quinta-feira, 28 de junho de 2012

Adeus ao mundo meu

Foi deitar cercado de ladrões sedentos de sofrimento e sangue. Antes de encontrar seu fim despediu-se como deveria de cada membro da família. “Boa noite mamãe, eu te amo muito” “Boa noite, meu amor”, respondia a mãe, enquanto preparava a marmita para o almoço do dia seguinte. Parou na porta do quarto do irmão mais novo e o observou brincando com um boneco de cabeça laranja, sem perna. Não entendia o porquê o irmão gostava tanto daquele boneco de cabeça laranja, laranja, onde já se viu… Pensou em despedir-se também do irmão caçula e o fez, não do jeito melodramático que experimentara com a sua mão na cozinha, mas de um jeito brando, simples. “Vai a merda, Luiz.” disse sob o batente, disfarçadamente emocionado. “Cala a boca, seu bosta” recebeu como resposta. Sorriu e virou-se em direção ao quarto. Não foi dizer adeus ao pai, pois sabia que ainda estava na fábrica. Sempre chegava de madrugada quando tinha esses ‘novos projetos’ para terminar.

Conversou com seu dinossauro predileto, pediu que cuidasse de tudo na sua ausência e disse que deixava todos os seus bens para o querido amigo, como prova de seu carinho. Chorou e pediu para que não debochasse, beijou e enrubesceu, apoiou o fiel amigo no travesseiro e o cobriu. “Boa noite e obrigado” disse olhando nos olhos do predador, inofensivo debaixo daqueles lençois. “Boa noite, meu amigo” respondeu o dinossauro.

Não sabia que ladrões o viriam pegar naquela noite, ou que enfrentaria oito homens sozinho, com uma espada mal afiada. Não tinha como descobrir os mistérios que o aguardavam por trás das pálpebras ainda enrugadas. Só sabia que quando a cortina de pele baixasse, estava por sua conta. Cumpria o ritual todas as noites, sabendo que qualquer uma poderia ser a última.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Texto para quem gosta de não texto

Desde cedo eu vi a jaula. A jaula suja e escura, localizada no fundo do que parecia ser uma sala enorme. Aos poucos passei a jogar pedaços de pão e restos de comida só por diversão, gostava de mirar bem no meio do quadrado, do cárcere do que eu ainda não sabia.

As migalhas desapareciam e eu tornava a repetir o gesto. Aos poucos isso se tornou um hábito. Desde criança, alimentado pelo que ouvia dizer a respeito daquela jaula, vivia olhando de canto de olho, sem nunca me perguntar afinal o que é que havia la dentro. E as migalhas continuavam a forrar o chão do lugar e a sumir logo em seguida. Me tornei bom nisso com o tempo. Conseguia acertar exatamente onde desejava.

Nunca enxerguei o fim da dita jaula. A partir de um período fiquei fissurado pelas barras enferrujadas e não conseguia mais arredar o pé daquele lugar. Todas as vozes de infância faziam eco em minha cabeça, vozes que me alertavam a respeito da criatura guardada entre barras.

