sábado, 13 de abril de 2013

Mancha

Certo dia ganhei um livro novo. A alegria de menino me encontrou de novo naquelas páginas brancas. O cheiro de papel embriaga e convida a viagem já conhecida. A excitação ao sentir a capa dura definindo o momento, do livro, o seu, o meu... Me ajeitei na cadeira de madeira e estralei o pescoço antes de parar de folhear o livro e repousar na primeira página que dizia “à Ângela, com o carinho especial pra alguém que me ensinou a celebrar a vida”. Decidi pegar um café antes de começar a leitura e levantei pouco depois de fixar em minha mente a dedicatória que acabara de ler. Com a caneca na mesa e o livro nas mãos, comecei a leitura. Após vinte minutos de olhos por letras soltas, direcionei o olhar a escrivaninha para ver se tudo estava no seu devido ligar (sim, sou sistemático e portador de transtorno obsessivo compulsivo) Quando voltei a atenção para o livro novamente me dei conta de que a mão esquerda, que estava alinhando o cinzeiro a luminária bateu na caneca ainda cheia de café e a derrubou em cima do livro aberto. “porra, mas que estúpido!” pensei sobre mim mesmo ao levantar assustado e checar as calças. Enquanto levantava a caneca e praguejava aos quatro ventos, vi o estrago. A mancha preta pegava a página inteira e, como um veneno que se espalha rápido, alcançou dezenas de páginas seguintes. O desastre estava feito. Adeus cheiro de novo, adeus páginas lisas. Tudo que restava agora era uma mancha enorme afogando as frases do autor e mostrando toda a fragilidade de palavras que não resistiram nem a um café. Um café! Fechei a merda do livro e e joguei na estante, puto como quem acaba de descobrir que foi ridicularizado pelo amor (pois é, lembrem-se do TOC). Abandonei o livro e deitei. Após anos e uma considerável crescida de barba, durante minha organização rotineira, manuseio o livro que vinha recebendo somente o descaso desde o incidente do café. Fazia tanto tempo que eu queria aquele livro, a merda da caneca tinha que virar!? Meio distraído, comecei a folhear o livro de novo. Larguei-me na cama e recomecei a primeira página, como nunca tinha feito: A coluna torta e os pés na parede. Nem percebi no começo, e quando notei já não conseguia parar e alcançar a escrivaninha. A mancha de café ainda estava ali, gravada e seca como a cicatriz de uma bala na coluna. Passei por ela e senti o cheiro daquele dia empolgante, lembrei do cheiro das páginas novas e das garotas do colégio. O grito da minha mãe chamando para o jantar e o latido de um cachorro calado agora. Passei pelas páginas manchadas que se estendiam até a parte final do livro, praticamente. Passei com gosto, como se nada fosse, salvando as palavras daquele poeta por tanto tempo calado. Fechei o livro e cheguei a conclusão de que era aquilo: Os livros não são limpos, as páginas amassam e a capa se rasga, mas o livro ainda esta lá, de um jeito ou de outro, manchado ou copiado, ainda está lá. E percebi que a minha vida também era assim. Pouco adiantava alisar as horas e os dias se eventualmente uma caneca de café quente mancharia minha existência sem possibilidade de limpeza. E mais do que isso, percebi que poderia ser bom, que o líquido derramado trazia um aroma gostoso quando misturado ao papel e as letras amargas, aroma único, diferente de todos os outros livros e todas as outras vidas.

Nenhum comentário: