sexta-feira, 1 de junho de 2012
Parte 1 do texto sem nome
Pouco se sabe sobre crescer sem pais quem sempre usufruiu do afeto de um par de braços. Braços que envolvem, apertam e acolhem. Aperto que aconchega e proteje. Amor que livra do abismo, sem eliminar o vento fresco no rosto. Amor que aperta, pois amor sem aperto no peito nada mais é do que um engano. Portanto, quem cresceu e cresce perto das pernas altas em vestimentas de verão pode não entender muito bem o que vou contar agora. É coisa rápida, prometo. Nada tão interessante também, porém, o que tem pra fazer mesmo?
Quando Gustavo nasceu, contava com uma Avó doente e um tio. Sua mãe morrera logo após o parto, por conta de complicações durante o procedimento. Quando soubesse daquilo, Gustavo se sentiria culpado pela morte da mãe e carregaria aquele peso pelo resto da vida. Mas isso não vem ao caso. O que nos interessa é saber que a vida do jovem exposto nessas palavras se resumia a Avó e o tio. Avó que sofria de alzheimer e tio que precisava de mais cuidados do que o recém nascido. Não admira que desde cedo Gustavo aprendeu a se virar. Fazia sua própria comida aos cinco anos de idade e aos 7 lavava e passava sua própria roupa, enfrentando todos os perigos e aventuras que se escondem dentro de um ferro de passar. Foi mais ou menos nesse período que Gustavo conheceu seus amigos asiáticos e viajou para o oeste durante o verão. Aprendeu a ler sozinho e o fazia sempre que podia. Lia para sua vó em voz alta e clara, enquanto a mesma sorria, achando graça em cada palavra. O tio não parava em casa, quando passava era pra tomar um banho ou comer alguma coisa. Se acostumaram a ausência do outro e seguiam a vida desse jeito.
Entre leituras soltas e bonecos sem cabelo, descobriu o que a palavra recordar significava 'Do latim re-cordis, tornar a passar pelo coração' Refletiu por um momento mas logo descartou o pensamento por não fazer sentido. "passar o que pelo coração?" Gustavo não tinha nada do que recordar, uma vez que sua vida se resumira aos três cômodos a que estava habituado. Nunca havia saído de casa. Seu maior passa tempo era a leitura, com oito anos de idade conhecia Guimarães Rosa de trás pra frente e citava qualquer trecho de Saramago, sem pestanejar. Era uma atividade ótima essa de ler e, acima de tudo, decorar livros. Nunca frequentara a escola, portanto, nunca chegou a ouvir "você precisa entender o livro, o que o autor quer dizer..." e essa baboseira toda. Todo conhecimento que tinha vinha diretamente dos livros que um dia pertenceram a sua vó, ex-professora de literatura em uma escola qualquer. Achou que sabia tudo, sem que ninguem o pressionasse ou cobrasse qualquer coisa. Pois quando não se tem com o que comparar, qualquer resultado é o máximo, ou o mínimo.
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