sexta-feira, 25 de maio de 2012
Começou aos poucos, como se nada fosse. Um câncer aqui, o sentido da visão devolvido como em um acender de luzes, a tuberculose que voa pra longe com asas improváveis. Acontecia assim, de uma hora pra outra, entre um bocejo e um prato de arroz. De onde vinha era tido como um qualquer. Na cidade dos milagres estranho é ver quem adoece ou padece de doença qualquer. Não precisava de muito e vivia de rede em rede, árvore em árvore, com o sol sob a cabeça e calo nos pés, sabia aproveitar o que o mundo lhe proporcionava de mais belo. Seu nome não é importante. Podia-se chamar José Qualquer ou Jorge de Alguma Coisa. O que conta pra nós são seus feitos milagrosos, pra nós, não pra ele que via com naturalidade a capacidade de cura que Deus lhe deu.
Foi em uma viagem inesperada pra São Paulo que viu sua vida mudar. Pés nos sapatos pela primeira vez, pés que traziam um bichinho gostoso demais de coçar. Achou engraçado quando ouviu o nome da cidade "São Paulo", repetiu consigo mesmo, sorrindo. Achou que seria mais um dentro dessa São Paulo. Mudou-se por ordem do juiz de todos os tribunais, que achou por certo transferir o menino pro mundo dos homens após ficar órfão. Viagem comprida essa até São Paulo. Chegou em uma noite de sexta-feira, foi largado por um ônibus de transporte público do governo da cidade dos milagres em um bairro sujo, cheio de gente e frio.
Os dias se seguiram sem muita novidade. Tratou logo de arranjar um barraquinho pra esticar os ossos e um bar pra esticar os pensamentos. Notou que havia muitos enfermos na sua atual cidade, gente com todo tipo de doença, algumas criadas pelas próprias pessoas e prorrogadas pela ganância de todos que o rodeavam. "Ganância", achou bonita a palavra quando a ouviu pela primeira vez. Passou a ajudar no que podia as pessoas que faziam parte de sua nova vida. Uma enchaqueca pela manhã, dores nas costas pela tarde e dores de amor ao anoitecer. A tarefa de realizar milagres o mantinha ocupado o dia todo e isso era importante agora que vivia em um lugar novo, desconhecido. Passou bem uma porção de dias, até mesmo o dia em que um procurador do governo do Estado de São Paulo levou uma intimação até a porta de seu barraco acusando-o de trabalho ilegal, sonegação de impostos e uma porção de coisas das quais não entendia nada. Contou com o auxilio de alguns colegas que havia ajudado e conseguiu uma licença pra exercer seu 'ofício' com a autorização do Estado. Não conseguia comer porque não tinha o tal do dinheiro que tanto lhe pediam quando precisava de alguma coisa; não achava árvores com frutos que lhe saciassem a sede e a fome, não entendia nada do que acontecia.
Foi enquanto coçava seu bicho de pé em uma rede improvisada que teve a idéia que mudaria sua vida pra sempre. Pensou em cobrar pelos serviços que prestava às pessoas, assim poderia comprar o que comer e vestir. Achou genial as idéias que lhe pegaram de surpresa e decidiu aplicá-las já no dia seguinte, pela manhã. Esticou uma placa feita de papelão e tinta vermelha em frente ao barraco que trazia as palavras "milagres por R$ 10,00".
Foi assim que o São qualquer coisa começou seu império na cidade de São Paulo, meio que por necessidade, meio que por tédio, meio que por raiva dos que lhe tiravam a paz. Foi assim que o São qualquer coisa se tornou o homem mais rico do mundo, dono de uma casa que passaram a chamar igreja e general de um exército que se auto denominava fiel. Só não sabia fiel a quê.
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário