sexta-feira, 1 de junho de 2012
Parte 2 do texto sem nome
Com 12 anos de idade Gustavo não havia desfrutado de algumas emoções tão comuns a muitos de nós. A peculiaridade de sua existência enclausurada fez com que sua vida fosse se moldando dia após dia, sem perspectiva ou planejamento prévio.
O sol se escondera e a noite deitava seu manto de estrelas sobre a cidade enquanto Todos na casa aqui referida dormiam. Gustavo nunca sonhava, toda noite vinha e partia como as notícias que nunca ouvimos, notícias em línguas que desconhecemos, sobre países que nunca visitaremos, notícias que não causam efeito algum. Durante a noite de um outono passado Gustavo acordou. Levantou e foi molhar a garganta quando deu de cara com a porta da cozinha escancarada. O vento fazia as cortinas dançarem frenéticamente e traziam a música cantada pela natureza pra dentro da casa, música que não era bem vinda àquela hora. Correu pra fechar a porta e avistou uma escada posicionada no muro da frente da própria casa.
Decidiu subir pra ver onde dava, já que a escada estava no quintal. Provavelmente havia sido deixada la por esquecimento de seu tio descuidado. Subiu por tempo indeterminado, tempo que não poderíamos calcular de acordo com a nossa concepção. Subiu um degrau atrás do outro e chegou ao céu. Passeou distraidamente observando a disposição dos elementos que apareciam a sua frente sem se dar conta do caminho que fazia. Depois de tanto pé na frente do outro percebeu que muito provavelmente estava longe de casa. Olhava pra baixo e via uma cidade linda, toda iluminada sob seus pés. Nunca, em toda sua breve existência vira imagem tão marcante e fabulosa. Pela primeira vez na vida entendera as frases se Shakespeare. Sentiu que poderia conversar sobre sua viagem com Julio Verne sem ficar pra trás ou envergonhado por não ter tantos causos assim. Sentiu que as palavras em sua cabeça tinham outro gosto agora, outra cor. Sabia o rítimo da música ao ler Goethe sem nunca visitar a Alemanha, agora ele sabia. Sentiu pela primeira vez, sentia. As palavras e sensações o acometiam, todas de uma vez. De olhos fechados deixou que o turbilhão o pegasse e fizesse de tudo. Palavras chegando, batendo... Recordar... 'Do latim re-cordis, tornar a passar pelo coração' Sua vó.
Tentou descer correndo as escadas que o trouxeram até ali e caiu. Caiu leve, delicadamente até o quintal que conhecia tão bem. Não saberia dizer o tempo que durou a queda, muito menos a sensação que sentiu. Apostou que nenhum dos autores que conhecia o poderiam fazer. Entrou pela porta da cozinha, bebeu um copo de água e foi até o quarto, deixando-se cair deliciosamente entre os lencóis. Acordou no dia seguinte e foi em direção ao quintal, onde sua vó costumava ficar sentada, tomando sol. Percebeu que ela parecia muito mais velha que de costume, mas não disse nada, sentou-se e pegou um livro pra começar sua leitura matinal em voz alta. Antes que começasse, viu o tio entrando com um carro na garagem, não tinham carro. Quando a porta bateu e o sol decidiu mostrar o rosto do parente Gustavo pode notar que seu tio havia envelhecido uns 6 anos durante aquela noite.
Não sabia se havia sonhado, não tinha como descobrir. Pegou o livro, ignorando a discrepância física do sujeito que estava a sua frente e começou a ler. Parou e repousou o livro no chão. Respirou e olhou pra avó ao recomeçar "Havia uma escada no quintal e ventava forte..." O sorriso conhecido da avó o fez continuar, ininterruptamente. Recordar. Gustavo jamais esqueceria o significado daquela palavra.
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