terça-feira, 8 de maio de 2012

Entrou exausto na cozinha e sentou na primeira cadeira. Tinha dores fortes na barriga e uma ânsia de vômito insuportável. Chorava e soluçava, desesperado, as lágrimas escorrendo pelo seu rosto jovem. Nunca havia sentido nada parecido, trazia as mãos junto ao peito e evitava tocar cada coisa. Ao ouvir o choro desesperado, o pai do garoto desceu as escadas de madeira com a velocidade de um lince e perguntou, desesperado "O que foi, meu filho?". O garoto cruzou a cozinha de forma firme e violenta, esbarrou no pai, chorando, e subiu as escadas mais rápido do que conseguiria qualquer ser humano. Bateu a porta e permaneceu lá por três meses. Seus pais e avós batiam na porta desesperadamente, mas o garoto só repetia que não ia abrir, "não quero comer" e que o deixassem em paz. Os dias seguiam cinzas dentro da casa. Todos estavam silenciosos, alternavam vigílias, na tentativa de pegar o garoto quando saísse para ir ao banheiro ou qualquer coisa assim. Ele não saiu. Os pais chamaram psicólogos, policiais e bombeiros para que tentassem convencer o garoto a abrir a porta. Nada. Repassavam a vida do menino, escreviam cada detalhe em um caderno cheio de anotações agora... "só foi ao shopping, na livraria, como sempre" dizia o pai, icrédulo, ao tentar descobrir o que acontecera ao filho no dia em que chegou com aquelas dores e a agonia em sua face. Os meses se passaram até que os pais e avós do garoto se acostumaram aquela situação. Não tentavam nenhuma abordagem, desistiram de tentar qualquer diálogo ou muito menos entender aquela situação doentia. Simplesmente seguiram suas vidas. Foi na madrugada de um sábado, enquanto o avô estava sentado no corredor, lendo, que o ruído das dobradiças enferrujadas pelo tempo tomou conta do corredor e a porta se abriu... Do quarto saiu uma luz que irradiava como a do sol, mas nao queimava. O corredor todo ficou iluminado pela luz que vinha do quarto do garoto que apareceu, já sem chorar. O avô levantou com dificuldade e foi ver de onde vinha aquela iluminação sublime e violenta. Deparou-se com todos os objetos do quarto do neto brilhando, com luz própria, coloridos de forma tão viva que era difícil olhar por muito tempo. "não acontece quando encosto no papel, ou madeira, mas brilha desse jeito quando toco qualquer outro material", disse o garoto. Ele olhava pra frente, sem enxergar o avó, cego pela luz, obviamente. "Quando aconteceu?" perguntou o senhor, sem se espantar. "No shopping". "huuum, isso é amor" disse o avô sem alterar sua expressão. " mas olhe pra mim, eu estou cego!"... "eu diria que passou a enxergar meu jovem" e deu um tapa no ombro do neto, virando-se para alcançar sua poltrona no fim do corredor a fim de terminar sua leitura. "como é o nome dela?" perguntou o velho, antes de deixar o quarto. "Giovanna"