quinta-feira, 3 de maio de 2012
Coisas de morte e de vida
Havia anos não saia de casa, sempre debaixo do mesmo teto, olhando pro mesmo sol elétrico. Depois de uma vida de carros de corrida e cabanas de lençol, teve seu primeiro passeio ao ar livre. Foram até uma praça verde, que ficava a uns cem metros do sol elétrico. Andou de maõs dadas com o vento, enquanto aproveitava o frescor e a brisa que as sombras proporcionavam.
O homem de calça marrom desbotado estava ali muito antes da praça ser construída. Viu os tratores tirarem terra, a grama sendo plantada e o trepa trepa colorido ganhar posição. De tempos em tempos mudava a posição das pernas, esquerda sobre direita, direita sobre esquerda. Muitos passavam por ele sem notar sua presença, alguns achavam que era propriedade pública, posto ali por alguns homens uniformizados logo após o escorregador...
Aproximou-se do senhor de calça marrom que lia um livro grande, provavelmente pesado e velho, visivelmente velho. O que traz aí, perguntou o menino. Carrego a alma, respondeu o homem. Depois de analisar o livro de capa dura, entortou um pouco a cabeca e tornou a perguntar, a sua? Não, a da pessoa que escreveu o bendito. Por não saber muito de alma continuou ali, ouvindo o que o velho tinha a dizer, encantado. Se soubesse qualquer coisa sobre o assunto tambem ficaria ali, pois a voz soava doce e firme, carregando convicção em cada palavra. Ouviu sobre como o escritor transferia sua alma pro pedaço de papel e como era solitário viver depois disso. Aprendeu que o livro é a alma de quem o escreve, separando-a assim do corpo do escritor pra sempre. Disse ao velho que alguns escritores deveriam ter mais de uma alma, pois escreviam dois, até três livros! Ouviu a risada alta do senhor barbado e olhou para os lados assustado. Ninguém parecia notar a presença de nenhum dos dois. O que faz quando perde alguma coisa, meu jovem, perguntou ao menino. Eu procuro. Pois é isso que fazem os escritores, perdem a alma no primeiro livro e a buscam em todos os outros...
Após ouvir cada palavra atentamente e perceber que o sol, desinteressado, partira a procura de conversa melhor, voltou pra casa despedindo-se as pressas do senhor que continuava a ler, mesmo sem enxergar um palmo a sua frente. Dormiu de olhos abertos aquela noite, imaginando almas desprendendo-se de corpos cansados de tanto escrever.
Não encontrou o homem no dia seguinte, nem no outro, ou no outro...
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Após trinta anos de almas e corpos de carne e osso, o menino, que já não era considerado assim por seus concidadãos, era dono de um cômodo cheio de almas. Estudou os livros entre os trabalhos na feira e os dias como entregador de pizza e sentia-se o homem mais rico do mundo, ao segurar outra pessoa nas mãos, possuir e manusear o que antes tinha pernas e cabelos, uma cabeça e dedos, dedos! Sempre imaginava as carcaças vagando pelo mundo, tristes e sombrias, olhar vago no chão sem saber por onde andava sua alma. Nunca ousou escrever uma palavra sequer, desde o encontro com o velho no parque. Tinha medo de perder seu único bem, a única coisa interiamente sua, sem imposto sem especulação.
O tempo passou por ele como uma borboleta perdida, tirou de seus ossos a força, de seus cabelos a cor e de seu coração o amor de uma vida. Não tinha mais vontade ou motivos para seguir os dias com pés firmes ou as noites regadas a café e canções perdidas. Decidiu determinar seu próprio fim, do jeito que queria. Trancou-se no quarto lotado, com um caderno em branco e um pedaço de lápis. Sentou-se no chão pois nunca pensou em colocar uma mesa naquele quarto. Escreveu a primeira palavra em anos, e observou sua letra tremida,continuou a escrever e passou a sentir um aperto que tomava conta de todo seu corpo, coçando sua pele dos pés a cabeça... Passou três anos seguidos no quarto, escreveu cada detalhe de sua vida, tudo que sua memória lhe permitia lembrar. Encaixou sua alma entre a de Byron e Álvares de Azevedo e deixou o quarto. Pegou uma caneca e enxeu de café esfriado pelo tempo. Deu um gole e não sentiu nada, sorriu e continuou bebendo. Toda a dor, a saudade de uma vida entre páginas manchadas. Pegou o chapéu e andou pelo dia ensolarado, leve, sem culpa. Morto.
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Um comentário:
eu to meio...embasbacada. Que texto INCRÍVEL, meu amor! :s sério.
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