sábado, 13 de abril de 2013

Mancha

Certo dia ganhei um livro novo. A alegria de menino me encontrou de novo naquelas páginas brancas. O cheiro de papel embriaga e convida a viagem já conhecida. A excitação ao sentir a capa dura definindo o momento, do livro, o seu, o meu... Me ajeitei na cadeira de madeira e estralei o pescoço antes de parar de folhear o livro e repousar na primeira página que dizia “à Ângela, com o carinho especial pra alguém que me ensinou a celebrar a vida”. Decidi pegar um café antes de começar a leitura e levantei pouco depois de fixar em minha mente a dedicatória que acabara de ler. Com a caneca na mesa e o livro nas mãos, comecei a leitura. Após vinte minutos de olhos por letras soltas, direcionei o olhar a escrivaninha para ver se tudo estava no seu devido ligar (sim, sou sistemático e portador de transtorno obsessivo compulsivo) Quando voltei a atenção para o livro novamente me dei conta de que a mão esquerda, que estava alinhando o cinzeiro a luminária bateu na caneca ainda cheia de café e a derrubou em cima do livro aberto. “porra, mas que estúpido!” pensei sobre mim mesmo ao levantar assustado e checar as calças. Enquanto levantava a caneca e praguejava aos quatro ventos, vi o estrago. A mancha preta pegava a página inteira e, como um veneno que se espalha rápido, alcançou dezenas de páginas seguintes. O desastre estava feito. Adeus cheiro de novo, adeus páginas lisas. Tudo que restava agora era uma mancha enorme afogando as frases do autor e mostrando toda a fragilidade de palavras que não resistiram nem a um café. Um café! Fechei a merda do livro e e joguei na estante, puto como quem acaba de descobrir que foi ridicularizado pelo amor (pois é, lembrem-se do TOC). Abandonei o livro e deitei. Após anos e uma considerável crescida de barba, durante minha organização rotineira, manuseio o livro que vinha recebendo somente o descaso desde o incidente do café. Fazia tanto tempo que eu queria aquele livro, a merda da caneca tinha que virar!? Meio distraído, comecei a folhear o livro de novo. Larguei-me na cama e recomecei a primeira página, como nunca tinha feito: A coluna torta e os pés na parede. Nem percebi no começo, e quando notei já não conseguia parar e alcançar a escrivaninha. A mancha de café ainda estava ali, gravada e seca como a cicatriz de uma bala na coluna. Passei por ela e senti o cheiro daquele dia empolgante, lembrei do cheiro das páginas novas e das garotas do colégio. O grito da minha mãe chamando para o jantar e o latido de um cachorro calado agora. Passei pelas páginas manchadas que se estendiam até a parte final do livro, praticamente. Passei com gosto, como se nada fosse, salvando as palavras daquele poeta por tanto tempo calado. Fechei o livro e cheguei a conclusão de que era aquilo: Os livros não são limpos, as páginas amassam e a capa se rasga, mas o livro ainda esta lá, de um jeito ou de outro, manchado ou copiado, ainda está lá. E percebi que a minha vida também era assim. Pouco adiantava alisar as horas e os dias se eventualmente uma caneca de café quente mancharia minha existência sem possibilidade de limpeza. E mais do que isso, percebi que poderia ser bom, que o líquido derramado trazia um aroma gostoso quando misturado ao papel e as letras amargas, aroma único, diferente de todos os outros livros e todas as outras vidas.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Entre as ruas vazias e mal iluminadas, as árvores que destroem calçadas e as casas que adormecem aos poucos.  Acompanhado do medo que distribui entre todas as crianças do mundo, do meu mundo, anda devagar enquanto fuma seu cigarro e não se esforça nem mesmo pra soprar a fumaça de seus pulmões, deixando a cortina de fumaça cobrir seu rosto pouco antes de se perder no ar.

Os relatos são variados. Há quem diga que faz um barulho sutil enquanto se arrasta até pegar suas vítimas. Confesso que já o ouvi algumas vezes do lado de fora de casa. Algumas pessoas juram de pés juntos que é mudo, outros dizem que não abre a boca pra falar por opção. Eu sei que adora pegar desprevenido e que mora no fim da rua. Desde sempre usou a mesma sandália e arrastou o pé. O saco sem fundo guarda todas as crianças do meu tempo. Não mais a bola no portão do vizinho, não mais pastel na hora do almoço, nada de campainha e pernas correndo.

As crianças desapareceram. Por culpa do nosso homem ou não, elas desapareceram. Seduzidas por coisas que desconhece, não sofrem mais o risco de serem arremessadas para o saco sem fundo e escuro, é o que todos pensam. Perdidas em outros sacos e mudas como nosso homem, elas seguem outros caminhos agora. Caminhos inalcansáveis e distantes. As crianças desapareceram e o homem do saco, sem ter mais o que capturar, desapareceu também.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O silêncio dos culpados

Nas avenidas movimentas e em carros cheios. Nos ônibus, trens e metrôs. Desde o tempo que ninguém mais se lembra quando, articula-se sem parar. Sobre tudo e nada, sobre aquilo que se ouviu, articula-se sem parar. Em velocidade frenética e sem intervalos. Seguidas de goles ligeiros, falou-se sobre quase tudo que se pode imaginar. Colocando músculos pra trabalhar em troca de nada, por um resultado medíocre, soltaram palavras que se perdiam ao vento e não eram absorvidas, pois existe uma regra básica entre os sentidos primários: a audição não funciona enquanto o corpo que deseja escutar não estiver com os lábios repousados em um silêncio respeitador. Portanto, durante um longo período esse foi o quadro: uma bagunça generalizada e um caos disfarçado de requinte e admiração mútua.

