu um arrepio na espinha, daqueles que só acontecem uma vez na vida e bem perto do fim dela. Como é uma sensação completamente nova, seria impossível adivinhar o que estava por vir. Fez o caminho conhecido de volta pra casa e virou uma esquina a esquerda. Foi a última vez que faria qualquer curva. Não se viu de onde saiu ou onde entrou, nada se sabe sobre o que ocorreu. Um descuido no roteiro da vida, uma mancha de café que apagou Renato Augusto da história. Os anjos não pararam de revirar o lixo, o sol não parou de brilhar e nenhum copo foi quebrado no restaurante do centro da cidade. Um desaparecimento silencioso e repentino. Dias de desespero se seguiram entre amigos e familiares, uma busca bem empreendida pela polícia local não trouxe nenhum resultado. Um descuido do escritor de destinos que trouxe o fim abrupto de uma vida inocente.
Passado um tempo, tempo suficiente pra que os cartazes de desaparecido se desfizessem junto a chuva, tempo pra que a memória lembrasse do esquecimento, fez-se a justiça celestial. Porque o mundo não deve pagar pelos erros de um senhor qualquer que brinca a vida dos outros com um lápis afiado. Quando os desaparecidos já não têm lugar em nossa memória, o espaço lhes é garantido e no momento em que termino de contar essa triste história, Renato Augusto ganha uma placa. Seu nome de batizado dará nome a rua de uma cidade no interior. Nome que ninguém reconhecerá, placa que não será lida; objeto que traz justiça a um pobre coitado e paz de espírito ao escritor descuidado.
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Peço paciência como quem pede um pouco mais de açucar no chá. Como quem não entende nada de física e decide erguer um prédio com as próprias mãos. Mãos que não sabem nada de pedra, cimento, massa corrida. Com um objeto redondo na mão, abro a boca e discorro sobre o encaixe perfeito em uma superfície triangular, não sei nada do que falo.
Não fui jogado entre paredes estranhas, carros barulhentos e palavras que soam diferente, engraçadas. Não faço idéia do que é ser puxado para centenas de quilômetros de qualquer coisa conhecida. Como é pousar em terra desconhecida e ser julgado por cada passo que dou na escuridão.
Ânsia pelo novo, vômito que materializa a insatisfação. Uma vontade de se encontrar dentro de qualquer coisa, qualquer pessoa. Não sei o que é isso e talvez nunca saiba. É fácil pedir pra sorrir com as luzes do sol quando se conhece cada milímetro iluminado de um quarto. É fácil correr pra casa quando alguma coisa da errado, é fácil. Quando cada rua te leva pra caminhos conhecidos, cada esquina te conforta. Quando os fios do pensamento não convergem e a estupidez senta ao seu lado, te peço paciência. Como quem ignora as coisas todas, como quem sempre teve as pernas cobertas e aquecidas no frio, eu peço paciência.
Os mares que te levam rumo a um porto qualquer seguem agitados agora. Nunca naveguei em navio algum, não sei qual a cor da água quando se está a trezentos quilômetros da costa, a deriva. Não sei. Sei que no fim da viagem encontrará um bosque colorido, um acampamento seguro e tons de verde que lhe agradam. Sei que as notas que saírem do violão te farão cantarolar com o sorriso no rosto, aquele, o que eu mais gosto. Sei que voltará acompanhada pra casa e sentirá o conforto que foi deixado pra trás. Por isso e por mais uma infinidade de coisas que eu desconheco, te peço paciência.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Balas e Pingos
Pegou o telefone e ficou segurando junto com o pedaço de papel toscamente rasgado. Papel que trazia o número da salvação, da sua salvação. Pesquisara em todos os lugares possíveis, todas as ruas e vielas do centro da cidade suja e antiga, quase tão antiga quanto as mãos que seguravam o telefone. Trazia a preocupação consigo a muito tempo, mas só agora decidira fazer qualquer coisa a respeito. Antes de seguir o plano a cabo, certificou-se de que estava lidando com o melhor, com alguém infalível. "Nunca deixou de concluir um trabalho sequer" garantiu seu amigo da padaria, quase tão velho quanto ele próprio.
Seguiu por alguns minutos com o papel e o telefone na mão, tremia um pouco, em partes pela idade elevada e por outras pelo nervosismo que o acompanhava. Vinha adiando aquele momento e não podia mais deixar as coisas como estavam. A ameaça o perseguia todos os dias, dia e noite, e a perturbação passou a atrapalhá-lo nos afazeres cotidianos. Endireitou o dedo enrugado e, com firmeza, começou a discar o número que trazia em mãos. Falava em voz alta ao mesmo tempo em que discava, para ter certeza de que não cometeria nenhum erro. O telefone sabe-se lá de onde tocou uma, duas, três vezes. "Alô" disse, simplesmente, a voz grave e com sotaque do outro lado. "Desejo contratá-lo" informou o primeiro homem. "ok".
