quarta-feira, 5 de maio de 2010

Fragmentos

...te falo tudo que penso sem medo da resposta. Te olho nos olhos e já sei o que passa em sua cabeça. Espero, ansioso, pra te contar qualquer novidade. Estudo a relatividade do tempo que, ao seu lado, me mostra que Einstein estava certo.
Te vejo coçando, literalmente, ou não, as idéias que muitas vezes também percorrem minha cabeça. Sei que não sou nada, nem posso querer ser, mas sei também que tenho dentro de mim, assim como você,todas as vontades do mundo.
Te peço desculpas pelas vezes em que disse coisas que pudessem te confundir. No final das contas acho que sou apenas aquilo que se vê. E o que se vê, em mim, tem muito de você
Vivo um dia de cada vez, sem pressa. No mundo real ou das idéias...

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Rotina Noturna III

Na chuva, no frio, me encontro só. Os pingos que caem do céu não são abençoados, não. São como pedras de gelo e pesam uma tonelada. Batem no meu rosto sem pedir licença e arranham a pele fria, já cortada, sem pudor. Chove muito.
Estou sem ninguém ao redor e, daqui, parece que estou só no planeta inteiro. A luz de uma padaria já fechada me ilumina. Nenhum carro passa. Estou no ponto de ônibus, a propósito.
Uma pessoa se aproxima e fica a mais ou menos um metro de distância de mim. Mas ainda assim estou só. Sinto vontade de me aproximar. É um homem. Deve ter uns cinqüenta anos já. Pelo menos é o que parece visto daqui, sob essa luz fraca e amarela. Não tenho coragem de me aproximar, nunca tive. Sempre fui assim. Um ônibus aparece no fim da rua e se aproxima. Vem se arrastando como um animal quase morto, mas com sede. Se aproxima, não é o meu. É o do homem.
O braço molhado do senhor todo esticado é o sinal para o ônibus parar. Ele pára. Ele sobe.
Estou só, como sempre. Estou só. A bateria do aparelho que me proporciona alguma música está pra acabar. Acabando. Acabou.
- Que merda! Grito sozinho.
Estou só.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Senancour

"Eu sinto: eis a única palavra do homem que exige verdades. Eu sinto, eu existo para me consumir em desejos indomáveis, para me embeber na sedução de um mundo fantástico, para viver aterrado com o seu voluptuoso engano."

Obermann

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O rei de si

roupas caras, creme pro rosto... sente-se grande, um gigante na verdade. Nada o segura e o mundo está em suas mãos. Parece que tudo gira em torno do seu ego, e que tem controle sobre tudo. Carros, gente bonita, falante. Seu time de futebol é SEU, é importante. Vira o copo com cerveja de uma vez só e sorri no final, o bar está cheio. A música toca alto e parece que foi feita pra ele. Tem amigos, todos o amam. Sua família é boa, não passa necessidades.
A estrela é pequena acima de sua cabeça com cabelos cheirosos e esvoaçantes... tudo faz sentido, tudo.
Pouco sabe-se sobre o que vem a seguir, só que o último suspiro está próximo. Olha fixo o teto rachado enquanto uma lágrima escorre de seu rosto agora já pálido. Sente-se bem, apesar de tudo. Aos poucos a alegria deixa seu corpo e se esvai, sem ao menos avisar. Alguns a sua volta choram e soluçam, pronunciando frases incompreensiveis. No final das contas sabe que está sozinho. A vida começa e termina sozinha, sem sorrisos convidativos ou promessas de carreira. Os olhos se fecham aos poucos e logo se torna um corpo duro em uma cama macia, um estorvo para seus familiares.
Lá fora o cão late para o carteiro já ensopado pela chuva incessante. Os carros lambem o asfalto velho, mais velho que qualquer um. Tudo está normal, tudo continua normal. Outra pessoa sente-se o dono do mundo agora, muitas sentem. As roupas caras e cremes para o rosto continuam vendendo como nunca e a estrela ainda parece pequena acima da cabeça de alguém. Acho que é assim que se sente quando está vivo. Todos são os maiores e melhores pra si. E tudo faz sentido, até o último suspiro...
O time de futebol ainda faz as suas partidas. Nem um minuto de silêncio ou qualquer outra homenagem em seu nome. É insignificante.
Todos choram a sua volta, e a louça na pia ainda precisa ser lavada.

quarta-feira, 17 de março de 2010

É a morte.