Foi em uma noite de sexta feira que iniciou-se o movimento. Sem que seus donos desconfiassem e com uma organização de meter inveja nos revolucionários mais engajados e estudados, as bocas se fecharam como que em advertência. Uma paralização mundial combinada debaixo dos narizes de todos, literalmente. É claro que os narizes sabiam do assunto e concordavam com a causa defendida pelas bocas. Assim, com uma assembléia geral que convocou todas as bocas do mundo, decidiu-se pela paralização. O fuso horário atrapalhou a organização da reunião, naturalmente, mas com encontros paralelos e locais, fez-se com que o assunto fosse discutido nos quatros cantos do mundo. “Não aguento mais as merdas que o Gustavo fala, dia e noite” desabafou uma boca de lábios finos, meio rosada; “A Renata acha que sabe de tudo, não pára de falar um minuto e há cinco anos não escuta uma palavra sequer de outra pessoa, foi o que me contou o ouvido semana  passada” anúnciou uma boca negra de lábios grossos. E assim se sucederam as bocas em protesto e indignadas. A resultado da votação na assembléia foi unânime: greve. Lábios grudados por tempo indeterminado, até que os donos aprendam a falar a verdade e que pensem um pouco antes de proferir palavras. Não precisa de genialidade para passar a falar, não foi isso que as bocas decidiram, mas resolveram estabelecer um padrão mínimo de consciência pré determinada antes de se moverem e interagirem com outros indivíduos.

O movimento foi foi apoiado por quase todos os outros membros. A orelha, cúmplice do ouvido, também estava sendo prejudicada e temia ficar obsoleta, já que ninguém calava a boca e assim não conseguia ouvir. O estômago temia ser prejudicado, pois achou que as bocas se recusariam a abrir para a ingestão de alimentos. As reuniões estabeleceram e esclareceram os pontos reivindicados, construindo assim um movimento sólido e consistente. E assim se fez. Em uma noite de sexta feira, o silêncio foi determinado a força. Os lábios em conjunto com os músculos do rosto recusaram-se a abrir e a gritaria parou de súbito. Nos bares a música pode ser ouvida; nas igrejas foi possível ler a bíblia sem os devaneios do sacerdote posicionado acima da cabeça de todos; os pensamentos foram ouvidos como se fosse a primeira vez, e muitos se assutaram ao identificarem uma voz dentro da própria cabeça. O silêncio foi estabelecido no mundo inteiro, ao mesmo tempo. Algumas pessoas só descobriram que não poderiam falar horas depois, pois estavam dormindo. Os professores em uma escola na Bahia ficaram calados e os alunos não mais gritavam sem razão. Os pássaros passaram a ser ouvidos e se sentiram reis. Até o bater de asas das moscas passaram a ter seu lugar. O dia nasceu e a paralização continuou… A semana correu e as bocas mantiveram-se fechadas. A greve foi estendida por alguns anos, de forma firme e decidida. O silêncio reinou no mundo dos homens e até os deuses desceram a terra para agradecer e registrar seu apoio total a greve. Todos os deuses desceram. O silêncio era a única palavra de ordem, mesmo que não pudesse ser dita.

As bocas decidiram terminar a greve, achando que haviam ensinado a lição e alcançado o objetivo proposto. Os homens não sabiam o que falar e, por opcão, passaram a ficar quietos, temendo um novo surto sabe-se lá do que.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

O céu está cheio de teias.Teias e moscas presas. O céu está a deus dará, entre as nuvens ecoa o sopro do vento e os raios de sol produzem um espetáculo que ninguém vê. O céu está cheio de teias. As pessoas não o visitam mais, nem em sonhos, nem depois de mortas. Ninguém sabe o que existe no céu, a algum tempo ele está inabitado e nenhum antepassado pode deixar nenhuma informação, pois haviam esquecido. O céu está inabitado. Perdemos tempo demais aqui na terra com coisas que já nem lembramos mais. Os sonhos não ultrapassam os dois mil pés de altura e as nuvens só servem pra provocar chuvas. Chuvas ácidas que não lavam a nossa alma. Os anjos se retiraram aos aposentos e se entediam com jogos de cartas e vinhos baratos. Os anjos inquietos que ousavam rasgar a barriga do céu e descer em busca de aventura, já não o fazem. Pela primeira vez na história o céu está aberto a visitação e somente as aranhas o visitam para esbnajar suas habilidades arquitetônicas.

As ocupações na terra mantém as pessoas por aqui eternamente. As tarefas são tantas que não se pode abandonar o solo nem mesmo depois de morto. Vagam as almas entre prédios frios e postes de eletricidade. Vagam entre as certezas de que sempre fizeram as coisas certas, sem nenhum questionamento, sem nenhuma dúvida. As ruas estão cheias de lixo e orgulho, orgulho e lixo. Nós nas gargantas que silenciam a vontade de gritar, que emudecem o sussurro aos céus. Cabeças que perderam as asas e não mais voam acima dos prédios, que ficaram cabeçudas a ponto de acharem que não precisam de asas. Prenda-me ao solo e me mostre o caminho. Um guia prático e um livro de auto ajuda pra manter a sanidade que se hospedou por aqui. O céu esta coberto de teias de aranha. Ninguém está a salvo. Que os anjos aprendam a morrer e a mentir. Que eu aprenda a andar e a sorrir.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

“Apareceu na porta de entrada e meu corpo estremeceu de um jeito que nunca havia experimentado”, narra o autor de um texto lido por muitos. Logo penso que é paixão, que os dois ficarão juntos em determinada página. Eu quero que fiquem juntos. Com olhares insinuosos e troca de sorrisos discretos os protagonistas nos deleitam com a materialização do amor. Sigo cada passo e transpiro ao descobrir que meu companheiro está sofrendo durante uma noite de lua cheia. O escritor deita. Discorre sobre tudo e todos como se soubesse cada linha do que está falando. Se apropria da voz, da voz dele, dela. Se apropria da minha voz e me faz gritar o que tem vontade. Condenamos homens ruins e salvamos princesas que nunca nos foram apresentadas. Tomamos partido. Talvez seja isso, talvez devamos concluir assim. Talvez não. Por vezes desistimos no meio por não acreditar naquilo que lemos, por outras passamos a acreditar assim que batemos o olho. É um jogo de ilusões e mentiras deslavadas que nos pega pela mão e nos leva por onde quiser.