Passou todos os detalhes dos quais tinha conhecimento ao contratado e pediu rapidez na execução da tarefa. "Vêm me perseguindo já a algum tempo, não aguento mais. Tenho certeza que sabe onde moro e até os horários em que vou ao banheiro. Já peguei me vigiando durante o sono!" falou, baixando para uma espécie de sussurro alto no fim da frase. "Comprei uma arma, mas acho que não tenho coragem de usá-la. Tenho certeza que um profissional fará um trabalho melhor" concluiu. "Não se preocupe senhor, dentro de 48 horas ninguém o incomodará. Matei um dragão mês passado com nada mais do que minhas mãos".
O Atirador veio seguido de ótimas recomendações. Anotou todas as informações em sua caderneta e partiu pro trabalho na manhã seguinte. Seguiu os passos do senhor que o havia contratado para que pudesse criar um sistema e mapeou cada pessoa com a qual o velho lidava todos os dias. Ficou intrigado com algumas companhias que o rodeavam, mas não havia nenhum indício concreto de um possível assassino. As 48 horas se passaram e a frustração do velho passou também a incomodar o mercenário. Não aceitaria mais nenhum cliente enquanto seu trabalho não fosse concluído. Passou noites em claro, analisando fotografias e anotações que se tornaram antigas com o decorrer dos longos meses. Fez campana em frente a casa do velho que passou a ignorar a existência do atirador fajuto.
Março é um mês chuvoso e todos sabem disso. Incapacitado de fazer qualquer atividade a céu aberto que fosse, o velho cliente ficou nove dias completos em casa, lidando com uma pneumonia que o agarrou com força e não o deixava de jeito nenhum. O trabalho do mercenário passou a se restringir aquele pequeno quarteirão, uma vez que seu cliente não poderia ser morto em qualquer outro local que não sua própria casa. Na noite do último dia de chuva, de dentro do carro, viu um homem subindo por uma escada improvisada na lateral da casa. Subia de forma desajeitada, mas com firmeza. Subiu e entrou pela janela sem nem se preocupar com a escada que deixara do lado de fora. O atirador saiu do carro com rapidez e entrou pela porta da frente com a cópia da chave que havia feito para si. Subiu as escadas em um pulo só e encontrou seu cliente deitado, aparentemente delirante, encolhido entre cobertas. "Acabou, amigo" disse para o homem que assistia o senhor, com um martelo na mão. "E quem é você?" perguntou o homem com um sorriso assustado. "Eu sou o seu fim" e deu um tiro bem no meio da testa de seu interlocutor.
Satisfeito com o próprio desempenho, escreveu uma carta para o senhor cliente que já não tremia mais, apenas dormia, e saiu pela janela, porque parecia mais legal. Sem saber o que acabara de fazer, voltou pra casa e dormiu merecidamente, por dias seguidos... Quando retomou os trabalhos passou a ter muitas dificuldades, não conseguia concluir nenhum serviço e entrou em depressão profunda. Naquele dia chuvoso havia matado sua única companheira de trabalho. Com uma bala no meio da testa, seria difícil encontrar a morte em qualquer lugar que fosse. Aposentou-se mais cedo do que pensou, com a maior fila de clientes que já existiu.
terça-feira, 8 de maio de 2012
Entrou exausto na cozinha e sentou na primeira cadeira. Tinha dores fortes na barriga e uma ânsia de vômito insuportável. Chorava e soluçava, desesperado, as lágrimas escorrendo pelo seu rosto jovem. Nunca havia sentido nada parecido, trazia as mãos junto ao peito e evitava tocar cada coisa. Ao ouvir o choro desesperado, o pai do garoto desceu as escadas de madeira com a velocidade de um lince e perguntou, desesperado "O que foi, meu filho?". O garoto cruzou a cozinha de forma firme e violenta, esbarrou no pai, chorando, e subiu as escadas mais rápido do que conseguiria qualquer ser humano. Bateu a porta e permaneceu lá por três meses.
Seus pais e avós batiam na porta desesperadamente, mas o garoto só repetia que não ia abrir, "não quero comer" e que o deixassem em paz. Os dias seguiam cinzas dentro da casa. Todos estavam silenciosos, alternavam vigílias, na tentativa de pegar o garoto quando saísse para ir ao banheiro ou qualquer coisa assim. Ele não saiu. Os pais chamaram psicólogos, policiais e bombeiros para que tentassem convencer o garoto a abrir a porta. Nada. Repassavam a vida do menino, escreviam cada detalhe em um caderno cheio de anotações agora... "só foi ao shopping, na livraria, como sempre" dizia o pai, icrédulo, ao tentar descobrir o que acontecera ao filho no dia em que chegou com aquelas dores e a agonia em sua face.