É na morte que algumas coisas nascem. Sentimentos adormecidos e escondidos por vergonha ou precaução. Sentimentos enraizados que só despertam com a grande perda. Por que esperar? Amar, odiar, falar o que se tem “vontade” enquanto os sentidos são capazes de assimilar alguma coisa.
Frases não ditas se tornam frases malditas quando escondidas pelo véu da precaução. Não chore mais. Ele não vai te ouvir. Seu soluço só será absorvido por você mesmo. Sua chance passou assim como a vida de seu ente querido. Achou que não aconteceria com você, não é? Pois é. Muitos não querem acreditar, mas a morte é a coisa mais viva em nossas vidas.
Algumas pessoas anseiam por ela. Suplicam por respostas que lhes revelem o caminho. Poetas da morte, sem medo. Que acordam na noite, como Azevedo. Não clamo a morte, eu não! Porém não a temo. Não anseio, mas sem receio. Só não espere por mim. Não ouvireis quando houver partido: nem grito, soluço ou latido.

sexta-feira, 5 de março de 2010

desapego

Parou e olhou em frente. formigas andando em sua direção esbarravam como se nao estivesse ali. Era sempre assim. Começava a andar e desviar como se fosse um esporte olímpico. Talvez, se isso fosse um esporte, ele seria o melhor. Nunca foi bom em nada, absolutamente nada. Sentia o cheiro que saia dos escapamentos dos carros, das pessoas. Sentia-se enojado. Todos os dias eram iguais. a n d a ... s e n t a ... a n d a ... s e n t a. Nunca entendeu por que fazia aquilo, ou porquê todos aderiam a essa merda sem nem ao menos reclamar:

- Eu preciso - é o que ouvia.
- Pro inferno com tudo isso!

Era tido como louco, pela própria família.
Saiu um dia e não mais voltou. Andou na pista de sola no chão e mochila nas costas. Pela primeira vez fez o que queria. Longe de obrigações maçantes e músicas dançantes. Longe disso. Não sabia onde ia, não se importava. Passou na casa da dona do sorriso mais lindo. Não foi preciso dizer nada.

- Só um minuto - foi o que ouviu.
- não se preocupe com o tempo - respondeu

quinta-feira, 4 de março de 2010

Segredos

Algumas histórias não são simplesmente contadas. Não saem da boca como o hálito e as palavras corriqueiras. Não. Algumas histórias são guardadas. Elas têm um valor inestimável e na maioria das vezes são intocáveis. Só se revelam pra própria pessoa nos mais íntimos devaneios e viagens pelo inconsciente. São produto de uma terra impenetrável. Ás vezes, são vergonhosas as histórias. Muitas vezes não. Por vezes pertencem a um dono tímido.
Te faço abrir a boca sem esforço. Sei as palavras certas, simplesmente sei. Te olho nos olhos e percebo que você não diz isso com freqüência, que se embaralha nas palavras procurando colocá-las nos lugares certos. A história se constrói bem na minha frente. Sei que é importante pra você e, pra mim, acaba se tornando também. Arranco palavra por palavra, frase por frase e me sinto bem. O suor já toca os lábios que se tornaram incontroláveis agora e, pela primeira vez, me sinto importante. Quando acaba de falar simplesmente nos abraçamos e ficamos assim. Nada mais precisa ser dito. Acho que não sou qualquer um, pelo menos não pra você.