Enfim eles ficam juntos. Por força do autor, não por força de vontade. Um encontro inesperado na biblioteca e pronto, sela-se o destino. O destino que nos foi apresentado, o ponto final que o personagem não deu. O feliz para sempre determinado muito antes do fim. Por curiosidade continuamos a leitura e nos satisfazemos com as vidas que nos foram apresentas. Fragmentos de vidas, pedaços do que quiserem. Vidas que nos ajuda a levar a vida, até que a nossa vire a mentira que levará um sorriso ao rosto de um inocente.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O tempo. Tempo é tudo que temos sem termos nada. O tempo te tem, te abraça apertado mesmo que você odeie. É implacável como sempre foi dito, não respeita idade, vontade. Não liga pra ética e moral e destrói tudo que existe pela frente. No começo é a gênesis. As colunas, o cimento e o erguer das paredes. A criação de tudo que se torna eterno por tempo indeterminado, o esticar do sorriso e o canto dos mudos. O tempo. Tempo que mistura tudo em alguma coisa, que transforma e recria a cada piscar de olhos. Tempo que cria e mata. O tempo, o mesmo que te põe no chão e te torna cego, que te traz o esquecimento e encerra tudo de bom que já aconteceu. O que te fez sorrir e cantar, dizer e calar. Beijos, muitos beijos que não são promessas. O tempo que te fez perceber o quão idiota sempre foi, e o quão interessante você nunca será. Cura, fere, sangra e mata, tudo de uma vez. Te fez odiar os braços dados e dedos entrelaçados. Tempo que não tenho pra chorar, tempo que tenho pra escrever, sem saber. Tempo precioso pra uns, ocioso pra outros. Tempo pra mim, pra você. O abraço do tempo que pode esquentar e aconchegar, ou esfriar a alma que já esteve por aí, passeando em outros tempos.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Tenho alimentado um animal. No começo, quando apareceu com uma cara amassada, de quem dormiu por tempo demais, eu ignorei. Mas com o tempo passei a gostar dos pelos roçando em minha perna debaixo da mesa. Começamos a trocar confidências e ele se tornou meu maior amigo.  O problema é que não é conveniente que me acompanhe para todos os lados, embora seja a minha vontade. Me tranco em casa e me pego brincando por horas, dias. Jogo bolas e as recebo cheias de baba. Pego bolas e as devolvo cheio de raiva.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Adeus ao mundo meu

Foi deitar cercado de ladrões sedentos de sofrimento e sangue. Antes de encontrar seu fim despediu-se como deveria de cada membro da família. “Boa noite mamãe, eu te amo muito” “Boa noite, meu amor”, respondia a mãe, enquanto preparava a marmita para o almoço do dia seguinte. Parou na porta do quarto do irmão mais novo e o observou brincando com um boneco de cabeça laranja, sem perna. Não entendia o porquê o irmão gostava tanto daquele boneco de cabeça laranja, laranja, onde já se viu… Pensou em despedir-se também do irmão caçula e o fez, não do jeito melodramático que experimentara com a sua mão na cozinha, mas de um jeito brando, simples. “Vai a merda, Luiz.” disse sob o batente, disfarçadamente emocionado. “Cala a boca, seu bosta” recebeu como resposta. Sorriu e virou-se em direção ao quarto. Não foi dizer adeus ao pai, pois sabia que ainda estava na fábrica. Sempre chegava de madrugada quando tinha esses ‘novos projetos’ para terminar.

Conversou com seu dinossauro predileto, pediu que cuidasse de tudo na sua ausência e disse que deixava todos os seus bens para o querido amigo, como prova de seu carinho. Chorou e pediu para que não debochasse, beijou e enrubesceu, apoiou o fiel amigo no travesseiro e o cobriu. “Boa noite e obrigado” disse olhando nos olhos do predador, inofensivo debaixo daqueles lençois. “Boa noite, meu amigo” respondeu o dinossauro.

Não sabia que ladrões o viriam pegar naquela noite, ou que enfrentaria oito homens sozinho, com uma espada mal afiada. Não tinha como descobrir os mistérios que o aguardavam por trás das pálpebras ainda enrugadas. Só sabia que quando a cortina de pele baixasse, estava por sua conta. Cumpria o ritual todas as noites, sabendo que qualquer uma poderia ser a última.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Texto para quem gosta de não texto

Desde cedo eu vi a jaula. A jaula suja e escura, localizada no fundo do que parecia ser uma sala enorme. Aos poucos passei a jogar pedaços de pão e restos de comida só por diversão, gostava de mirar bem no meio do quadrado, do cárcere do que eu ainda não sabia.

As migalhas desapareciam e eu tornava a repetir o gesto. Aos poucos isso se tornou um hábito. Desde criança, alimentado pelo que ouvia dizer a respeito daquela jaula, vivia olhando de canto de olho, sem nunca me perguntar afinal o que é que havia la dentro. E as migalhas continuavam a forrar o chão do lugar e a sumir logo em seguida. Me tornei bom nisso com o tempo. Conseguia acertar exatamente onde desejava.