Nunca enxerguei o fim da dita jaula. Ontem consegui ver a porta, pela primeira vez. Fiquei entusiasmado, obviamente. A ansiedade me tomou por completo e me fez aproximar da porta pra tentar qualquer coisa. Uma inquietação me fez suar frio e sentir vertigem. Procurei me conter ao tentar localizar alguma maçaneta. Foi quando percebi que a fechadura estava virada para o outro lado e que o fim daquela jaula estava bem atrás de mim.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Entrou no quarto escuro, sem sombras ou luz que lhe servissem de referência. Cambaleou no começo, apoiando-se em qualquer coisa. "Você está aí?" perguntou a segunda voz, alta como se usasse um megafone. "Responda, voce está aí?" Não sabia se devido a inutilidade da visão dentro naquele cômodo a audição havia melhorado ou se a voz estava realmente alta do jeito que lhe parecia. Abriu a boca e tentou responder, sem efeito. Encontrou uma cama e sentou, tentando focar qualquer coisa a sua volta. Conhecia aquela cômodo, ja havia visitado aquele lugar algumas vezes, não tantas como deveria, não tantas como queria, mas não era de todo estranho. Apalpou a colcha e sentiu a poeira entre os dedos, o travesseiro abandonado entre as cobertas. Ergueu-se devagar e esticou o braço afim de sentir uma prateleira que ele sabia estar ali na frente. Sentiu a brochura e sorriu, passou rápido para os livros do lado, uma pedra velha repousando no pedaço de madeira. Sabia sobre cada objeto guardado ali, conhecia aquele lugar. Sorriu e continuou, de olhos fechados agora, uma vez que os olhos já não lhe serviam de nada. Deus, como era bom estar de volta. A voz que o chamava de longe começou a diminuir o tom e um som metálico passou a preencher todo o local. O despertador o troxe pra vida real. Não conseguia ficar com ele mesmo, não visitava sua cabeça fazia um tempão... Vestiu a calça e voltou a pegar no batente após um descanso de duas horas.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Em um futuro não muito distante, fez-se a liberdade. Liberdade de ir e vir, pensar, falar, gritar; liberdade sexual e entre gêneros, fez-se a liberdade. A tão desejada e utópica liberdade. Aquela de textos e idéias, livros, músicas e filmes. Livres de qualquer encargo ou horários as pessoas poderiam fazer o que quisessem. Sem dedos apontando direções, ordens a serem seguidas ou líderes idealistas. As pessoas poderiam pensar o que quer que fosse agora, sem necessidade de prestação de contas após o ponto final. O tão sonhado mundo livre, de tudo. O vizinho não colocou o relógio para despertar, o padeiro não assou os pães pela manhã e você não comprou a bolsa que anunciavam na televisão. Atravessar fronteiras sem supervisão de chefes de Estado ou datas previstas para expiração e um andar leve, delicioso e macio. Tudo como queríamos, o maior dos problemas resolvidos. A satisfação entrando pela corrente sanguínea e trazendo a sensação de felicidade ininterrupta, um torpor de sensações mescladas e uma mente adormecida, preguiçosa. Não sabíamos como seria a sensação e continuamos sem saber. Cada um fazia sua idéia na cabeça, afinal de contas todos tinham a liberdade de pensar ou desrespeitar opiniões alheias. Não tardou a aparerer centenas de teorias sobre qualquer coisa, a política deixou de existir, já que não havia necessidade de disputa ou argumentação sobre divergência de opiniões. Todos eram todos na multiplicidade do ser, na liberdade do relativismo e na interpretação de todos os fatos. O caos se fez sem que adimitíssemos, poderia chamar do que eu quiser e você também. A bagunça era generalizada nas ruas e avenidas da cidade e aos poucos passamos a não saber o que fazer com nós mesmos. Sem concordância alguma entre discussões sobre os bezouros que carregavam formigas ou qualquer coisa do gênero passamos a odiar todo mundo, sem perceber que odiávamos a nós mesmos. Podendo ir a qualquer lugar ao acordar, ficávamos cada vez mais nas nossas camas e aos poucos tornamos a ligar nossas televisões, que já não passavam nada. A liberdade confundida com desrespeito, o ego intoxicando a opinião. Humanos que não ouviam mais nada. Foi essa a liberdade encontrada e exercida em um passado não tão distante

terça-feira, 5 de junho de 2012

Os opostos que vivem a nos regular! Eu, eu, eu. Busco referência em tudo e qualquer coisa, tudo que legitime meu sorriso, que me faça dormir tranquilo. A estampa da minha camisa mostra o que quero de mim, a parte que escolho, o pedaço que me agrada. Uso superlativos pra enfatizar o que penso. É uma busca constante por qualquer identidade, pois não quero me sentir sozinho... Pro inferno com tudo. O pensar que sou especial me faz arrogante. A individualidade e relatividade das ações me livra a cara dos problemas, me fazendo dormir tranquilo, finalmente. Talvez eu não tenha que dormir tranquilo, talvez eu não tenha que escolher a parte que me agrada; provavelmente deveria andar nu em pêlo pelas ruas, sem apontar, mas ser apontado. A vergonha multiplicada pelo ego nos faz correr. Correr não sei pra onde até alcançarmos o destaque. Destaque entre o que escolhemos, pra nos diferenciarmos dos outros, outros que odiamos, mas que regulam o meu sucesso. Afinal, o que seria de mim se não existissem os derrotados? E a corrida continua: encha sua garrafas com água e respire fundo. Vou fazer um café.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Parte 2 do texto sem nome

