quinta-feira, 10 de maio de 2012
Balas e Pingos
Pegou o telefone e ficou segurando junto com o pedaço de papel toscamente rasgado. Papel que trazia o número da salvação, da sua salvação. Pesquisara em todos os lugares possíveis, todas as ruas e vielas do centro da cidade suja e antiga, quase tão antiga quanto as mãos que seguravam o telefone. Trazia a preocupação consigo a muito tempo, mas só agora decidira fazer qualquer coisa a respeito. Antes de seguir o plano a cabo, certificou-se de que estava lidando com o melhor, com alguém infalível. "Nunca deixou de concluir um trabalho sequer" garantiu seu amigo da padaria, quase tão velho quanto ele próprio.
Seguiu por alguns minutos com o papel e o telefone na mão, tremia um pouco, em partes pela idade elevada e por outras pelo nervosismo que o acompanhava. Vinha adiando aquele momento e não podia mais deixar as coisas como estavam. A ameaça o perseguia todos os dias, dia e noite, e a perturbação passou a atrapalhá-lo nos afazeres cotidianos. Endireitou o dedo enrugado e, com firmeza, começou a discar o número que trazia em mãos. Falava em voz alta ao mesmo tempo em que discava, para ter certeza de que não cometeria nenhum erro. O telefone sabe-se lá de onde tocou uma, duas, três vezes. "Alô" disse, simplesmente, a voz grave e com sotaque do outro lado. "Desejo contratá-lo" informou o primeiro homem. "ok".
Passou todos os detalhes dos quais tinha conhecimento ao contratado e pediu rapidez na execução da tarefa. "Vêm me perseguindo já a algum tempo, não aguento mais. Tenho certeza que sabe onde moro e até os horários em que vou ao banheiro. Já peguei me vigiando durante o sono!" falou, baixando para uma espécie de sussurro alto no fim da frase. "Comprei uma arma, mas acho que não tenho coragem de usá-la. Tenho certeza que um profissional fará um trabalho melhor" concluiu. "Não se preocupe senhor, dentro de 48 horas ninguém o incomodará. Matei um dragão mês passado com nada mais do que minhas mãos".
O Atirador veio seguido de ótimas recomendações. Anotou todas as informações em sua caderneta e partiu pro trabalho na manhã seguinte. Seguiu os passos do senhor que o havia contratado para que pudesse criar um sistema e mapeou cada pessoa com a qual o velho lidava todos os dias. Ficou intrigado com algumas companhias que o rodeavam, mas não havia nenhum indício concreto de um possível assassino. As 48 horas se passaram e a frustração do velho passou também a incomodar o mercenário. Não aceitaria mais nenhum cliente enquanto seu trabalho não fosse concluído. Passou noites em claro, analisando fotografias e anotações que se tornaram antigas com o decorrer dos longos meses. Fez campana em frente a casa do velho que passou a ignorar a existência do atirador fajuto.
Março é um mês chuvoso e todos sabem disso. Incapacitado de fazer qualquer atividade a céu aberto que fosse, o velho cliente ficou nove dias completos em casa, lidando com uma pneumonia que o agarrou com força e não o deixava de jeito nenhum. O trabalho do mercenário passou a se restringir aquele pequeno quarteirão, uma vez que seu cliente não poderia ser morto em qualquer outro local que não sua própria casa. Na noite do último dia de chuva, de dentro do carro, viu um homem subindo por uma escada improvisada na lateral da casa. Subia de forma desajeitada, mas com firmeza. Subiu e entrou pela janela sem nem se preocupar com a escada que deixara do lado de fora. O atirador saiu do carro com rapidez e entrou pela porta da frente com a cópia da chave que havia feito para si. Subiu as escadas em um pulo só e encontrou seu cliente deitado, aparentemente delirante, encolhido entre cobertas. "Acabou, amigo" disse para o homem que assistia o senhor, com um martelo na mão. "E quem é você?" perguntou o homem com um sorriso assustado. "Eu sou o seu fim" e deu um tiro bem no meio da testa de seu interlocutor.
Satisfeito com o próprio desempenho, escreveu uma carta para o senhor cliente que já não tremia mais, apenas dormia, e saiu pela janela, porque parecia mais legal. Sem saber o que acabara de fazer, voltou pra casa e dormiu merecidamente, por dias seguidos... Quando retomou os trabalhos passou a ter muitas dificuldades, não conseguia concluir nenhum serviço e entrou em depressão profunda. Naquele dia chuvoso havia matado sua única companheira de trabalho. Com uma bala no meio da testa, seria difícil encontrar a morte em qualquer lugar que fosse. Aposentou-se mais cedo do que pensou, com a maior fila de clientes que já existiu.
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