Nunca enxerguei o fim da dita jaula. A partir de um período fiquei fissurado pelas barras enferrujadas e não conseguia mais arredar o pé daquele lugar. Todas as vozes de infância faziam eco em minha cabeça, vozes que me alertavam a respeito da criatura guardada entre barras.

Nunca enxerguei o fim da dita jaula. Ontem consegui ver a porta, pela primeira vez. Fiquei entusiasmado, obviamente. A ansiedade me tomou por completo e me fez aproximar da porta pra tentar qualquer coisa. Uma inquietação me fez suar frio e sentir vertigem. Procurei me conter ao tentar localizar alguma maçaneta. Foi quando percebi que a fechadura estava virada para o outro lado e que o fim daquela jaula estava bem atrás de mim.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Entrou no quarto escuro, sem sombras ou luz que lhe servissem de referência. Cambaleou no começo, apoiando-se em qualquer coisa. "Você está aí?" perguntou a segunda voz, alta como se usasse um megafone. "Responda, voce está aí?" Não sabia se devido a inutilidade da visão dentro naquele cômodo a audição havia melhorado ou se a voz estava realmente alta do jeito que lhe parecia. Abriu a boca e tentou responder, sem efeito. Encontrou uma cama e sentou, tentando focar qualquer coisa a sua volta. Conhecia aquela cômodo, ja havia visitado aquele lugar algumas vezes, não tantas como deveria, não tantas como queria, mas não era de todo estranho. Apalpou a colcha e sentiu a poeira entre os dedos, o travesseiro abandonado entre as cobertas. Ergueu-se devagar e esticou o braço afim de sentir uma prateleira que ele sabia estar ali na frente. Sentiu a brochura e sorriu, passou rápido para os livros do lado, uma pedra velha repousando no pedaço de madeira. Sabia sobre cada objeto guardado ali, conhecia aquele lugar. Sorriu e continuou, de olhos fechados agora, uma vez que os olhos já não lhe serviam de nada. Deus, como era bom estar de volta. A voz que o chamava de longe começou a diminuir o tom e um som metálico passou a preencher todo o local. O despertador o troxe pra vida real. Não conseguia ficar com ele mesmo, não visitava sua cabeça fazia um tempão... Vestiu a calça e voltou a pegar no batente após um descanso de duas horas.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Em um futuro não muito distante, fez-se a liberdade. Liberdade de ir e vir, pensar, falar, gritar; liberdade sexual e entre gêneros, fez-se a liberdade. A tão desejada e utópica liberdade. Aquela de textos e idéias, livros, músicas e filmes. Livres de qualquer encargo ou horários as pessoas poderiam fazer o que quisessem. Sem dedos apontando direções, ordens a serem seguidas ou líderes idealistas. As pessoas poderiam pensar o que quer que fosse agora, sem necessidade de prestação de contas após o ponto final. O tão sonhado mundo livre, de tudo. O vizinho não colocou o relógio para despertar, o padeiro não assou os pães pela manhã e você não comprou a bolsa que anunciavam na televisão. Atravessar fronteiras sem supervisão de chefes de Estado ou datas previstas para expiração e um andar leve, delicioso e macio. Tudo como queríamos, o maior dos problemas resolvidos. A satisfação entrando pela corrente sanguínea e trazendo a sensação de felicidade ininterrupta, um torpor de sensações mescladas e uma mente adormecida, preguiçosa. Não sabíamos como seria a sensação e continuamos sem saber. Cada um fazia sua idéia na cabeça, afinal de contas todos tinham a liberdade de pensar ou desrespeitar opiniões alheias. Não tardou a aparerer centenas de teorias sobre qualquer coisa, a política deixou de existir, já que não havia necessidade de disputa ou argumentação sobre divergência de opiniões. Todos eram todos na multiplicidade do ser, na liberdade do relativismo e na interpretação de todos os fatos. O caos se fez sem que adimitíssemos, poderia chamar do que eu quiser e você também. A bagunça era generalizada nas ruas e avenidas da cidade e aos poucos passamos a não saber o que fazer com nós mesmos. Sem concordância alguma entre discussões sobre os bezouros que carregavam formigas ou qualquer coisa do gênero passamos a odiar todo mundo, sem perceber que odiávamos a nós mesmos. Podendo ir a qualquer lugar ao acordar, ficávamos cada vez mais nas nossas camas e aos poucos tornamos a ligar nossas televisões, que já não passavam nada. A liberdade confundida com desrespeito, o ego intoxicando a opinião. Humanos que não ouviam mais nada. Foi essa a liberdade encontrada e exercida em um passado não tão distante

terça-feira, 5 de junho de 2012

Os opostos que vivem a nos regular! Eu, eu, eu. Busco referência em tudo e qualquer coisa, tudo que legitime meu sorriso, que me faça dormir tranquilo. A estampa da minha camisa mostra o que quero de mim, a parte que escolho, o pedaço que me agrada. Uso superlativos pra enfatizar o que penso. É uma busca constante por qualquer identidade, pois não quero me sentir sozinho... Pro inferno com tudo. O pensar que sou especial me faz arrogante. A individualidade e relatividade das ações me livra a cara dos problemas, me fazendo dormir tranquilo, finalmente. Talvez eu não tenha que dormir tranquilo, talvez eu não tenha que escolher a parte que me agrada; provavelmente deveria andar nu em pêlo pelas ruas, sem apontar, mas ser apontado. A vergonha multiplicada pelo ego nos faz correr. Correr não sei pra onde até alcançarmos o destaque. Destaque entre o que escolhemos, pra nos diferenciarmos dos outros, outros que odiamos, mas que regulam o meu sucesso. Afinal, o que seria de mim se não existissem os derrotados? E a corrida continua: encha sua garrafas com água e respire fundo. Vou fazer um café.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Parte 2 do texto sem nome

Com 12 anos de idade Gustavo não havia desfrutado de algumas emoções tão comuns a muitos de nós. A peculiaridade de sua existência enclausurada fez com que sua vida fosse se moldando dia após dia, sem perspectiva ou planejamento prévio. O sol se escondera e a noite deitava seu manto de estrelas sobre a cidade enquanto Todos na casa aqui referida dormiam. Gustavo nunca sonhava, toda noite vinha e partia como as notícias que nunca ouvimos, notícias em línguas que desconhecemos, sobre países que nunca visitaremos, notícias que não causam efeito algum. Durante a noite de um outono passado Gustavo acordou. Levantou e foi molhar a garganta quando deu de cara com a porta da cozinha escancarada. O vento fazia as cortinas dançarem frenéticamente e traziam a música cantada pela natureza pra dentro da casa, música que não era bem vinda àquela hora. Correu pra fechar a porta e avistou uma escada posicionada no muro da frente da própria casa. Decidiu subir pra ver onde dava, já que a escada estava no quintal. Provavelmente havia sido deixada la por esquecimento de seu tio descuidado. Subiu por tempo indeterminado, tempo que não poderíamos calcular de acordo com a nossa concepção. Subiu um degrau atrás do outro e chegou ao céu. Passeou distraidamente observando a disposição dos elementos que apareciam a sua frente sem se dar conta do caminho que fazia. Depois de tanto pé na frente do outro percebeu que muito provavelmente estava longe de casa. Olhava pra baixo e via uma cidade linda, toda iluminada sob seus pés. Nunca, em toda sua breve existência vira imagem tão marcante e fabulosa. Pela primeira vez na vida entendera as frases se Shakespeare. Sentiu que poderia conversar sobre sua viagem com Julio Verne sem ficar pra trás ou envergonhado por não ter tantos causos assim. Sentiu que as palavras em sua cabeça tinham outro gosto agora, outra cor. Sabia o rítimo da música ao ler Goethe sem nunca visitar a Alemanha, agora ele sabia. Sentiu pela primeira vez, sentia. As palavras e sensações o acometiam, todas de uma vez. De olhos fechados deixou que o turbilhão o pegasse e fizesse de tudo. Palavras chegando, batendo... Recordar... 'Do latim re-cordis, tornar a passar pelo coração' Sua vó. Tentou descer correndo as escadas que o trouxeram até ali e caiu. Caiu leve, delicadamente até o quintal que conhecia tão bem. Não saberia dizer o tempo que durou a queda, muito menos a sensação que sentiu. Apostou que nenhum dos autores que conhecia o poderiam fazer. Entrou pela porta da cozinha, bebeu um copo de água e foi até o quarto, deixando-se cair deliciosamente entre os lencóis. Acordou no dia seguinte e foi em direção ao quintal, onde sua vó costumava ficar sentada, tomando sol. Percebeu que ela parecia muito mais velha que de costume, mas não disse nada, sentou-se e pegou um livro pra começar sua leitura matinal em voz alta. Antes que começasse, viu o tio entrando com um carro na garagem, não tinham carro. Quando a porta bateu e o sol decidiu mostrar o rosto do parente Gustavo pode notar que seu tio havia envelhecido uns 6 anos durante aquela noite. Não sabia se havia sonhado, não tinha como descobrir. Pegou o livro, ignorando a discrepância física do sujeito que estava a sua frente e começou a ler. Parou e repousou o livro no chão. Respirou e olhou pra avó ao recomeçar "Havia uma escada no quintal e ventava forte..." O sorriso conhecido da avó o fez continuar, ininterruptamente. Recordar. Gustavo jamais esqueceria o significado daquela palavra.