Os meses se passaram até que os pais e avós do garoto se acostumaram aquela situação. Não tentavam nenhuma abordagem, desistiram de tentar qualquer diálogo ou muito menos entender aquela situação doentia. Simplesmente seguiram suas vidas. Foi na madrugada de um sábado, enquanto o avô estava sentado no corredor, lendo, que o ruído das dobradiças enferrujadas pelo tempo tomou conta do corredor e a porta se abriu... Do quarto saiu uma luz que irradiava como a do sol, mas nao queimava. O corredor todo ficou iluminado pela luz que vinha do quarto do garoto que apareceu, já sem chorar.
O avô levantou com dificuldade e foi ver de onde vinha aquela iluminação sublime e violenta. Deparou-se com todos os objetos do quarto do neto brilhando, com luz própria, coloridos de forma tão viva que era difícil olhar por muito tempo. "não acontece quando encosto no papel, ou madeira, mas brilha desse jeito quando toco qualquer outro material", disse o garoto. Ele olhava pra frente, sem enxergar o avó, cego pela luz, obviamente. "Quando aconteceu?" perguntou o senhor, sem se espantar. "No shopping". "huuum, isso é amor" disse o avô sem alterar sua expressão. " mas olhe pra mim, eu estou cego!"... "eu diria que passou a enxergar meu jovem" e deu um tapa no ombro do neto, virando-se para alcançar sua poltrona no fim do corredor a fim de terminar sua leitura. "como é o nome dela?" perguntou o velho, antes de deixar o quarto. "Giovanna"
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Patas no chão
Os cães levaram seus donos para passear. Coleira para mantê-los sempre próximos, um andar pomposo e um desfile exuberante, uma pata depois da outra, sem tropeços. Os cães levaram seus donos para passear. Sol no cocoruco, óculos escuros e língua pra fora, a língua dos donos.
Desfilaram por ruas e avenidas chamando atenção dos homens que não se encantam com fadas sobre suas cabeças, berrando e chamando homens que nunca olham pra cima porque morrem de medo que as estrelas caiam sobre suas cabeças. Pessoas que não se deixam fascinar, a não ser por pêlos e quatro patas. Andaram juntos, cães e donos.
A última rua era sem saída e marcava o fim do passeio. Os cães moravam em um sobrado alto, imponente, iluminado, o marco arquitetônico do bairro. Todos sabiam que os donos da maior fábrica de tecidos moravam no fim daquela rua. Rua que via agora o desfile dos cães mais cheirosos do universo, cães que frequentavam spas e tinham um círculo social invejável.
A gritaria começou logo na primeira dezena de passos. Seguidos de seus donos, ou vice-versa, os cães desfilavam como lhes fora ensinado. As casas que margeavam a rua de asfalto negro vivo também eram infestadas de cachorros, talvez não tão bem posicionados socialmente, mas cachorros sinceros, sujos e sem medo da baba que respingava no chão ao rosnarem. Por não serem dotados dos mecanismos de auto controle dos quais dispunham seus donos, mecanismos tais como consciência, razão ou qualquer outra baboseira humana, os cães nas casas escuras e selvagens gritavam, xingavam e diziam tudo que lhes passava pela cabeça. Era triste pra esses cães ver patas tão limpas desfilando a rua, a sua rua, enquanto seus donos trabalhavam incansavelmente, até chegarem esgotados em casa e dormirem algumas poucas horas. “As oportunidades são dadas para todos” diria algum humano positivista e liberalista qualquer, mas não os cães. Os cães não tinham razão, só se alimentavam da fúria que recebiam do mundo e da insatisfação de seus donos cansados. Berravam todos os palavrões “filho da puta”, “cretino sangue suga de merda”, “tomara que morra enforcado nos rolos de linho de seus donos”... Berravam em nome de seus donos que nada faziam até aquele momento, donos que tinham que se alimentar, que alimentar seus cães. Xingavam e gemiam durante todo o desfile dos pomposos do fim da rua. Todos, de todas as casas. O bairro era tomado por latidos que incomodavam os humanos, “cachorros chatos da porra”, pensavam os homens dotados de razão, razão que os mantinha calados, quietos e insatisfeitos, talvez pra sempre. Razão e consciência que os diferenciava dos cães, sinceros e selvagens como todos os outros animais, menos os homens.
sexta-feira, 4 de maio de 2012
Há ouro! Caindo aos montes pelas ruas e avenidas de correntes sanguíneas. Banhando e entupindo veias que saltam aos berros. Há ouro! Ouro descoberto como que por acaso, desvalorizado a partir da pele, desprezado por leigos e céticos. Há ouro, lhes digo! Do puro, verdadeiro. Acreditem em mim, sou mineiro.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Coisas de morte e de vida
Havia anos não saia de casa, sempre debaixo do mesmo teto, olhando pro mesmo sol elétrico. Depois de uma vida de carros de corrida e cabanas de lençol, teve seu primeiro passeio ao ar livre. Foram até uma praça verde, que ficava a uns cem metros do sol elétrico. Andou de maõs dadas com o vento, enquanto aproveitava o frescor e a brisa que as sombras proporcionavam.
