Foi deitar cercado de ladrões sedentos de sofrimento e sangue. Antes de encontrar seu fim despediu-se como deveria de cada membro da família. “Boa noite mamãe, eu te amo muito” “Boa noite, meu amor”, respondia a mãe, enquanto preparava a marmita para o almoço do dia seguinte. Parou na porta do quarto do irmão mais novo e o observou brincando com um boneco de cabeça laranja, sem perna. Não entendia o porquê o irmão gostava tanto daquele boneco de cabeça laranja, laranja, onde já se viu… Pensou em despedir-se também do irmão caçula e o fez, não do jeito melodramático que experimentara com a sua mão na cozinha, mas de um jeito brando, simples. “Vai a merda, Luiz.” disse sob o batente, disfarçadamente emocionado. “Cala a boca, seu bosta” recebeu como resposta. Sorriu e virou-se em direção ao quarto. Não foi dizer adeus ao pai, pois sabia que ainda estava na fábrica. Sempre chegava de madrugada quando tinha esses ‘novos projetos’ para terminar.
Conversou com seu dinossauro predileto, pediu que cuidasse de tudo na sua ausência e disse que deixava todos os seus bens para o querido amigo, como prova de seu carinho. Chorou e pediu para que não debochasse, beijou e enrubesceu, apoiou o fiel amigo no travesseiro e o cobriu. “Boa noite e obrigado” disse olhando nos olhos do predador, inofensivo debaixo daqueles lençois. “Boa noite, meu amigo” respondeu o dinossauro.
Não sabia que ladrões o viriam pegar naquela noite, ou que enfrentaria oito homens sozinho, com uma espada mal afiada. Não tinha como descobrir os mistérios que o aguardavam por trás das pálpebras ainda enrugadas. Só sabia que quando a cortina de pele baixasse, estava por sua conta. Cumpria o ritual todas as noites, sabendo que qualquer uma poderia ser a última.

Um comentário:
Podia ser a vez de salvar alguma princesa dum dragão horrível...
ou ser um dragão horrível...
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