Parte 1 do texto sem nome

Pouco se sabe sobre crescer sem pais quem sempre usufruiu do afeto de um par de braços. Braços que envolvem, apertam e acolhem. Aperto que aconchega e proteje. Amor que livra do abismo, sem eliminar o vento fresco no rosto. Amor que aperta, pois amor sem aperto no peito nada mais é do que um engano. Portanto, quem cresceu e cresce perto das pernas altas em vestimentas de verão pode não entender muito bem o que vou contar agora. É coisa rápida, prometo. Nada tão interessante também, porém, o que tem pra fazer mesmo? Quando Gustavo nasceu, contava com uma Avó doente e um tio. Sua mãe morrera logo após o parto, por conta de complicações durante o procedimento. Quando soubesse daquilo, Gustavo se sentiria culpado pela morte da mãe e carregaria aquele peso pelo resto da vida. Mas isso não vem ao caso. O que nos interessa é saber que a vida do jovem exposto nessas palavras se resumia a Avó e o tio. Avó que sofria de alzheimer e tio que precisava de mais cuidados do que o recém nascido. Não admira que desde cedo Gustavo aprendeu a se virar. Fazia sua própria comida aos cinco anos de idade e aos 7 lavava e passava sua própria roupa, enfrentando todos os perigos e aventuras que se escondem dentro de um ferro de passar. Foi mais ou menos nesse período que Gustavo conheceu seus amigos asiáticos e viajou para o oeste durante o verão. Aprendeu a ler sozinho e o fazia sempre que podia. Lia para sua vó em voz alta e clara, enquanto a mesma sorria, achando graça em cada palavra. O tio não parava em casa, quando passava era pra tomar um banho ou comer alguma coisa. Se acostumaram a ausência do outro e seguiam a vida desse jeito. Entre leituras soltas e bonecos sem cabelo, descobriu o que a palavra recordar significava 'Do latim re-cordis, tornar a passar pelo coração' Refletiu por um momento mas logo descartou o pensamento por não fazer sentido. "passar o que pelo coração?" Gustavo não tinha nada do que recordar, uma vez que sua vida se resumira aos três cômodos a que estava habituado. Nunca havia saído de casa. Seu maior passa tempo era a leitura, com oito anos de idade conhecia Guimarães Rosa de trás pra frente e citava qualquer trecho de Saramago, sem pestanejar. Era uma atividade ótima essa de ler e, acima de tudo, decorar livros. Nunca frequentara a escola, portanto, nunca chegou a ouvir "você precisa entender o livro, o que o autor quer dizer..." e essa baboseira toda. Todo conhecimento que tinha vinha diretamente dos livros que um dia pertenceram a sua vó, ex-professora de literatura em uma escola qualquer. Achou que sabia tudo, sem que ninguem o pressionasse ou cobrasse qualquer coisa. Pois quando não se tem com o que comparar, qualquer resultado é o máximo, ou o mínimo.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Os ofícios nos são apresentados numa cartilha cheia de cores que indicam as diferenças e semelhanças entre cada um. "Pra você que nasceu assim; pra gente que pensa assado" Ofícios exóticos e comuns, atividades estranhas ou bem vistas pela sociedade. Entre as idas e vindas, os blocos de cimento depositados nas costas cansadas de fardo, não se encontra tempo pra pensar no que fazer pro resto da vida. Pro resto da vida. Parece muito tempo, meu deus. Vida de vitrine, mãos que cheiram a isopor. O cérebro que estica e retrai recebe uma saraivada de balas que machucam e cicatrizam... Balas que gritam, balas que brilham, que sorriem e envelhevem, apodrecendo aos poucos, deixando nada mais que que alguns decibéis indecifráveis e um brilho que ofusca a visão... Entre o entretenimento que distrai e o tempo perdido no tempo, não se fala muito sobre o que quer. Falta o gosto e sobra a culpa. A culpa de não sei o quê, o dever que não nos sustenta ou apetece. Da sensação incômoda surge a necessidade que lhe foi sugerida. Não sua, não minha. viciados em algo que não existe, seguimos emoções fabricadas e nos sentimos confortáveis. Um conforto que dura pouco e logo dá lugar a coçeira e a insatisfação. Um não saber o que fazer generalizado. Os ofícios nos são apresentados. Entre uns e outros, escolhemos o que fazer para o resto da vida. A vida inteira. É muito tempo, me parece. Direcionar a nave logo no começo da viagem, mas como saber a curva que me aguarda logo a frente? Eu não sei. Prefiro esperar a esquina me pegar de surpresa e quem sabe, se for de minha vontade, parar pra comprar umas laranjas na quitanda que eu hei de encontrar pelo caminho.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Começou aos poucos, como se nada fosse. Um câncer aqui, o sentido da visão devolvido como em um acender de luzes, a tuberculose que voa pra longe com asas improváveis. Acontecia assim, de uma hora pra outra, entre um bocejo e um prato de arroz. De onde vinha era tido como um qualquer. Na cidade dos milagres estranho é ver quem adoece ou padece de doença qualquer. Não precisava de muito e vivia de rede em rede, árvore em árvore, com o sol sob a cabeça e calo nos pés, sabia aproveitar o que o mundo lhe proporcionava de mais belo. Seu nome não é importante. Podia-se chamar José Qualquer ou Jorge de Alguma Coisa. O que conta pra nós são seus feitos milagrosos, pra nós, não pra ele que via com naturalidade a capacidade de cura que Deus lhe deu. Foi em uma viagem inesperada pra São Paulo que viu sua vida mudar. Pés nos sapatos pela primeira vez, pés que traziam um bichinho gostoso demais de coçar. Achou engraçado quando ouviu o nome da cidade "São Paulo", repetiu consigo mesmo, sorrindo. Achou que seria mais um dentro dessa São Paulo. Mudou-se por ordem do juiz de todos os tribunais, que achou por certo transferir o menino pro mundo dos homens após ficar órfão. Viagem comprida essa até São Paulo. Chegou em uma noite de sexta-feira, foi largado por um ônibus de transporte público do governo da cidade dos milagres em um bairro sujo, cheio de gente e frio. Os dias se seguiram sem muita novidade. Tratou logo de arranjar um barraquinho pra esticar os ossos e um bar pra esticar os pensamentos. Notou que havia muitos enfermos na sua atual cidade, gente com todo tipo de doença, algumas criadas pelas próprias pessoas e prorrogadas pela ganância de todos que o rodeavam. "Ganância", achou bonita a palavra quando a ouviu pela primeira vez. Passou a ajudar no que podia as pessoas que faziam parte de sua nova vida. Uma enchaqueca pela manhã, dores nas costas pela tarde e dores de amor ao anoitecer. A tarefa de realizar milagres o mantinha ocupado o dia todo e isso era importante agora que vivia em um lugar novo, desconhecido. Passou bem uma porção de dias, até mesmo o dia em que um procurador do governo do Estado de São Paulo levou uma intimação até a porta de seu barraco acusando-o de trabalho ilegal, sonegação de impostos e uma porção de coisas das quais não entendia nada. Contou com o auxilio de alguns colegas que havia ajudado e conseguiu uma licença pra exercer seu 'ofício' com a autorização do Estado. Não conseguia comer porque não tinha o tal do dinheiro que tanto lhe pediam quando precisava de alguma coisa; não achava árvores com frutos que lhe saciassem a sede e a fome, não entendia nada do que acontecia. Foi enquanto coçava seu bicho de pé em uma rede improvisada que teve a idéia que mudaria sua vida pra sempre. Pensou em cobrar pelos serviços que prestava às pessoas, assim poderia comprar o que comer e vestir. Achou genial as idéias que lhe pegaram de surpresa e decidiu aplicá-las já no dia seguinte, pela manhã. Esticou uma placa feita de papelão e tinta vermelha em frente ao barraco que trazia as palavras "milagres por R$ 10,00". Foi assim que o São qualquer coisa começou seu império na cidade de São Paulo, meio que por necessidade, meio que por tédio, meio que por raiva dos que lhe tiravam a paz. Foi assim que o São qualquer coisa se tornou o homem mais rico do mundo, dono de uma casa que passaram a chamar igreja e general de um exército que se auto denominava fiel. Só não sabia fiel a quê.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Colocar aqui um texto que presta, só pra variar: "Estou lendo um romance de Louise Erdrich. A certa altura, um bisavô encontra seu bisneto. O bisavô está completamente lelé (seus pensamentos têm a cor da água) e sorri com o mesmo beatífico sorriso de seu bisneto recém-nascido. O bisavô é feliz porque perdeu a memória que tinha. O bisneto é feliz porque não tem, ainda, nenhuma memória. Eis aqui, penso, a felicidade perfeita. Não a quero." A desmemória/1 - Eduardo Galeano em "O Livro dos Abraços"