O homem de calça marrom desbotado estava ali muito antes da praça ser construída. Viu os tratores tirarem terra, a grama sendo plantada e o trepa trepa colorido ganhar posição. De tempos em tempos mudava a posição das pernas, esquerda sobre direita, direita sobre esquerda. Muitos passavam por ele sem notar sua presença, alguns achavam que era propriedade pública, posto ali por alguns homens uniformizados logo após o escorregador...
Aproximou-se do senhor de calça marrom que lia um livro grande, provavelmente pesado e velho, visivelmente velho. O que traz aí, perguntou o menino. Carrego a alma, respondeu o homem. Depois de analisar o livro de capa dura, entortou um pouco a cabeca e tornou a perguntar, a sua? Não, a da pessoa que escreveu o bendito. Por não saber muito de alma continuou ali, ouvindo o que o velho tinha a dizer, encantado. Se soubesse qualquer coisa sobre o assunto tambem ficaria ali, pois a voz soava doce e firme, carregando convicção em cada palavra. Ouviu sobre como o escritor transferia sua alma pro pedaço de papel e como era solitário viver depois disso. Aprendeu que o livro é a alma de quem o escreve, separando-a assim do corpo do escritor pra sempre. Disse ao velho que alguns escritores deveriam ter mais de uma alma, pois escreviam dois, até três livros! Ouviu a risada alta do senhor barbado e olhou para os lados assustado. Ninguém parecia notar a presença de nenhum dos dois. O que faz quando perde alguma coisa, meu jovem, perguntou ao menino. Eu procuro. Pois é isso que fazem os escritores, perdem a alma no primeiro livro e a buscam em todos os outros...
Após ouvir cada palavra atentamente e perceber que o sol, desinteressado, partira a procura de conversa melhor, voltou pra casa despedindo-se as pressas do senhor que continuava a ler, mesmo sem enxergar um palmo a sua frente. Dormiu de olhos abertos aquela noite, imaginando almas desprendendo-se de corpos cansados de tanto escrever.
Não encontrou o homem no dia seguinte, nem no outro, ou no outro...
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Após trinta anos de almas e corpos de carne e osso, o menino, que já não era considerado assim por seus concidadãos, era dono de um cômodo cheio de almas. Estudou os livros entre os trabalhos na feira e os dias como entregador de pizza e sentia-se o homem mais rico do mundo, ao segurar outra pessoa nas mãos, possuir e manusear o que antes tinha pernas e cabelos, uma cabeça e dedos, dedos! Sempre imaginava as carcaças vagando pelo mundo, tristes e sombrias, olhar vago no chão sem saber por onde andava sua alma. Nunca ousou escrever uma palavra sequer, desde o encontro com o velho no parque. Tinha medo de perder seu único bem, a única coisa interiamente sua, sem imposto sem especulação.
O tempo passou por ele como uma borboleta perdida, tirou de seus ossos a força, de seus cabelos a cor e de seu coração o amor de uma vida. Não tinha mais vontade ou motivos para seguir os dias com pés firmes ou as noites regadas a café e canções perdidas. Decidiu determinar seu próprio fim, do jeito que queria. Trancou-se no quarto lotado, com um caderno em branco e um pedaço de lápis. Sentou-se no chão pois nunca pensou em colocar uma mesa naquele quarto. Escreveu a primeira palavra em anos, e observou sua letra tremida,continuou a escrever e passou a sentir um aperto que tomava conta de todo seu corpo, coçando sua pele dos pés a cabeça... Passou três anos seguidos no quarto, escreveu cada detalhe de sua vida, tudo que sua memória lhe permitia lembrar. Encaixou sua alma entre a de Byron e Álvares de Azevedo e deixou o quarto. Pegou uma caneca e enxeu de café esfriado pelo tempo. Deu um gole e não sentiu nada, sorriu e continuou bebendo. Toda a dor, a saudade de uma vida entre páginas manchadas. Pegou o chapéu e andou pelo dia ensolarado, leve, sem culpa. Morto.
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