Com 12 anos de idade Gustavo não havia desfrutado de algumas emoções tão comuns a muitos de nós. A peculiaridade de sua existência enclausurada fez com que sua vida fosse se moldando dia após dia, sem perspectiva ou planejamento prévio. O sol se escondera e a noite deitava seu manto de estrelas sobre a cidade enquanto Todos na casa aqui referida dormiam. Gustavo nunca sonhava, toda noite vinha e partia como as notícias que nunca ouvimos, notícias em línguas que desconhecemos, sobre países que nunca visitaremos, notícias que não causam efeito algum. Durante a noite de um outono passado Gustavo acordou. Levantou e foi molhar a garganta quando deu de cara com a porta da cozinha escancarada. O vento fazia as cortinas dançarem frenéticamente e traziam a música cantada pela natureza pra dentro da casa, música que não era bem vinda àquela hora. Correu pra fechar a porta e avistou uma escada posicionada no muro da frente da própria casa. Decidiu subir pra ver onde dava, já que a escada estava no quintal. Provavelmente havia sido deixada la por esquecimento de seu tio descuidado. Subiu por tempo indeterminado, tempo que não poderíamos calcular de acordo com a nossa concepção. Subiu um degrau atrás do outro e chegou ao céu. Passeou distraidamente observando a disposição dos elementos que apareciam a sua frente sem se dar conta do caminho que fazia. Depois de tanto pé na frente do outro percebeu que muito provavelmente estava longe de casa. Olhava pra baixo e via uma cidade linda, toda iluminada sob seus pés. Nunca, em toda sua breve existência vira imagem tão marcante e fabulosa. Pela primeira vez na vida entendera as frases se Shakespeare. Sentiu que poderia conversar sobre sua viagem com Julio Verne sem ficar pra trás ou envergonhado por não ter tantos causos assim. Sentiu que as palavras em sua cabeça tinham outro gosto agora, outra cor. Sabia o rítimo da música ao ler Goethe sem nunca visitar a Alemanha, agora ele sabia. Sentiu pela primeira vez, sentia. As palavras e sensações o acometiam, todas de uma vez. De olhos fechados deixou que o turbilhão o pegasse e fizesse de tudo. Palavras chegando, batendo... Recordar... 'Do latim re-cordis, tornar a passar pelo coração' Sua vó. Tentou descer correndo as escadas que o trouxeram até ali e caiu. Caiu leve, delicadamente até o quintal que conhecia tão bem. Não saberia dizer o tempo que durou a queda, muito menos a sensação que sentiu. Apostou que nenhum dos autores que conhecia o poderiam fazer. Entrou pela porta da cozinha, bebeu um copo de água e foi até o quarto, deixando-se cair deliciosamente entre os lencóis. Acordou no dia seguinte e foi em direção ao quintal, onde sua vó costumava ficar sentada, tomando sol. Percebeu que ela parecia muito mais velha que de costume, mas não disse nada, sentou-se e pegou um livro pra começar sua leitura matinal em voz alta. Antes que começasse, viu o tio entrando com um carro na garagem, não tinham carro. Quando a porta bateu e o sol decidiu mostrar o rosto do parente Gustavo pode notar que seu tio havia envelhecido uns 6 anos durante aquela noite. Não sabia se havia sonhado, não tinha como descobrir. Pegou o livro, ignorando a discrepância física do sujeito que estava a sua frente e começou a ler. Parou e repousou o livro no chão. Respirou e olhou pra avó ao recomeçar "Havia uma escada no quintal e ventava forte..." O sorriso conhecido da avó o fez continuar, ininterruptamente. Recordar. Gustavo jamais esqueceria o significado daquela palavra.

Parte 1 do texto sem nome

Pouco se sabe sobre crescer sem pais quem sempre usufruiu do afeto de um par de braços. Braços que envolvem, apertam e acolhem. Aperto que aconchega e proteje. Amor que livra do abismo, sem eliminar o vento fresco no rosto. Amor que aperta, pois amor sem aperto no peito nada mais é do que um engano. Portanto, quem cresceu e cresce perto das pernas altas em vestimentas de verão pode não entender muito bem o que vou contar agora. É coisa rápida, prometo. Nada tão interessante também, porém, o que tem pra fazer mesmo? Quando Gustavo nasceu, contava com uma Avó doente e um tio. Sua mãe morrera logo após o parto, por conta de complicações durante o procedimento. Quando soubesse daquilo, Gustavo se sentiria culpado pela morte da mãe e carregaria aquele peso pelo resto da vida. Mas isso não vem ao caso. O que nos interessa é saber que a vida do jovem exposto nessas palavras se resumia a Avó e o tio. Avó que sofria de alzheimer e tio que precisava de mais cuidados do que o recém nascido. Não admira que desde cedo Gustavo aprendeu a se virar. Fazia sua própria comida aos cinco anos de idade e aos 7 lavava e passava sua própria roupa, enfrentando todos os perigos e aventuras que se escondem dentro de um ferro de passar. Foi mais ou menos nesse período que Gustavo conheceu seus amigos asiáticos e viajou para o oeste durante o verão. Aprendeu a ler sozinho e o fazia sempre que podia. Lia para sua vó em voz alta e clara, enquanto a mesma sorria, achando graça em cada palavra. O tio não parava em casa, quando passava era pra tomar um banho ou comer alguma coisa. Se acostumaram a ausência do outro e seguiam a vida desse jeito. Entre leituras soltas e bonecos sem cabelo, descobriu o que a palavra recordar significava 'Do latim re-cordis, tornar a passar pelo coração' Refletiu por um momento mas logo descartou o pensamento por não fazer sentido. "passar o que pelo coração?" Gustavo não tinha nada do que recordar, uma vez que sua vida se resumira aos três cômodos a que estava habituado. Nunca havia saído de casa. Seu maior passa tempo era a leitura, com oito anos de idade conhecia Guimarães Rosa de trás pra frente e citava qualquer trecho de Saramago, sem pestanejar. Era uma atividade ótima essa de ler e, acima de tudo, decorar livros. Nunca frequentara a escola, portanto, nunca chegou a ouvir "você precisa entender o livro, o que o autor quer dizer..." e essa baboseira toda. Todo conhecimento que tinha vinha diretamente dos livros que um dia pertenceram a sua vó, ex-professora de literatura em uma escola qualquer. Achou que sabia tudo, sem que ninguem o pressionasse ou cobrasse qualquer coisa. Pois quando não se tem com o que comparar, qualquer resultado é o máximo, ou o mínimo.