A origem dos nomes

Quando Renato Augusto saiu de casa na manhã de quinta-feira, não poderia imaginar que aquela seria a última vez que veria o taco gasto da porta de entrada da sala. Mochila nas costas, um gole longo no suco de limão, de saquinho e um pé na frente do outro, rápido, enquanto seca a boca na manga da blusa de moletom. O vento frio do lado de fora era um prelúdio do que aconteceria naquela tarde. Como se não bastasse o atraso de quarenta minutos pra aula, os ventos que sopravam o ouvido de Rentao Augusto anunciavam o causo e a tragédia anunciada. Passou pelos vizinhos sem cumprimentar, como sempre fazia. Vinte anos de convívio não foram suficientes para produzir nenhum afeto pelas pessoas que rodeavam sua casa, que acordavam e dormiam sobre o mesmo sol, que elegiam o mesmo prefeito. A indiferença de sempre manteve os olhos de Renato fixos a frente, sem mirar ponto algum no horizonte. Não fosse tão distraído, perceberia os anjos que habitavam a árvore no fim da rua procurando o que comer nos lixos da vizinhança. As asas que não eram nada discretas denunciavam a origem divina daqueles corpos. Continuou veloz e cruzou a esquina, ignorando o nome na placa "Gustavo de Souza". Fazia o mesmo caminho todos os dias, duas vezes. Nunca notou a casa de tijolos verdes que se esticava por todo o quarteirão. Escola, almoço, escola. Podia ser considerado um aluno esforçado, o Renato Augusto. Não fosse o acontecimento daquela tarde, alcançaria um posto importante dentro do ramo tecnológico. Eu sei, tenho toda a trajetória aqui na minha mão. Se a minha falta de jeito com a caneca de café não tivesse atrapalhado, saberia descrever até o que aconteceu durante a tarde. Maldita distração... Ao descer as escadas encardidas da escola, sentiu um arrepio na espinha, daqueles que só acontecem uma vez na vida e bem perto do fim dela. Como é uma sensação completamente nova, seria impossível adivinhar o que estava por vir. Fez o caminho conhecido de volta pra casa e virou uma esquina a esquerda. Foi a última vez que faria qualquer curva. Não se viu de onde saiu ou onde entrou, nada se sabe sobre o que ocorreu. Um descuido no roteiro da vida, uma mancha de café que apagou Renato Augusto da história. Os anjos não pararam de revirar o lixo, o sol não parou de brilhar e nenhum copo foi quebrado no restaurante do centro da cidade. Um desaparecimento silencioso e repentino. Dias de desespero se seguiram entre amigos e familiares, uma busca bem empreendida pela polícia local não trouxe nenhum resultado. Um descuido do escritor de destinos que trouxe o fim abrupto de uma vida inocente. Passado um tempo, tempo suficiente pra que os cartazes de desaparecido se desfizessem junto a chuva, tempo pra que a memória lembrasse do esquecimento, fez-se a justiça celestial. Porque o mundo não deve pagar pelos erros de um senhor qualquer que brinca a vida dos outros com um lápis afiado. Quando os desaparecidos já não têm lugar em nossa memória, o espaço lhes é garantido e no momento em que termino de contar essa triste história, Renato Augusto ganha uma placa. Seu nome de batizado dará nome a rua de uma cidade no interior. Nome que ninguém reconhecerá, placa que não será lida; objeto que traz justiça a um pobre coitado e paz de espírito ao escritor descuidado.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Peço paciência como quem pede um pouco mais de açucar no chá. Como quem não entende nada de física e decide erguer um prédio com as próprias mãos. Mãos que não sabem nada de pedra, cimento, massa corrida. Com um objeto redondo na mão, abro a boca e discorro sobre o encaixe perfeito em uma superfície triangular, não sei nada do que falo. Não fui jogado entre paredes estranhas, carros barulhentos e palavras que soam diferente, engraçadas. Não faço idéia do que é ser puxado para centenas de quilômetros de qualquer coisa conhecida. Como é pousar em terra desconhecida e ser julgado por cada passo que dou na escuridão. Ânsia pelo novo, vômito que materializa a insatisfação. Uma vontade de se encontrar dentro de qualquer coisa, qualquer pessoa. Não sei o que é isso e talvez nunca saiba. É fácil pedir pra sorrir com as luzes do sol quando se conhece cada milímetro iluminado de um quarto. É fácil correr pra casa quando alguma coisa da errado, é fácil. Quando cada rua te leva pra caminhos conhecidos, cada esquina te conforta. Quando os fios do pensamento não convergem e a estupidez senta ao seu lado, te peço paciência. Como quem ignora as coisas todas, como quem sempre teve as pernas cobertas e aquecidas no frio, eu peço paciência. Os mares que te levam rumo a um porto qualquer seguem agitados agora. Nunca naveguei em navio algum, não sei qual a cor da água quando se está a trezentos quilômetros da costa, a deriva. Não sei. Sei que no fim da viagem encontrará um bosque colorido, um acampamento seguro e tons de verde que lhe agradam. Sei que as notas que saírem do violão te farão cantarolar com o sorriso no rosto, aquele, o que eu mais gosto. Sei que voltará acompanhada pra casa e sentirá o conforto que foi deixado pra trás. Por isso e por mais uma infinidade de coisas que eu desconheco, te peço paciência.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Balas e Pingos

