quinta-feira, 24 de maio de 2012
A origem dos nomes
Quando Renato Augusto saiu de casa na manhã de quinta-feira, não poderia imaginar que aquela seria a última vez que veria o taco gasto da porta de entrada da sala. Mochila nas costas, um gole longo no suco de limão, de saquinho e um pé na frente do outro, rápido, enquanto seca a boca na manga da blusa de moletom. O vento frio do lado de fora era um prelúdio do que aconteceria naquela tarde. Como se não bastasse o atraso de quarenta minutos pra aula, os ventos que sopravam o ouvido de Rentao Augusto anunciavam o causo e a tragédia anunciada.
Passou pelos vizinhos sem cumprimentar, como sempre fazia. Vinte anos de convívio não foram suficientes para produzir nenhum afeto pelas pessoas que rodeavam sua casa, que acordavam e dormiam sobre o mesmo sol, que elegiam o mesmo prefeito. A indiferença de sempre manteve os olhos de Renato fixos a frente, sem mirar ponto algum no horizonte. Não fosse tão distraído, perceberia os anjos que habitavam a árvore no fim da rua procurando o que comer nos lixos da vizinhança. As asas que não eram nada discretas denunciavam a origem divina daqueles corpos. Continuou veloz e cruzou a esquina, ignorando o nome na placa "Gustavo de Souza".
Fazia o mesmo caminho todos os dias, duas vezes. Nunca notou a casa de tijolos verdes que se esticava por todo o quarteirão.
Escola, almoço, escola. Podia ser considerado um aluno esforçado, o Renato Augusto. Não fosse o acontecimento daquela tarde, alcançaria um posto importante dentro do ramo tecnológico. Eu sei, tenho toda a trajetória aqui na minha mão. Se a minha falta de jeito com a caneca de café não tivesse atrapalhado, saberia descrever até o que aconteceu durante a tarde. Maldita distração...
Ao descer as escadas encardidas da escola, sentiu um arrepio na espinha, daqueles que só acontecem uma vez na vida e bem perto do fim dela. Como é uma sensação completamente nova, seria impossível adivinhar o que estava por vir. Fez o caminho conhecido de volta pra casa e virou uma esquina a esquerda. Foi a última vez que faria qualquer curva. Não se viu de onde saiu ou onde entrou, nada se sabe sobre o que ocorreu. Um descuido no roteiro da vida, uma mancha de café que apagou Renato Augusto da história. Os anjos não pararam de revirar o lixo, o sol não parou de brilhar e nenhum copo foi quebrado no restaurante do centro da cidade. Um desaparecimento silencioso e repentino. Dias de desespero se seguiram entre amigos e familiares, uma busca bem empreendida pela polícia local não trouxe nenhum resultado. Um descuido do escritor de destinos que trouxe o fim abrupto de uma vida inocente.
Passado um tempo, tempo suficiente pra que os cartazes de desaparecido se desfizessem junto a chuva, tempo pra que a memória lembrasse do esquecimento, fez-se a justiça celestial. Porque o mundo não deve pagar pelos erros de um senhor qualquer que brinca a vida dos outros com um lápis afiado. Quando os desaparecidos já não têm lugar em nossa memória, o espaço lhes é garantido e no momento em que termino de contar essa triste história, Renato Augusto ganha uma placa. Seu nome de batizado dará nome a rua de uma cidade no interior. Nome que ninguém reconhecerá, placa que não será lida; objeto que traz justiça a um pobre coitado e paz de espírito ao escritor descuidado.
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