segunda-feira, 7 de maio de 2012
Patas no chão
Os cães levaram seus donos para passear. Coleira para mantê-los sempre próximos, um andar pomposo e um desfile exuberante, uma pata depois da outra, sem tropeços. Os cães levaram seus donos para passear. Sol no cocoruco, óculos escuros e língua pra fora, a língua dos donos.
Desfilaram por ruas e avenidas chamando atenção dos homens que não se encantam com fadas sobre suas cabeças, berrando e chamando homens que nunca olham pra cima porque morrem de medo que as estrelas caiam sobre suas cabeças. Pessoas que não se deixam fascinar, a não ser por pêlos e quatro patas. Andaram juntos, cães e donos.
A última rua era sem saída e marcava o fim do passeio. Os cães moravam em um sobrado alto, imponente, iluminado, o marco arquitetônico do bairro. Todos sabiam que os donos da maior fábrica de tecidos moravam no fim daquela rua. Rua que via agora o desfile dos cães mais cheirosos do universo, cães que frequentavam spas e tinham um círculo social invejável.
A gritaria começou logo na primeira dezena de passos. Seguidos de seus donos, ou vice-versa, os cães desfilavam como lhes fora ensinado. As casas que margeavam a rua de asfalto negro vivo também eram infestadas de cachorros, talvez não tão bem posicionados socialmente, mas cachorros sinceros, sujos e sem medo da baba que respingava no chão ao rosnarem. Por não serem dotados dos mecanismos de auto controle dos quais dispunham seus donos, mecanismos tais como consciência, razão ou qualquer outra baboseira humana, os cães nas casas escuras e selvagens gritavam, xingavam e diziam tudo que lhes passava pela cabeça. Era triste pra esses cães ver patas tão limpas desfilando a rua, a sua rua, enquanto seus donos trabalhavam incansavelmente, até chegarem esgotados em casa e dormirem algumas poucas horas. “As oportunidades são dadas para todos” diria algum humano positivista e liberalista qualquer, mas não os cães. Os cães não tinham razão, só se alimentavam da fúria que recebiam do mundo e da insatisfação de seus donos cansados. Berravam todos os palavrões “filho da puta”, “cretino sangue suga de merda”, “tomara que morra enforcado nos rolos de linho de seus donos”... Berravam em nome de seus donos que nada faziam até aquele momento, donos que tinham que se alimentar, que alimentar seus cães. Xingavam e gemiam durante todo o desfile dos pomposos do fim da rua. Todos, de todas as casas. O bairro era tomado por latidos que incomodavam os humanos, “cachorros chatos da porra”, pensavam os homens dotados de razão, razão que os mantinha calados, quietos e insatisfeitos, talvez pra sempre. Razão e consciência que os diferenciava dos cães, sinceros e selvagens como todos os outros animais, menos os homens.
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Um comentário:
muito bom.
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