Pegou o telefone e ficou segurando junto com o pedaço de papel toscamente rasgado. Papel que trazia o número da salvação, da sua salvação. Pesquisara em todos os lugares possíveis, todas as ruas e vielas do centro da cidade suja e antiga, quase tão antiga quanto as mãos que seguravam o telefone. Trazia a preocupação consigo a muito tempo, mas só agora decidira fazer qualquer coisa a respeito. Antes de seguir o plano a cabo, certificou-se de que estava lidando com o melhor, com alguém infalível. "Nunca deixou de concluir um trabalho sequer" garantiu seu amigo da padaria, quase tão velho quanto ele próprio. Seguiu por alguns minutos com o papel e o telefone na mão, tremia um pouco, em partes pela idade elevada e por outras pelo nervosismo que o acompanhava. Vinha adiando aquele momento e não podia mais deixar as coisas como estavam. A ameaça o perseguia todos os dias, dia e noite, e a perturbação passou a atrapalhá-lo nos afazeres cotidianos. Endireitou o dedo enrugado e, com firmeza, começou a discar o número que trazia em mãos. Falava em voz alta ao mesmo tempo em que discava, para ter certeza de que não cometeria nenhum erro. O telefone sabe-se lá de onde tocou uma, duas, três vezes. "Alô" disse, simplesmente, a voz grave e com sotaque do outro lado. "Desejo contratá-lo" informou o primeiro homem. "ok". Passou todos os detalhes dos quais tinha conhecimento ao contratado e pediu rapidez na execução da tarefa. "Vêm me perseguindo já a algum tempo, não aguento mais. Tenho certeza que sabe onde moro e até os horários em que vou ao banheiro. Já peguei me vigiando durante o sono!" falou, baixando para uma espécie de sussurro alto no fim da frase. "Comprei uma arma, mas acho que não tenho coragem de usá-la. Tenho certeza que um profissional fará um trabalho melhor" concluiu. "Não se preocupe senhor, dentro de 48 horas ninguém o incomodará. Matei um dragão mês passado com nada mais do que minhas mãos". O Atirador veio seguido de ótimas recomendações. Anotou todas as informações em sua caderneta e partiu pro trabalho na manhã seguinte. Seguiu os passos do senhor que o havia contratado para que pudesse criar um sistema e mapeou cada pessoa com a qual o velho lidava todos os dias. Ficou intrigado com algumas companhias que o rodeavam, mas não havia nenhum indício concreto de um possível assassino. As 48 horas se passaram e a frustração do velho passou também a incomodar o mercenário. Não aceitaria mais nenhum cliente enquanto seu trabalho não fosse concluído. Passou noites em claro, analisando fotografias e anotações que se tornaram antigas com o decorrer dos longos meses. Fez campana em frente a casa do velho que passou a ignorar a existência do atirador fajuto. Março é um mês chuvoso e todos sabem disso. Incapacitado de fazer qualquer atividade a céu aberto que fosse, o velho cliente ficou nove dias completos em casa, lidando com uma pneumonia que o agarrou com força e não o deixava de jeito nenhum. O trabalho do mercenário passou a se restringir aquele pequeno quarteirão, uma vez que seu cliente não poderia ser morto em qualquer outro local que não sua própria casa. Na noite do último dia de chuva, de dentro do carro, viu um homem subindo por uma escada improvisada na lateral da casa. Subia de forma desajeitada, mas com firmeza. Subiu e entrou pela janela sem nem se preocupar com a escada que deixara do lado de fora. O atirador saiu do carro com rapidez e entrou pela porta da frente com a cópia da chave que havia feito para si. Subiu as escadas em um pulo só e encontrou seu cliente deitado, aparentemente delirante, encolhido entre cobertas. "Acabou, amigo" disse para o homem que assistia o senhor, com um martelo na mão. "E quem é você?" perguntou o homem com um sorriso assustado. "Eu sou o seu fim" e deu um tiro bem no meio da testa de seu interlocutor. Satisfeito com o próprio desempenho, escreveu uma carta para o senhor cliente que já não tremia mais, apenas dormia, e saiu pela janela, porque parecia mais legal. Sem saber o que acabara de fazer, voltou pra casa e dormiu merecidamente, por dias seguidos... Quando retomou os trabalhos passou a ter muitas dificuldades, não conseguia concluir nenhum serviço e entrou em depressão profunda. Naquele dia chuvoso havia matado sua única companheira de trabalho. Com uma bala no meio da testa, seria difícil encontrar a morte em qualquer lugar que fosse. Aposentou-se mais cedo do que pensou, com a maior fila de clientes que já existiu.