segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Com Incidências

A folha seca que o outono derrubara despertou a atenção da criança até então distraída que seguia para a escola. As fezes despejadas pelo cão da tão correta dama que esquecera seu saquinho plástico em casa devido ao atraso causado pelo leite derramado no fogão fizeram com que Seu João sujasse a sola do sapato novo, antes limpo. O tempo pra limpar a sola suja de dejetos caninos deixados pra trás pela dama que esquecera seu saquinho plástico fez com que Seu João perdesse o ônibus 074B. A criança que depois da folha seguiu em frente, distraidamente, como quase sempre, não viu o sinal, que estava vermelho. O braço enrugado e velho que segurou o ombro da criança distraída pertencia ao homem que perdera ao ônibus por causa do cão da dama que esquecera seu saquinho plástico em casa. Seu João que chegou em casa tarde da noite dormiu de lado sem saber que o 074B sofrera um acidente com 10 vítimas fatais. A criança que bebia o leite já não lembrava do braço enrugado e velho que parou seu ombro que estaria morto se o cão da dama que esquecera seu saquinho plástico não houvesse deixado seus dejetos no chão. E isso, ninguém imaginava.

- Mais do que as pessoas, as fezes e folhas salvam vidas todos os dias -

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Rotina Noturna II

Saio para rua gelada e convidativa. Saio sozinho, sempre. É como um ritual.

Ouço todos os ruídos que a noite me oferece. As luzes que me cegam me fazem enxergar com clareza.

Nas casas as famílias festejam, quentes, alheias a realidade. Nunca planejo meu roteiro. Minha única certeza é a cólera que me domina e cresce a cada passo. A fumaça que consome meu pulmão me deixa feliz... não, feliz não. Deixa-me satisfeito por diminuir meus dias a cada tragada. Por mim metia logo uma bala na merda da minha cabeça e acabava com tudo. Todos ficariam mais satisfeitos.

Mas a verdade é que não tenho coragem para tal feito. Admito. Sou um frouxo.

Portanto, continuo na rua, gelada e convidativa. Saio sozinho. Um cão sarnento que afugenta qualquer tentativa de aproximação. Um cão sarnento à procura de um revólver.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Bife e batatas fritas

Na busca pela diferença encontramos a mesmiçe. A originalidade que passeia em nossa mente na verdade já foi pensada, não é diferente. Pensamos em meios de nos destacarmos, sobresaltar-mos do mar dos comuns. Mas encontramos o velho, o mofo, o cheiro ruim. O alternativo já não tem alternativa, o "underground" já deixou o subsolo. Nos passos que damos encontramos tudo novo, de novo. A globalização se tornou intergalática. A contra-cultura já não é tão contra assim. O que ontem expressava a loucura desvairada, a insanidade, hoje está exposta em vitrines de liquidação. Assim eu vim, de um jeito antigo, falar um pouco sobre o que já foi dito.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

esperando...

O tempo acelera
na nossa lerdeza.
Te espero ansioso,
mas sem tristeza.
O ônibus que chega,
fumaça, poeira.
O ônibus que traz
sorriso, certeza
que o dia esperado
demora, mas chega.
Que o que é distante
um dia se estreita.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Adoro.

Eu odeio todo mundo!
Odeio quem diz que odeia os outros, odeio quem diz que não odeia. Odeio quem cancela seus compromissos por causa da chuva, odeio quem não gosta de suco de uva. Na verdade, uso a desculpa, pra dizer que odeio tudo. Odeio pseudo-intelectualidade, odeio quando acho que tenho certeza de algo. Odeio odiar tudo, odeio.
Saio xingando todo mundo em pensamento, dou um sorriso falso desvio o olhar e desejo o pior. Odeio escrever pra todo mundo, odeio escrever pra mim mesmo, odeio escrever. Odiaria não saber escrever. Odeio as cores, a luz, o escuro. Odeio tudo, odeio o mundo.
Odeio odiar tudo. Realmente odeio odiar o mundo.
O ódio que satisfaz a mente psicopata, também satisfaz a mais pura das beatas.
Escrevo e mato tudo. Com caneta, em papel sujo.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Nessa data querida

O dia mais importante da vida de seu filho havia passado. No trabalho, havia lucrado como nunca e os negócios estavam a todo vapor. Ciência, tecnologia, dinheiro...Ah! Isso era fácil. Estava habituado a situações inimagináveis no trabalho, há tempos.

A vida se fazia dentro das oito horas diárias que passava no escritório. Se sentia bem, era dono de si. Controle, dominação.
O centro do universo situava-se na enorme tela que permanecia ligada durante quase vinte e quatro horas por dia. Sua bíblia, seu alcorão...

Foi assim durante boa parte de sua vida. Sempre fora ambicioso, determinado, ganancioso até. Desde sempre com a cara nos livros, na escola era tido como um dos melhores alunos. Fez cursos de línguas e tecnologia paralelamente aos cursos obrigatórios.

Chegava até aquele dia com tudo o que sempre sonhou, ou quase tudo. Conhecia sobre o amor, a amizade. Estava tudo nos livros.

O presente de aniversário que entregou à seu filho com um dia de atraso era colossal. O abraço afrouxado e desajeitado o constrangia mais do que qualquer reunião da qual já havia participado. Queria desculpar-se, dizer que sentia muito pela situação. Afastou-se, vermelho e suado. Mentalmente dizia “te amo, você nem sabe o quanto...”.

Sua voz saiu rouca ao proferir:

-Espero que tenha gostado. Preciso trabalhar...

domingo, 20 de setembro de 2009

Borracha e asfalto

Gosto de andar a pé. Sentir a brisa que bate incessantemente em meu rosto. Ando pelas ruas molhadas pela chuva, como quem anda nas areias mais fofas de uma praia.
A música que escuto dita o ritmo dos passos. As luzes dos carros projetam sombras disformes nas paredes de fábricas fechadas. O cachorro que late solitário na casa distante parece conversar com as estrelas. Gosto disso. Me sinto vivo, livre. Nenhuma luz me manda parar, seguir ou diminuir os passos. Parece besteira, mas realmente gosto.

Chego em casa sem pressa, durmo.