Desde cedo eu vi a jaula. A jaula suja e escura, localizada no fundo do que parecia ser uma sala enorme. Aos poucos passei a jogar pedaços de pão e restos de comida só por diversão, gostava de mirar bem no meio do quadrado, do cárcere do que eu ainda não sabia.
As migalhas desapareciam e eu tornava a repetir o gesto. Aos poucos isso se tornou um hábito. Desde criança, alimentado pelo que ouvia dizer a respeito daquela jaula, vivia olhando de canto de olho, sem nunca me perguntar afinal o que é que havia la dentro. E as migalhas continuavam a forrar o chão do lugar e a sumir logo em seguida. Me tornei bom nisso com o tempo. Conseguia acertar exatamente onde desejava.
Nunca enxerguei o fim da dita jaula. A partir de um período fiquei fissurado pelas barras enferrujadas e não conseguia mais arredar o pé daquele lugar. Todas as vozes de infância faziam eco em minha cabeça, vozes que me alertavam a respeito da criatura guardada entre barras.
Nunca enxerguei o fim da dita jaula. Ontem consegui ver a porta, pela primeira vez. Fiquei entusiasmado, obviamente. A ansiedade me tomou por completo e me fez aproximar da porta pra tentar qualquer coisa. Uma inquietação me fez suar frio e sentir vertigem. Procurei me conter ao tentar localizar alguma maçaneta. Foi quando percebi que a fechadura estava virada para o outro lado e que o fim daquela jaula estava bem atrás de mim.

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